Lafer além do MP

Livro percorre a vida e a carreira de Percival Lafer.
Livro percorre a vida e a carreira de Percival Lafer.

Projetar é um verbo ligado diretamente ao que ainda pode acontecer, o que explica a dificuldade de contar, em livro, a trajetória de alguém que passa a vida compromissado com o futuro, muito mais interessante do que aquilo que já se consumou. Mas o passado também é importante e merece ser registrado, especialmente quando inspira aqueles que ainda tem muito a caminhar.

Na história da música popular internacional há pelo menos dois álbuns de bandas famosas que levaram anos para chegar ao lançamento, sendo aguardado com muita expectativa pelos mais entusiastas. O primeiro deles é "Smile" dos Beach Boys, gravado entre 1966 e 1967 e abortado naquele ano, pois Brian Wilson, o gênio criativo do conjunto, era perfeccionista demais. Este disco só chegou ao público oficialmente em 2011, na comemoração de meio século de fundação da trupe.

O segundo álbum que destacamos é "Chinese Democracy" do Guns N' Roses, apresentado ao mundo somente em 2008, depois de ser anunciado que estava em gravação ainda em 1996. Neste período, o vocalista Axel Rose se desentendeu com o guitarrista Slash e a guerra de egos só teve trégua em 2016, quando ambos voltaram a tocar juntos num palco.

O livro de Percival Lafer foi lançado numa concorrida noite de autógrafos na Livraria da Vila no Shopping Iguatemi JK em São Paulo, em novembro de 2018. Ficamos mais de uma hora na fila para pedir uma dedicatória em nosso exemplar. Mas a espera, nos dois sentidos, valeu a pena, pois o livro começou a ser escrito no começo de 2006, mais de doze anos antes de ser publicado.

Naquela época Percival estava prestes a completar 70 anos de idade e suas filhas - Betina, Adriana e Paula - resolveram procurar a agência de comunicação de Renata Golombek para desenvolver uma homenagem em forma de livro, que pudesse transitar por todas as frentes de trabalho do pai, arquiteto, designer e empresário.

Obviamente não houve tempo hábil para concluir os trabalhos até o aniversário de Percival, no mês de abril. Havia muita informação para ser levantada e o arquivo de imagens da Lafer não estava devidamente organizado para facilitar a tarefa. Muitas fotografias estavam envelhecidas e necessitavam de restauração. Além disso, o próprio Percival permanecia focado em seu trabalho, reticente quanto a mergulhar em memórias do passado. Ele sempre olhou para o futuro.

Pessoalmente, testemunhei esta resistência de Percival em relembrar fatos durante 2012, quando estava escrevendo o que seria o livro "MP Lafer: a recriação de um ícone". Fiz um trabalho de pesquisa paralelo, consultando arquivos digitais de grandes jornais e revistas nacionais, até encontrar o fio da meada para contar a história não apenas do carro, mas também da empresa fundada por Benjamin Lafer em 1927.

Somente após enviar o material que já havia reunido, recebi a devida atenção de Percival Lafer. Então, com o auxílio de João Bauman, ele me enviou uma série de arquivos que enriqueceram de modo determinante o nosso projeto literário, do qual Percival tomou parte fundamental, tendo a insistente elegância de recusar a coautoria. "Generoso" poderia ser o seu nome do meio.

As principais criações do designer em seu principal campo de atividade, os móveis, estão comentadas no livro.
As principais criações do designer em seu principal campo de atividade, os móveis, estão comentadas no livro.

O MP Lafer e o Lafer LL ganharam páginas de destaque na obra.
O MP Lafer e o Lafer LL ganharam páginas de destaque na obra.

Percival Lafer também desenvolveu projetos de Arquitetura Residencial e Comercial.
Percival Lafer também desenvolveu projetos de Arquitetura Residencial e Comercial.

Paralelamente, seu livro caminhava entre idas e vindas. A retomada desta iniciativa ocorreu de forma decisiva na proximidade do aniversário de 80 anos do arquiteto, e ganhou conformação final quando a Editora Olhares, especializada em Arquitetura, Design e Fotografia, assumiu a condução dos trabalhos, após um evento chave chamar a atenção: a retrospectiva da carreira de Percival Lafer organizada pela Loja Teo em agosto de 2017.

O profissional Jayme Vargas foi escalado para conduzir a redação definitiva do livro. Dono de uma escrita refinada e sem arestas, como os móveis de Percival, ele conseguiu atingir o que era desejado pelas filhas do designer: manter-se como narrador oculto para revelar mais a personalidade do pai do que a própria - algo que um poeta teria muita dificuldade de entregar.

