E o futuro finalmente alcançou o Lafer LL

Lafer LL completa 50 anos de história com premiação durante o maior encontro de carros antigos da América Latina

O Lafer LL 001 foi apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo em 1976.
O Lafer LL 001 foi apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo em 1976.

Produzido em apenas sete exemplares entre 1976 e 1979, o Lafer LL é um dos veículos mais exclusivos já concebidos no Brasil. Com carroceria em fibra de vidro, mecânica do Opala, interior inspirado nos sofisticados móveis da Lafer e um painel digital revolucionário para a época, o coupê de luxo foi um projeto visionário que reuniu design arrojado, tecnologia de vanguarda e espírito empreendedor. No 11º Encontro Brasileiro de Altos Antigos de Águas de Lindóia (EBAA), entusiastas do modelo se reuniram para resgatar a história quase arqueológica desse automóvel.

Por Jean Tosetto

Minha vidinha estava bem resolvida por volta de 2010. Trabalhava como arquiteto numa cidade pequena que estava crescendo rapidamente. Não faltava projeto para fazer. “Então é isso?” – Pensei. “A vida não pode ser apenas isso: trabalhar, ganhar dinheiro e poupar um pouco para a aposentadoria”.

Daí que arranjei sarna para me coçar. A culpa era do bloco de mármore ocupando espaço na minha cabeça e pesando na minha memória. Eram quase dez anos como responsável pelo site mplafer.net, acumulando conhecimentos esparsos que precisavam ser reunidos e concatenados num livro que contasse a história do MP Lafer. Comecei a trabalhar em mais um projeto. Não num projeto de arquitetura, mas num projeto editorial, com as durezas e os desafios para um marinheiro de primeira viagem.

Um dos capítulos mais difíceis de escrever foi justamente sobre o Lafer LL. Das oito carrocerias construídas, sabia que talvez cinco ou seis estavam finalizadas sobre o conjunto mecânico do GM Opala 4.1 de seis cilindros. Consegui o contato do proprietário de um dos protótipos, que morava no interior do Paraná. Escrevi um belo e-mail para ele, solicitando permissão para viajar mais de 600 km até sua cidade, para fotografar seu carro, posto que as imagens disponíveis até então eram poucas e estavam protegidas por direitos autorais inacessíveis. A resposta do sujeito foi lacônica. Um balde de água fria na minha vontade de fazer algo bem feito e caprichado.

A silhueta do Lafer LL convida para a direção esportiva.
A silhueta do Lafer LL convida para a direção esportiva.

Cavalheiros que se ajudam

Felizmente, recebi ajuda do próprio Percival Lafer, idealizador do modelo, que cedeu algumas fotografias de época, inclusive das cambotas de madeira compensada que deram suporte para a aplicação de argila, resultando na fonte para o molde das carrocerias de fibra de vidro.

Outro amigo que ajudou bastante foi o Flávio Fernandes, engenheiro de longa carreira por empresas como VW e Ford, que começou sua trajetória justamente na Lafer, estagiando na equipe coordenada pelo professor Rigoberto Soler da FEI (Faculdade de Engenharia Industrial, de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo). Entrevistei o Flávio na varanda do Hotel Monte Real, durante uma edição do encontro de carros antigos de Águas de Lindóia. Ele contou coisas interessantes sobre o carro, fabricado artesanalmente entre 1976 e 1978.

O conjunto de faróis e grade destacada do Lafer LL 001 de 1976.
O conjunto de faróis e grade destacada do Lafer LL 001 de 1976.

O Lafer LL 007, de 1978, preserva o motor GM de seis cilindros, que também equipava o Chevrolet Opala.
O Lafer LL 007, de 1978, preserva o motor GM de seis cilindros, que também equipava o Chevrolet Opala.

Com o livro pronto começou uma peregrinação. Bati na porta de várias editoras. Nenhum fechou a porta na minha cara, pois simplesmente nenhuma a abriu para saber do que se tratava. Restou atuar como editor independente, providenciando tudo que uma editora constituída está habituada a fazer, inclusive contratar a gráfica.

