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Lafer LL 006: o paradeiro no Pará

Agachados diante do Lafer LL 006 em Santarém do Pará: Alan Dolzane e José Francisco Viana.
Agachados diante do Lafer LL 006 em Santarém do Pará: Alan Dolzane e José Francisco Viana.
 
Depois de mais de uma década desaparecido, reaparece o que sobrou do Lafer LL número 6, com uma das 8 carrocerias que a Lafer produziu há meio século.

O site mplafer.net é uma espécie de guardião da memória do MP Lafer, do Lafer LL, dos clubes dedicados à marca e da própria Lafer, que encerrou a fabricação de móveis em 2022, depois de 95 anos de história. Estamos online desde 2001 e vimos surgir várias tendências na Internet, inclusive a das redes sociais, que dizimou incontáveis sites e blogs variados, de uma época em que produtores de conteúdo, profissionais ou não, alcançavam o público organicamente, sem gastar um centavo com anúncios e postagens patrocinadas.

Em 2025 é preciso garimpar para encontrar o que se procura, uma vez que os mecanismos de busca deixaram de ser eficientes há muito tempo, pois passaram a priorizar a rentabilidade oriunda de grandes plataformas de comércio, cujos programadores de SEO (sigla em inglês para Search Engine Optimization ou Otimização para Motores de Busca, em português) fazem o termo "MP Lafer" aparecer primeiramente em Marketplaces, deixando as páginas com conteúdo relevante lá no limbo. 

Ainda assim, por insistência de alguns, que cavam na terceira ou quarta página de resultados de busca, somos encontrados e recebemos algumas notícias que, cedo ou tarde, compartilhamos por aqui. Então, em 16 de outubro de 2024, recebemos um e-mail do Bruno Corrêa, com uma fotografia anexada mostrando um raríssimo jogo de rodas do Lafer LL, acompanha da seguinte afirmação:

"Estava procurando um jogo de roda tala larga para meu Opala e acabei achando esse jogo em uma oficina em Campinas. Quando montar no meu Opala mando mais fotos."

Jogo de rodas do Lafer LL: mais raro que pé de samambaia pendurado na lua.
Jogo de rodas do Lafer LL: mais raro que pé de samambaia pendurado na lua.

Até aí, tínhamos uma informação localizada, mas sem conexão com uma história maior. Não tardou, porém, para o Alan Dolzane nos encontrar no Instagram, apenas doze dias depois. Ele perguntou se havíamos publicado o artigo "Um Lafer LL no Amazonas" em junho de 2011 (portanto, há quase 14 anos). O texto se referia ao Lafer LL 006, que se encontrava aparentemente encostado numa oficina da periferia de Manaus, capital do Amazonas. Na ocasião, o carro foi posto para venda, pois o proprietário estava desinteressado em seguir com a restauração do modelo, já severamente desfigurado. Na sequência, um diálogo se iniciou após o envio de imagens com o estado atual do carro:

Alan Dolzane: "Sou fã de carros e gosto de garimpar esses tesouros perdidos, creio que esse seja o MP que tenha sumido das ruas, já que ele se encontra guardado."

Jean Tosetto: "Alan, esse é um raríssimo Lafel LL. Tem mais informações sobre o carro? Sou editor do site mplafer.net e certa vez escrevi um artigo sobre esse carro. Toda informação será bem-vinda."

AD: "Sim, esse veio de Manaus , agora se encontra em Santarém, Pará, nas mãos do mecânico e preparador José Francisco Viana, conhecido como Padre Preparações. Estávamos tentando decidir o que fazer com o carro, já que não há peças de reposição. Estávamos cogitando em preparar ele para arrancada e aproveitar sua plataforma já adaptada para o motor do Opala. O carro, até o momento, está guardado em uma garagem, longe da ação do tempo que já castigou demais aquela joia. Esse carro ainda voltará às ruas, seja na originalidade dos seus dias de glória ou seja com um 6 cilindros turbinado, pronto para correr, mas não iremos deixar esse veículo se perder novamente."