"Percival Lafer: Design, Indústria e Mercado" é um objeto de arte em si mesmo. Possui 204 páginas em formato com 21,5 × 25,5 cm, ricamente ilustradas com os móveis da Lafer, os carros esportivos que tanto amamos e parte das edificações projetadas pelo homenageado, que bem poderia ser discípulo de Frank Lloyd Wright. A obra conta com prefácio de Mina Warchavchik e textos disponíveis em português e inglês.

A capa dura, de fino acabamento, chama a atenção pela simplicidade não simplória. O título é disposto sobre fundo azul royal com letras estilizadas e seccionadas. Partes distintas das letras são repetidas intercaladamente em frases desconexas, gravadas em baixo relevo, lembrando a escrita cuneiforme encontrada por arqueólogos no Oriente Médio, em placas de argila, após milênios de história, revelando o desejo do livro em simbolizar o legado de uma carreira que se aproxima dos 60 anos de intensa dedicação, sem previsão para se encerrar.

Depois de doze anos de trajetória, finalmente o perfeccionista Percival Lafer ganha um livro que faz jus ao universo por ele criado. Alguns de seus móveis ficaram em desenvolvimento por mais tempo, antes de entrarem em produção seriada para o mercado. Por isso eles duram uma vida inteira e ainda são cobiçados objetos de herança.

Veja também:






Uma publicação compartilhada por Jean Tosetto (@jeantosetto) em

Clube MP Lafer Brasil convida:

Atenção para as festividades de fim de ano!
Atenção para as festividades de fim de ano!

Clube MP Lafer Brasil
Almoço de Confraternização de 2018

Caro amigo laferista,

O fim de ano está aí.

Mais uma vez, faremos nosso almoço de confraternização, para o qual você e sua família estão convidados a participar no dia 01 de dezembro de 2018 (sábado), com saída na Rodovia Castelo Branco, km 30 – Posto Graal, às 11:00 horas.

Destino: “Restaurante São Paulo Antigo” – Santana de Parnaíba. Preço por pessoa: R$ 53,80, fora bebidas, com taxa opcional de 10% de serviços.

Será uma ótima oportunidade para colocar nossos carros novamente na estrada e reencontrar os amigos.

Não se esqueça de ir uniformizado.

Se não der para ir com o MP, vá mesmo assim.

O importante é nos encontrarmos.

Até lá,

Walter Barboza Arruda – Presidente – (11) 9.7122.6260 - walter.mplafer@uol.com.br

Romeu Nardini – Diretor - (11) 9.9154.4536 - meco98@uol.com.br



Itapecerica da Serra 2017

Percival Lafer lança livro sobre sua obra

Convite para o lançamento do livro sobre Percival Lafer
Clique na imagem para ampliar.

Os entusiastas do MP Lafer conhecem o empresário Percival Lafer em função da fabricação do modelo esportivo de linhas clássicas entre 1974 e 1990. Porém, formado em Arquitetura pelo Mackenzie, ele desenvolve uma carreira sem paralelos no Design de Móveis desde a década de 1960.

Por iniciativa de suas filhas - Betina, Adriana e Paula Lafer - finalmente teremos a oportunidade de conhecer, em forma de livro, algumas de suas principais criações que englobam o desenho inteligente com a eficiência mercadológica e industrial, numa atividade ininterrupta geradora de empregos, oportunidades e divisas para o Brasil, revelando o lado empreendedor do sócio criativo da Lafer.

O livro é um trabalho da Editora Olhares, desenvolvido a partir de depoimentos do próprio Percival. O lançamento ocorrerá no dia 07 de novembro de 2018, na Livraria da Vila, no segundo piso do Shopping JK Iguatemi em São Paulo, na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2041, Itaim Bibi, entre 18:30 e 22 horas.

Veja também:

Galeria 2018: Heinzelmann

O MP Lafer 1976 com alguns componentes da versão TI, lançada em 1978, tal qual como desembarcou em Joinville.
O MP Lafer 1976 com alguns componentes da versão TI, lançada em 1978, tal qual como desembarcou em Joinville.

EM NOME DO PAI

O site mplafer.net é mantido de forma voluntária, assim como o Clube MP Lafer Brasil - seu próprio presidente, Walter Arruda, costuma dizer que "quando o dinheiro se mistura com a paixão, está armada a confusão".