O jornalista Flávio Gomes compartilhou uma nota que eu havia publicado sobre o livro do MP Lafer, que estaria no prelo. Foi o suficiente para o Horacio Zabala, consultor da Gráfica Gandrei, de Indaial em Santa Catarina, entrar em contato. Rapidamente chegamos num acordo para imprimir o livro em novembro de 2012, exatamente 40 anos após a apresentação do primeiro protótipo do MP Lafer no Salão do Automóvel de São Paulo.

Foram dias de luzes. No começo de 2013 o Zabala fundou a Revista MotorMachine, que circulou em algumas edições bimestrais na Região Sul e São Paulo. Fui convidado para colaborar com a publicação, de forma voluntária. O senso de gratidão se somou com o antigo (e não revelado) desejo de escrever sobre carros em mídia impressa.

No fim daquele ano passei um dia diferente na zona rural de Atibaia, no interior de São Paulo, amoitado sobre um barranco numa estrada vicinal de terra, para fotografar a última etapa do Campeonato Brasileiro de Rally de Velocidade. O Zabala também estava lá, na comitiva do piloto catarinense Toninho Genoin e do navegador Sidinei Broering. Na ocasião, um pneu estourado tirou as chances de título na categoria 4x2, mas a dupla vice-campeã nos recebeu no motorhome para almoçarmos um arroz carreteiro para lá de saboroso. O relato foi publicado na sexta edição da revista, já em janeiro de 2014.

As lanternas traseiras do Lafer LL 001 foram modificadas com peças oriundas do Ford Del Rey.
As lanternas traseiras do Lafer LL 001 foram modificadas com peças oriundas do Ford Del Rey.

O conjunto traseiro do Lafer LL 007 permanece original.
O conjunto traseiro do Lafer LL 007 permanece original.

A placa traseira do Lafer LL 007 é protegida por uma tampa transparente de acrílico.
A placa traseira do Lafer LL 007 é protegida por uma tampa transparente de acrílico.

E a poupança Bamerindus?

Então, avancemos doze anos para demonstrar como esse mundo é pequeno. Em 2026 fui convidado pelo Ricardo Luna, do Clube do Carro Antigo, para gravar um podcast sobre os 50 anos do Lafer LL, durante o Encontro Brasileiro de Autos Antigos em Águas de Lindóia. A mesa seria dividida com o Carlos Castilho, mediador, Juan Dierckx, autor de livros sobre a Puma Veículos e o VW SP2, e Flávio Fernandes, o mesmo que me ajudou a escrever sobre o Lafer LL.

O engenheiro, agora aposentado, encontrou uma carroceria do Lafer LL prestes a ser desmantelada e conseguiu resgatá-la. Seu objetivo é completar a construção daquele que poderá ser o Lafer LL 008. Porém, para marcar o meio século do lançamento do primeiro protótipo do modelo, ele conseguiu, junto aos organizadores do evento de Águas de Lindóia, um espaço de destaque na exposição.

Para tanto, Fernandes passou semanas preparando a carroceria para o grande encontro. Ele e sua equipe adesivaram algumas partes do conjunto, para simular os faróis, lanternas e a grade frontal do veículo, usando superfícies de policarbonato escuro no lugar dos vidros das janelas e do para-brisa. Ele também convenceu um proprietário de dois protótipos do Lafer LL (o 001 e o 007) a levar os carros de Santa Catarina para o interior paulista. Seu nome? Toninho Genoin.

A carroceria do Lafer LL 008 em destaque, ladeada pelos carros do Toninho Genoin, em Águas de Lindóia.
A carroceria do Lafer LL 008 em destaque, ladeada pelos carros do Toninho Genoin, em Águas de Lindóia.

Assim que cheguei em Águas de Lindóia no dia 05 de junho, fui direto ao local onde, pela primeira vez, estariam reunidas três carrocerias do Lafer LL, das quais, duas estavam motorizadas. Logo avistei o Toninho tirando as capas de proteção de seus carros. Ele disse que havia os comprado do Alcido Reuter, de Curitiba, capital do Paraná.

Naquele momento, apontei para um MP Lafer prateado de seis rodas (quatro nas pontas dos eixos e duas sobressalentes nos paralamas), que teria sido o único exemplar saído assim da fábrica de São Bernardo do Campo, em 1985. Informei que, por coincidência, o carro também havia sido comprado do Reuter, por parte do Reinaldo Keller, de Socorro, cidade vizinha. Então, o próprio Keller se aproximou da gente. Apresentei os novos amigos e segui para o compromisso com o podcast.