JT: "Alan, esse carro merece ficar original. Se o proprietário tiver interesse em vender, posso ajudar a encontrar um entusiasta da marca disposto a recuperar o carro."

AD: "Resta saber o que ele quer fazer com o carro, mas como não consegui fazer o comentário lá na página, decidi vir aqui dizer como o carro está e onde está. Sei que deve ter fãs por todo Brasil, e essa relíquia não irá se perder para o tempo."

JT: "Só foram feitas 8 carrocerias desse carro. Ele merece ficar original."

AD: "Partilho do mesmo pensamento."

JT: "Oriente ele para tentar preservar o chassi original junto da carroceria, se der para salvar o chassi."

AD: "Irei fazer isso, na verdade já fiz. Tanto que as caixas de roda ainda estão originais."

JT: "Vou te passar o contato do Bruno Corrêa, ele tem as rodas originais do Lafer LL! Ele é do interior de São Paulo. Você pode tratar direto com ele. Fica tranquilo, faço isso só para ajudar. Zero comissão."

E desse modo, tentamos fazer a nossa parte para que um Lafer LL possa ser recuperado da melhor forma possível. O site mplafer.net tem uma página de contato para quem quiser colaborar com esse resgate, seja com eventuais peças de estoque, seja com orientações e repasse de contatos de quem pode prestar algum tipo de serviço relacionado a um carro com carroceria de fibra de vidro amalgamada no chassi de um Chevrolet Opala.

O Lafer LL 006 com dois faróis dianteiros a menos.
O Lafer LL 006 com dois faróis dianteiros a menos.

A entrada de ar (não original) foi suprimida da tampa do motor.
A entrada de ar (não original) foi suprimida da tampa do motor.

Do acabamento do interior do Lafer LL 006 sobrou só o interior.
Do acabamento do interior do Lafer LL 006 sobrou só o interior.

O bocal do tanque de combustível esperando o dia de receber o bico de uma bomba de gasolina.
O bocal do tanque de combustível esperando o dia de receber o bico de uma bomba de gasolina.

A traseira do Lafer LL 006 igualmente depenada.
A traseira do Lafer LL 006 igualmente depenada.

Rodas motrizes de grande porte indicam que o Lafer LL 006 seria usado em pistas de arrancada.
Rodas motrizes de grande porte indicam que o Lafer LL 006 seria usado em pistas de arrancada.

Enfim, se você ama carros antigos e os modelos da Lafer especificamente, sua ajuda será bem-vinda. Agora, se você é só um especulador querendo lucrar com o sonho de terceiros, fique na sua, pois não queremos mais perder tempo com esse tipo de triagem. Em mais de duas décadas editando este site, nunca ganhamos um centavo de rebate sobre qualquer transação e seguiremos nesta toada. 

Nossas fontes de renda com este projeto editorial são apenas os anúncios veiculados pelo Google em nossos artigos, bem como os royalties sobre as vendas do livro do MP Lafer. Além disso, também somos afiliados da Amazon, que nos remunera pela recomendação de livros de outros autores, relacionados direta ou indiretamente com o meio automotivo.

Veja também:

Lafer LL

Um Lafer LL no Amazonas

Lafer LL 001

O Lafer LL no Museu do Automóvel de Canela

O Lafer LL 005 está sendo restaurado na Bahia

O livro mais esperado dos últimos 40 anos *

Lafer LL

A frente do Lafer LL, com dois pares de faróis em respeito às normas técnicas norte-americanas dos anos 70. Seu desenho conciso antecipou em uma década, o estilo adotado pelo VW Santana, entre outros.

O Lafer LL foi um projeto da Lafer desenvolvido em meados dos anos de 1970, na esteira do sucesso do MP Lafer, um modelo exportado para vários países.
Na década de 1970, o Brasil tinha seus portos fechados para a importação de veículos. Naquela época três grandes empresas dominavam o mercado nacional: a Volkswagen, a General Motors e a Ford - com a Chrysler fechando suas portas no país, que mais tarde receberia a Fiat. Com a falta de concorrência de modelos internacionais, pouco se investia na diversificação de nichos de mercado, deixando lacunas para empreendedores de menor porte explorarem seu potencial criativo, especialmente para atender a demanda por carros de apelo esportivo, assim como a busca de alternativas de maior requinte.