Nós vendemos o livro do MP Lafer? Sim. O Clube do MP Lafer cobra uma taxa pelo serviço de avaliação de veículos para obtenção de placas pretas? Sim. Mas estes valores apenas cobrem parcialmente os custos para manter essa paixão pelo MP Lafer ativa.

Nossa principal remuneração é a satisfação de zelar pela memória do modelo esportivo de linhas clássicas e ajudar pessoas que também se interessam pelo conversível mais querido do Brasil. Na medida do possível nós atendemos a todos que nos escrevem: do garoto que acaba de receber o primeiro salário e sonha em comprar um MP Lafer para restaurar aos poucos, ao executivo de multinacional que deseja encontrar um exemplar impecável.

As histórias vão se acumulando em nossa caixa de entrada de e-mails e não temos tempo hábil para publica-las com a mesma velocidade que chegam. Então, aos poucos, vamos resgatando algumas mensagens que, por seu simbolismo, representam todas as demais.

Leia, por exemplo, esta sequência de mensagens que o Walter Arruda nos encaminhou, iniciada em 02 de dezembro de 2017 (o ano passou voando):

"Walter, bom dia.

Já há algum tempo, fiz contato contigo, logo após me tornar um dos felizes caras que todos os dias olha pra garagem e nela há um MP Lafer!

Assim já estou há cerca de quatro anos, e é só alegria, né?

O motivo deste e-mail é saber se vocês estão alimentando algum cadastro dos MPs sobreviventes. Caso positivo, gostaria de receber algum tipo de questionário ou formulário eletrônico a preencher, para que esse carro que aqui está seja também conhecido de vocês!

Aguardo retorno.

Abraços, bom final de semana,

Ivo Heinzelmann

Joinville - Santa Catarina"

A resposta do Walter, dois dias depois:

"Bom dia Ivo, tudo bem?

Parabéns por cultuar seu MP. Claro que temos cadastro de MP Lafer! Afinal, somos o Clube do carro mais charmoso do Brasil.

Alguns MPs realmente foram salvos de um possível cemitério de automóveis. Alguns renasceram para a eternidade através das mãos de verdadeiros apaixonados. Outros ficaram guardados durante muito tempo esperando a hora de se apresentarem.

Se quiser enviar as fotos para a nossa galeria, mande diretamente para o site abaixo.

Abraços,

Walter Barboza Arruda
Clube do MP Lafer do Brasil
Presidente
11-97122.6260
www.mplafer.net "

 Este MP Lafer possui escapamento Kadron e capota de vinil original de fábrica.
Este MP Lafer possui escapamento Kadron e capota de vinil original de fábrica.

Segue agora o lindo relato enviado pelo Ivo, junto com as imagens de seu MP Lafer:

"Walter, bom dia.

Bem, você vai ler agora uma loooonga história, e talvez, ao final, vai me crucificar, mas tudo bem, eu aguento.

Em agosto de 1969, meu falecido pai comprou um MG TD, 1953 (um dos últimos a serem fabricados, segundo a fábrica; o carro tinha chassis nº XPAG-TD2-22293, dos cerca de 30 mil MGs TD fabricados desde 1949 até 1953, quando entrou no final do ano, o MG TF).

O carro foi trazido de Curitiba, e iniciamos a reforma (não restauro, porque não havia dinheiro pra isso). Pintado de vermelhão da China, nos limitamos a colocar o carro em condições de andar, e o usamos até 1974, quando foi encostado por problemas no motor. Em 1976 mandei fazer o motor, mas nunca voltei a rodar com ele.O carro foi vendido de volta para um colecionador de Curitiba em 1996, e dali perdi o rastro do mesmo. Para mim, vender foi um alívio, pois honestamente me livrei de um carro com o qual eu saia rodando, sem ter certeza de conseguir voltar do mesmo jeito!

Todavia, ficou "piscando na cabeça uma luzinha" que havia sido acesa lá nos idos de 1976, quando vi numa revista, uma foto de um MP laranja... passei a pensar: "um dia vou ter um desses, pois tem a beleza do MG, e nenhum dos problemas dele!"

Em 2013 vendi um Maverick GT V8 1973 (raríssimo nesse ano), paguei umas continhas e parti pra cima de um amigo que era dono desse MP que está aqui comigo hoje. O carro estava há muitos anos encostado, e a história que me foi passada foi a seguinte : o primeiro dono, em São Paulo, comprou o carro para a mulher; o carro era da cor dourado palha metálico e o cara resolveu pintar de branco.