O MP Lafer 1985 de seis rodas do Reinaldo Keller.
O MP Lafer 1985 de seis rodas do Reinaldo Keller.

Toninho Genoin e Reinaldo Keller diante do Lafer LL 007.
Toninho Genoin e Reinaldo Keller diante do Lafer LL 007.

Não tenho como reproduzir mais de uma hora e meia de conversa neste espaço. Mas posso compartilhar uma síntese do programa, que você pode assistir na íntegra, no canal do Clube do Carro Antigo no YouTube.

De móveis a automóveis: a história do Lafer LL

A Lafer tem raízes centenárias. Tudo começou em 1927, quando o imigrante polonês Bension Laufer fundou a Casa Lafer, uma loja de móveis em São Paulo. Com habilidade comercial, ele prosperou e educou quatro filhos. O caçula, Percival, formou-se em arquitetura pelo Mackenzie (pois não havia curso de desenho industrial à época) e alimentava desde a infância dois amores: o design de móveis e os automóveis.

Com o falecimento precoce do pai, os filhos uniram forças e deram um salto estratégico: passaram a projetar e fabricar os próprios móveis, em vez de apenas revendê-los. O crescimento foi vertiginoso. Nos anos 1960, a empresa embarcou no programa governamental de exportações (sob o slogan “exportar é o que importa”) e conquistou mercados competitivos como Dinamarca, Suécia, Alemanha e Itália. O nome MP Lafer — Móveis Patenteados Lafer — refletia a preocupação de registrar as criações para protegê-las de cópias.

O passo que abriria as portas para o setor automotivo veio de um contrato improvável: o orelhão. A Lafer adquiriu equipamentos para trabalhar com fibra de vidro e desenvolveu o modelo original da cabine telefônica da Telesp, concebido pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. O desafio de executar aquela forma tão curva foi resolvido com a criatividade: de Antonio De Mitry, funcionário da empresa, que usou um balão de aniversário como molde. O resultado foi um contrato milionário, que pavimentou a entrada da Lafer no mercado de automóveis.

O Lafer LL 001 conta com estofamento original em couro, com o perfume de uma máquina do tempo.
O Lafer LL 001 conta com estofamento original em couro, com o perfume de uma máquina do tempo.

O acabamento das portas do Lafer LL 001 são ricos em madeira e couro, conforme o padrão da empresa na época.
O acabamento das portas do Lafer LL 001 são ricos em madeira e couro, conforme o padrão da empresa na época.

O nascimento do MP Lafer e do LL

O veículo MP Lafer não foi um acidente. Foi uma diversificação planejada, impulsionada pela paixão de Percival por automóveis. De Mitry montou uma equipe de artesãos, mecânicos e marceneiros para elaborar os primeiros moldes, baseados no MG TD inglês de 1952. Em 28 dias, construíram o primeiro protótipo, apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo em 1972. Apesar do estande modesto, o carro roubou a cena. A produção oficial começou em 1974, e o próximo passo lógico era um modelo maior. Assim nasceu o projeto do Lafer LL.

Muito se comenta que o LL seria uma cópia do Mercedes SLC. Não é. O design do carro foi definido pelo método clássico do clay, modelado em argila para encontrar a forma final, absorvendo o melhor do design europeu da época. O carro lembra o Mercedes porque esse era o veículo referencial do período, mas as influências são múltiplas. O Lafer LL não copiou, mas incorporou um arquétipo. Assim como as SUVs de hoje são todas parecidas porque seguem uma forma comum, o LL expressava o espírito do tempo — o Zeitgeist — dos GTs europeus dos anos 1970. E ao exterior refinado, Percival somou o diferencial que a Lafer dominava como ninguém: o interior. Os bancos em couro e o acabamento em madeira nobre remetiam diretamente ao vocabulário dos móveis Lafer. Sentar no LL era como estar num sofá da sala.

O interior do Lafer LL 007 foi modificado com um volante convencional, bancos revestidos em courvin e painel com instrumentos analógicos no lugar dos mostradores digitais.
O interior do Lafer LL 007 foi modificado com um volante convencional, bancos revestidos em courvin e painel com instrumentos analógicos no lugar dos mostradores digitais.