Justamente por tolerarem um acabamento mais espartano, as versões esportivas foram as primeiras que saíram das pranchetas dos projetistas, conquistando o público brasileiro através de uma receita que seria muito usada pelos fabricantes de carros especiais ou foras-de-série: carroceria de fibra de vidro sobre conjunto mecânico de fácil manutenção, ou seja, de confiabilidade absoluta com grande disponibilidade de peças de substituição. Como é de se imaginar, não haviam muitas variações para a escolha deste conjunto, elegendo-se os motores VW do Sedan Fusca, e o GM do Opala, como as opções mais lógicas.

Surgido ainda no final dos anos 60, temos o Puma como o grande referencial neste campo que se abria no cenário automobilístico brasileiro, cuja fila de espera para se comprar um exemplar incentivou outras firmas a ingressar no jogo. Entre elas a Lafer, que teve o mérito de ser a pioneira no ramo das réplicas - ou como queiram alguns, referências clássicas - com o MP Lafer, que inclusive foi muito bem aceito no rigoroso mercado norte-americano, onde este tipo de automóvel é muito apreciado e possui um público fiel. O sucesso do MP, baseado nas linhas do MG TD e na qualidade de sua construção, mostrou que se poderia ir além.

Na traseira, a coerência do design apreciado em seu conjunto, com formas de fácil compreensão, tanto por entusiastas como por especialistas. A se notar a concordância do alojamento da placa com as lanternas avermelhadas.

Tanto o Puma quanto o MP utilizavam a mecânica refrigerada a ar do Sedan Fusca, cujo desempenho modesto impedia que seus aficionados desfrutassem de uma direção um pouco mais aguerrida. Mas as boas vendas de ambos deram o aval para o surgimento de uma segunda geração de veículos especiais, desta vez com a força do motor de seis cilindros do Opala e com a promessa de um acabamento mais luxuoso e confortável. Em meados dos anos 70 aparecem, quase que simultaneamente, o Puma GTB e o Santa Matilde, mas engana-se quem pensou que a Lafer não acompanharia esta tendência.

Surge o Lafer LL

O projeto era ambicioso: oferecer a um seleto público consumidor brasileiro o que de melhor se poderia encontrar em outros países - enquanto coupé de luxo com características esportivas - mas que não se poderia trazer ao hemisfério sul por questões legais. A referência clara para comparação eram os Mercedes da série SLC, até então o paradigma de sucesso comercial, tanto na Alemanha como nos Estados Unidos. Deste modelo o Lafer LL herdou o perfil alongado, distribuído em três volumes ordenados por linhas limpas e aerodinâmicas, antecipando tendências que vingariam apenas uma década adiante, no mercado nacional.

Visto de lado, o Lafer LL revela seu aspecto esportivo e envolvente, com ótima visibilidade para motoristas e passageiros. Linhas decorativas e cromados dão lugar a um aspecto "clean", que seria muito comum nos anos subseqüentes.

Apenas cinco protótipos foram desenvolvidos, entre 1976 e 1979, sempre com a mecânica 250-S do Opala, cujas 4.100 cilindradas cúbicas distribuídas em seis cavidades garantiam um ótimo desempenho, dado o pouco peso da carroceria de fibra de vidro, em relação aos 171 cavalos de potência. A título de curiosidade, a numeração destes raros exemplares pode ser conferida no compartimento do motor, atentando para a superfície sobre a caixa de uma das rodas dianteiras. Difícil mesmo é encontrar um dos LL para averiguar este quesito.

O motor do LL não deixa ninguém na mão, pois conta com a ampla gama de comércio de peças sobressalentes, que atendem aos modelos que GM fabricava na época, como o Opala e a Caravan. Além disso, ele aceita uma boa preparação, a gosto do cliente.