Sinceramente, nunca vi um trabalho de pintura tão mal feito; dá a impressão de que foi pintado com vassoura de piaçava. Além disso, o cara arrancou os para-choques originais, trocando-os pelos para-choques do TI. Além disso, trocou os faróis de milha redondos, pelos retangulares que aparecem na foto.

O carro veio pra casa e comecei o trabalho de limpeza, pois ninho de rato era o que mais tinha. Quando ele estava menos sujo, levei para a oficina, sempre de guincho. Lá foi colocado sobre cavaletes e começou a restauração mecânica: revisão de freios, rolamentos, articuladores e terminais.

O motor foi parcialmente desmontado, tendo sido trocadas as bronzinas de bielas e os anéis, pois o carro tinha 53.608 km originais! Carenagens do motor pintadas, escapamento pintado com tinta à prova de calor, tudo em ordem, trouxe ele pra casa, rodando... e quase um susto: os pneus traseiros se desintegraram!

Pneus ressecados por falta de uso são mais perigosos que pneus desgastados pelo uso constante.
Pneus ressecados por falta de uso são mais perigosos que pneus desgastados pelo uso constante.

Um jogo de pneus novos, e vamos rodar com o carrinho!

A compra foi em 2013 e hoje ele tem 56.933 km no hodômetro, o que mostra que rodei muito pouco com ele. À exceção da troca dos para-choques e dos faróis de milha, o estou mantendo da forma que o recebi. O vinil da capota ainda é original e, tão logo seja possível, vou desmontar e mandar cromar os faróis e a tampa do "radiador" na frente.

Dos detalhes originais, a únicas coisas danificadas são as borrachas que existem naquela "viga" cromada que desce do teto até o corpo do carro, e que serve de vedação para o vidro da porta.

O carro é do ano de fabricação 1976, sendo que o motor é numbers matching, ou seja, ainda é o original.

Bem, Walter, era o que eu tinha a comentar. Se você quiser saber algo mais, é só avisar!

Um abração, boa semana.

Ivo Heinzelmann"

Mais um MP Lafer resgatado e retomando suas características originais, graças ao empenho de um entusiasta.
Mais um MP Lafer resgatado e retomando suas características originais, graças ao empenho de um entusiasta.


Veja também:

O Lafer LL 005 está sendo restaurado na Bahia

O Lafer LL 005 guarda rodas originais e uma história que precisa ser resgatada.
O Lafer LL 005 guarda rodas originais e uma história que precisa ser resgatada.

No interior da Bahia um raríssimo Lafer LL está em lento processo de resgate, pedindo socorro para os pouquíssimos especialistas da marca. 

Nilson Amorim da Silva vive em Jacobina, cidade no interior da Bahia fundada em 1722, com pouco mais de 90 mil habitantes e distante 330 km de Salvador. Ele entrou em contato com o site mplafer.net por meio da fanpage do MP Lafer no Facebook.

Nosso colega é o atual proprietário do Lafer LL 005, um dos sete exemplares conhecidos que foram comercializados pela Lafer. Outra unidade não teria sido concluída, embora sua carrocerias de fibra de vidro tivesse sido elaborada.

Ele solicitou auxílio para encontrar os bancos originais do modelo, informando que o carro estava em processo de restauração. Infelizmente temos severas dificuldades para encontrar componentes originais de um modelo da Lafer que não venceu a fase dos protótipos, além do fato dos profissionais que trabalharam neste projeto há quatro décadas estarem dispersos ou mesmo encerrado suas trajetórias por aqui.

Como não somos comerciantes de peças e não restauramos carros, nosso único meio de ajudar é divulgando todas as informações que conseguimos reunir em torno do Lafer LL. Não é uma tarefa fácil, mas a gente segue insistindo.

Queremos ajudar o Nilson a resgatar o Lafer 005. Para tanto, colocamos nosso e-mail de contato à disposição de todos que tiverem como colaborar:

mplafer@tosetto.net

Toda informação relevante será repassada para o Nilson. Portanto, se você tem ou já teve um Lafer LL, trabalhou na construção dos protótipos ou conhece algum fornecedor de peças ou ainda algum artesão capaz de reconstruir componentes do modelo, entre em contato conosco.

Ainda sobre o Lafer LL 005, de acordo com Amorim, este exemplar foi "fabricado sob encomenda  para o Sr. Artur Miranda de Carvalho, e ele presenteou o filho Ailson Dias de Miranda."