Vanguarda tecnológica cinquenta anos atrás

O Lafer LL foi pioneiro também do ponto de vista tecnológico. Em 1976, o carro apresentava um painel digital, algo inconcebível para a época. Como os equipamentos não existiam no mercado, foram fabricados dentro da própria Lafer. No lugar de instrumentos analógicos convencionais, lâmpadas acendiam progressivamente no centro do volante: verde para indicar progresso, vermelho para alertar sobre rotações perigosas. Para quem precisava de valores numéricos exatos, havia uma televisão de tubo de 17 polegadas atrás da alavanca do câmbio: o bisavô das telas que hoje equipam os automóveis.

Outros detalhes revelavam o mesmo espírito inventivo. A fiação elétrica, o que hoje chamamos de chicote, era produzida artesanalmente em bancadas de 15 a 20 metros, fio a fio, cor a cor, unida com adesivo industrial. O para-choque dianteiro avançava 15 centímetros a partir de 60 km/h graças a um sistema hidráulico, absorvendo impactos. Cada carro saía da fábrica com uma placa dourada no painel, gravada com o número do veículo e o nome do primeiro proprietário.

O volante do Lafer LL 001 ainda é original, mas os mostradores digitais estão desativados. Instrumentos analógicos ocupam o lugar do monitor de 17 polegadas perto da alavanca de marchas.
O volante do Lafer LL 001 ainda é original, mas os mostradores digitais estão desativados. Instrumentos analógicos ocupam o lugar do monitor de 17 polegadas perto da alavanca de marchas.

O desenvolvimento foi igualmente artesanal nos testes. Sem dummies de ergonomia, usavam pessoas reais para avaliar posicionamento e conforto. Para medir a velocidade máxima (o motor era o 250 da linha GM, o mesmo do Opala), a equipe escolheu uma rodovia com posto policial equipado com cronômetro. Os pilotos de testes passavam a 180, 185 km/h, um policial anotava o tempo e, no posto seguinte, outro aplicava a multa. A taxa era irrisória. Os dados, preciosos.

As limitações e o fim de uma era

A complexidade tecnológica do LL cobrava seu preço. O painel, desenvolvido por dois ou três engenheiros, deveria ser de manutenção exclusiva da fábrica, pois qualquer proprietário que levasse o carro a um eletricista comum arriscava queimar metade dos instrumentos. A Lafer garantia a manutenção dos exemplares, mas a fragilidade era estrutural. Com o tempo, os proprietários foram substituindo componentes: painéis, faróis, grades, lanternas. O para-choque hidráulico tornou-se uma dor de cabeça e quase nenhum exemplar o mantém funcionando até hoje.

Detalhe do para-choque traseiro do Lafer LL 007.
Detalhe do para-choque traseiro do Lafer LL 007.

Financeiramente, o LL foi um prejuízo. Saiu do papel porque a Lafer tinha alta rentabilidade em seu negócio principal: os móveis. Se Percival desistiu do Lafer LL, ele seguiu acreditando no projeto do MP Lafer até 1988, mesmo diante da crise do petróleo de 1979 e da hiperinflação dos anos 1980, contrariando consultores. A empresa encerrou as atividades apenas em 2022. Resistiu tanto tempo graças às patentes dos móveis. Quando elas começaram a vencer, fabricantes chineses já tinham cópias prontas para assumir os contratos de exportação aos europeus. O modelo de negócio chegou ao fim.

Um legado maior do que os números

O Lafer LL é a prova de que o Brasil tem criatividade e o que os franceses chamam de savoir-faire — a capacidade de fazer acontecer. A dificuldade, histórica, vem depois: na gestão de longo prazo, na escala, na perenidade. E aí o problema raramente é o empresário. É o sistema. O ambiente tributário e regulatório brasileiro não contribui com quem começa pequeno e quer empreender. A Lafer surfou no momento em que o país precisava gerar divisas e a proibição de importar automóveis favorecia iniciativas como o LL, o Santa Matilde e o Miura. Esses empresários não eram amigos do poder. Eram teimosos.

O carro era de fibra de vidro. Mas as pessoas que o fabricavam também eram de fibra.

As rodas do Lafer LL foram projetadas exclusivamente para o modelo e são tão raras quanto os próprios carros.
As rodas do Lafer LL foram projetadas exclusivamente para o modelo e são tão raras quanto os próprios carros.