Vanguarda

Internamente, o protótipo da Lafer contava com todo o respaldo em termos de acabamento que a empresa já empregava, de forma notória, no conversível MP, com direito à bancos de couro espaçosos para até quatro passageiros, no esquema dois mais dois, além do uso de madeiras nobres no console. Ao contrário dos demais automóveis da época, o para-brisa não era considerado uma peça à parte, pois era instalado em conformidade plena com a carroceria - um conceito que seria comum apenas nos modelos mais recentes, demonstrando o caráter inovador da proposta.

Outra grande novidade estava no painel, que era digital e ostentava mostradores de leds vermelhos em pleno volante. Uma solução que só encontrava paralelo no Aston Martin Lagonda, fazendo do Lafer LL um dos pioneiros neste sentido, na indústria automobilística mundial. Para se ter uma idéia do que isso representa, algo semelhante ocorreria com o carro conceito Buick Wildcat somente nos anos 80, e apenas nos anos 90 os instrumentos de leitura apareceriam nos volantes dos carros de Fórmula 1. Mas cerca de vinte anos antes, esta tecnologia ainda não estava totalmente desenvolvida, razão pela qual mostradores analógicos convencionais tiveram que ser adaptados na manutenção dos protótipos em questão.

O volante de dois raios e grande superfície de metal exposto, abrigava na verdade os mostradores digitais, que foram substituídos por componentes convencionais da própria Lafer, os mesmos que equipavam os MPs, também em painéis de madeira.

Bancos anatômicos ante a generosa porta de acesso lateral, acabada com madeira nobre e janela de vidro com ampla visão para o exterior. Todo o rigor da Lafer no acabamento, proveniente de sua experiência com a manufatura de móveis de alto padrão.

Os assentos são revestidos com couro legítimo. As unidades posteriores também são bipartidas na base, em função do túnel central versus a pouca altura da capota rígida. O encosto, no entanto, é comum para as duas peças.

Tamanha complexidade nos detalhes inovadores do LL ajudaram a impedir que o veículo fosse lançado em série, devido ao crescente vulto dos investimentos requeridos para levar o projeto adiante. Afinal de contas, a Lafer não tinha o porte de uma grande multinacional, para manter mais de um modelo no mercado - e isto ela já fazia com o MP, na versão clássica e também com a versão Ti, recém criada no mesmo período. No começo dos anos 80 porém, a Miúra soube conjugar a junção de conforto, tecnologia e bom desempenho, para ocupar a fatia de mercado que bem poderia ser destinada ao LL, pelo menos até a abertura para os importados no limiar da década seguinte, que sepultou boa parte das encarroçadoras brasileiras.

A mosca branca

O exemplar de 1979, que ilustra esta matéria, encontra-se com menos de 30 mil quilômetros rodados, descansando sob uma capa num galpão de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, aos cuidados de Diego Sampaio, a quem foi confiada a tarefa de zelar pelo carro e, eventualmente, encontrar um novo dono para ele, de preferência que entenda do assunto e saiba dar valor a uma autêntica preciosidade. Seu proprietário - apenas o segundo - é uma pessoa reservada e preza pela discrição. De acordo com Diego, o carro está funcionando perfeitamente, possuindo rodas e estepe originais, e sem adaptações. Mesmo o painel, que antes era digital, recebeu mostradores analógicos da Lafer, utilizados também nos MPs.


Saindo do abrigo para tomar um pouco de sol. O Lafer LL 1979 tem seu motor ligado regularmente, para manter a lubrificação de seus componentes. Tamanho cuidado, porém, impede que ele faça grandes passeios, mantendo sua baixa quilometragem.

Um modelo pouco conhecido como o Lafer LL desperta a curiosidade de quem o vê, que pode até se confundir, como o próprio Diego relata:"O engraçado da história é que quando eu era garoto, via esse carro e pensava que se tratava do Santa Matilde, mas só agora que fui ver que se tratava de um modelo LL." Para que o LL não passe despercebido na história da indústria automobilística brasileira, solicitamos aos demais proprietários do modelo - ou mesmo quem tenha a oportunidade de fotografar uma unidade num encontro de carros antigos - que entre em contato através de nosso e-mail.

Texto de Jean Tosetto
Fotos de Diego Sampaio


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