Vidros, para-choques e emplacamento: ainda falta muito para deixar o Lafer LL 005 em condições de rodar.
Vidros, para-choques e emplacamento: ainda falta muito para deixar o Lafer LL 005 em condições de rodar.

A grade frontal que protege o radiador e as lentes dos faróis perdeu-se com o tempo e o descuido.
A grade frontal que protege o radiador e as lentes dos faróis perdeu-se com o tempo e o descuido.

Todo o trim do interior do Lafer LL necessita de recomposição: bancos, carpetes, revestimentos de portas e painéis.
Todo o trim do interior do Lafer LL necessita de recomposição: bancos, carpetes, revestimentos de portas e painéis.

O suporte do volante do Lafer LL005 ainda é original. O desafio será recompor o sistema de mostradores digitais no cubo central.
O suporte do volante do Lafer LL005 ainda é original. O desafio será recompor o sistema de mostradores digitais no cubo central.

Mesmo incompleto, este Lafer LL encanta a visão por causa de seu desenho fluído e envolvente.
Mesmo incompleto, este Lafer LL encanta a visão por causa de seu desenho fluído e envolvente.

Veja também:

Galeria 2018: Bruler

Neste MP Lafer 1975 chama a atenção a chave com o símbolo da marca no colete que envolve a grade frontal: ela é negra em contraste com o aspecto cromado do restante do componente. Poucos carros saíam assim de fábrica, nos primeiros anos da produção.
Neste MP Lafer 1975 chama a atenção a chave com o símbolo da marca no colete que envolve a grade frontal: ela é negra em contraste com o aspecto cromado do restante do componente. Poucos carros saíam assim de fábrica, nos primeiros anos da produção. 

BRULER BROTHERS

Amigos do mplafer.net, aqui é o editor Jean Tosetto, pedindo licença para contar um pouco sobre o meu trabalho. Sou arquiteto na cidade de Paulínia, interior de São Paulo, e um dos projetos mais importantes da minha carreira foi o Centro de Distribuição do Ponto do Encanador - uma das maiores lojas de componentes para instalações hidráulicas e elétricas do Brasil.

O grande responsável pela minha contratação, ainda em 2016, foi um dos sócios do negócio, o empresário Luciano Bruler. Ele é um exemplo de que as pessoas mais bem-sucedidas geralmente são também as mais generosas, sabendo cobrar resultados das pessoas sem deixar de reconhecer as metas atingidas.

Quando o Luciano soube que eu era o autor do livro "MP Lafer: a recriação de um ícone", ele me pediu para levar um exemplar em seu escritório. Sua intenção era presentear seu irmão que mora em Piracicaba, o José Otávio Bruler, dono de um MP Lafer 1975 há muitos anos na família.

Pelo montante envolvido no contrato do projeto, se o Luciano tivesse me pedido o livro de graça, eu teria dado. Mas ele fez questão de pagar e me pediu uma dedicatória especial para seu irmão. Veja bem, não é a questão do preço do livro em jogo - um dinheiro irrisório perto do que recebi para fazer o projeto. Porém, é o valor simbólico de reconhecer o empenho de alguém. Só pessoas bem-sucedidas tem esse dom.

Logicamente foi um prazer autografar aquele exemplar que era apenas uma das várias demonstrações de afeto entre dois irmãos. Para complementar, o Luciano me encaminhou as fotos do MP Lafer do Otavio, para que eu pudesse compartilhar com vocês.

Tem gente que acha que este site é sobre um carro. Não é. É sobre gente. O carro é a desculpa para entrarmos em contato com gente de bem, a quem queremos bem.

O conversível passou por serviços de manutenção e restauro em 2017, na cidade de Piracicaba.
O conversível passou por serviços de manutenção e restauro em 2017, na cidade de Piracicaba.

Em 1974 e 1975 a Lafer ainda entregava alguns MPs com motores de carburação simples, com 1.500 cc. A partir de 1976 o padrão adotado foi o motor VW Boxer 1.600 cc com dupla carburação.
Em 1974 e 1975 a Lafer ainda entregava alguns MPs com motores de carburação simples, com 1.500 cc. A partir de 1976 o padrão adotado foi o motor VW Boxer 1.600 cc com dupla carburação.

A lanterna traseira original do MP Lafer 1975 era do modelo "capelinha", igual a do Fusca da época. Mas este exemplar está com o modelo adotado a partir de 1976, inspirado no MG-B.
A lanterna traseira original do MP Lafer 1975 era do modelo "capelinha", igual a do Fusca da época. Mas este exemplar está com o modelo adotado a partir de 1976, inspirado no MG-B.