O depoimento de quem dirige dois Lafer LL

Quando saí do estúdio do podcast, montado no gramado da Praça Adhemar de Barros, bem ao lado da exposição tripla do Lafer LL, o Toninho Genoin e o Reinaldo Keller já não estavam mais por perto. Após retornar para minha cidade, fiquei sabendo que ambos tiveram seus carros premiados na grande mostra que, dizem, atraiu um público de 500 mil pessoas num fim de semana prolongado. Um reconhecimento mais do que merecido para ambos.

O tanque de combustível do Lafer LL fica entre o banco dos passageiros e o bagageiro. O abastecimento é feito pela coluna C.
O tanque de combustível do Lafer LL fica entre o banco dos passageiros e o bagageiro. O abastecimento é feito pela coluna C.

Em contato com o Genoin, pedi para ele registrar um depoimento sobre como é dirigir um Lafer LL, algo que pouquíssimas pessoas neste pequeno mundo tiveram o privilégio de fazer. Segue o relato dele especialmente para os amigos do mplafer.net:

“Jean, você sabe que eu piloto até avião pegando fogo. Então, o que posso dizer sobre o Lafer LL é que ele é um carro sensacional. O 001, com aquele interior todo original de época, tem bancos que parecem um sofá — de um conforto extraordinário. Motorização, suspensão, equilíbrio: é fantástico de guiar. Motor forte, carroceria leve, tamanho compacto. Uma nave dos anos 1970.

Há pouco tempo dei uma volta com o 007 e, numa curva molhada, acelerei sem querer demais. Tive de lembrar dos tempos de Rally de Velocidade — o carro veio de lado, puxei para o outro e ele se endireitou em linha. Emocionante, como só um carro desse pode proporcionar. Aliás, a nossa equipe de Rally tinha um lema: ‘Na dúvida... Acelera!!!’. Chegamos a conquistar dois títulos brasileiros de Rally de Velocidade e três vice-campeonatos, sempre sem patrocínio, mas com muita determinação. Esses títulos me renderam dois Capacetes de Ouro — o Oscar do automobilismo brasileiro.

Sobre os carros em si: temos o primeiro e o último Lafer LL fabricados. A fábrica encerrou a produção com sete unidades, e o Flávio encontrou recentemente a carroceria que seria o oitavo exemplar. Possuir o 001 e o 007 é ter nas mãos a abertura e o fechamento de uma história única do automobilismo nacional.

O 001 passou recentemente por uma revisão com o Mario, preparador esportivo especializado em Opala de terra. Ao abrir os freios, ele ficou perplexo: após mais de trinta anos trabalhando com Opalas, nunca tinha visto um disco, uma pinça e uma pastilha de freio com a marca GM originais de fábrica. Uma raridade dentro de outra raridade.

Percival foi um homem de visão extraordinária. Um carro daquele porte, com para-choque retrátil, concebido nos anos 1970, quando as opções eram poucas — isso diz tudo. Dirigir um Lafer LL é estar na estrada e, ao mesmo tempo, no sofá de casa. Tenho muito orgulho de ser guardião dessas duas joias e fico feliz que a presença delas no EBAA 2026 tenha marcado história. O LL é um carro que, como dizia a vinheta, não existiu — e, ainda assim, está aí, vivo, presente e inesquecível.”

Marcos, Toninho e Elaine Genoin: zeladores da trajetória do Lafer LL.
Marcos, Toninho e Elaine Genoin: zeladores da trajetória do Lafer LL.

A história continua

E assim terminamos mais uma tentativa de honrar a memória de um projeto automobilístico que antecipou tendências que se confirmaram apensas anos ou décadas depois. Obviamente, muitas pontas ainda continuam soltas na história do Lafer LL, ao passo que outras se ataram, envolvendo pessoas repletas de entusiasmo. É justamente com entusiasmo que as próximas páginas sobre o Lafer de luxo deverão ser escritas, posto que se este mundo é pequeno e a vida é curta, não há razão para desperdiçar o tempo e o espaço com decisões estritamente racionais. É justamente por dar abertura para as emoções, que arquitetos de formação cartesiana escrevem livros e concebem automóveis fora-de-série.

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