Neste exemplar que guarda grande originalidade, a única peça que destoa é o volante, cujos raios de metal são encapados por aletas plásticas.
Neste exemplar que guarda grande originalidade, a única peça que destoa é o volante, cujos raios de metal são encapados por aletas plásticas.


Veja também:

Carro na estrada para Monte Alegre do Sul

Elevação posterior do portal de Monte Alegre do Sul.
Elevação posterior do portal de Monte Alegre do Sul.

Apenas um dia já pode ser suficiente para recuperar as baterias gastas nas engrenagens do cotidiano. Não é preciso esperar meses para fazer uma viagem curta. Se o carro está em ordem na garagem, o check-in no aeroporto pode esperar.

Por Jean Tosetto *

Quando você é jovem de corpo e alma, além de recém-chegado ao mercado de trabalho, ouvir as pessoas reclamarem do estresse não faz muito sentido. Você está com toda a energia e disposição para abraçar o mundo e não presta muita atenção nas dores alheias. Mas uma frase aqui e outra acolá fica enterrada no seu inconsciente e subitamente elas afloram quando chega a sua vez de perguntar:

- O que estou fazendo aqui?

Então um de seus primeiros clientes volta a conversar com você num flashback mental:

- As pessoas ficam estressadas, trabalhando o ano inteiro, esperando pelo seu mês de férias para aliviar o fardo. Quando viajam por vários dias, elas saem do seu ambiente viciado para sentir um alívio momentâneo, mas a situação só piora quando a pessoa volta para o ofício. No meu entendimento, devemos combater o estresse em nosso ambiente de trabalho e na nossa rotina, mudando hábitos e melhorando a qualidade do espaço que ocupamos. Por isso quero que você me projete uma casa bem aconchegante.

Logicamente não foram as palavras exatas que o advogado usou no meu escritório, que ele revelou ter ouvido de uma psicóloga, mas uma das belezas de ser arquiteto é que podemos aprender o tempo todo com as pessoas, se deixarmos o radar ligado.

Por ser um profissional liberal, tenho dificuldade para tirar férias prolongadas. Ao longo do tempo, descobri a terapia de fazer pequenas viagens em fins de semana, de modo que estas se introduziram na minha rotina, funcionando como válvulas de escape da pressão crescente que muitas vezes nós mesmos nos impomos.

Fazer um bate e volta, com a opção de se hospedar no destino escolhido, nos permite colocar o carro na estrada, onde podemos desfrutar do prazer em dirigir – que as cidades brasileiras sem planejamento urbano vêm nos roubando.

Será que a culpa é só do carro?

Embora não more numa grande cidade como São Paulo, me coloco no lugar de seus milhões de habitantes, muitos deles perdendo horas do seu dia para se deslocarem de casa para o trabalho. Os engarrafamentos, os radares, as lombadas, o rodízio, os amarelinhos ou marronzinhos: tudo isso vai tirando do cidadão o prazer de guiar o próprio automóvel. Eis um crime não tipificado no Código Penal, mas que penaliza a vítima sem piedade.

É compreensível que o sujeito, após uma semana inteira de trabalho, não queira nem chegar perto de seu carro no domingo. Ele muitas vezes prefere esperar as férias chegarem, já pagando as parcelas do pacote turístico para Orlando na Flórida, por exemplo. Daí vem uma constatação irônica: muitos brasileiros que viajam de avião para outros países, não conhecem cidades de interesse turístico que, não raramente, ficam num raio inferior a 200 km.

Quantos bilhões de reais o Brasil desperdiça por ano, por não ter uma política de turismo nacional realmente eficaz?

Não estamos aqui para reclamar dos agentes públicos, mas para fazer a nossa parte, com as ferramentas que temos em mãos e o com princípio da iniciativa privada. Falemos de nossas pequenas e acolhedoras cidades. Valorizemos nossa gente. Circulemos nosso dinheiro entre nós mesmos. E finalmente coloquemos nossos carros na estrada. Se eles foram feitos para isso, nós também fomos.

Santo de casa também faz milagre

Por vezes, para conhecer um lugar diferente e não muito longe de casa, precisamos apenas de um motivo, uma boa desculpa para sair da frente da TV ou dos corredores de um Shopping Center no fim de semana. A Festa do Morango em Monte Alegre do Sul, por exemplo.

Esta pequena cidade, com menos de oito mil habitantes, fica no Circuito das Águas Paulista, entre Amparo e Serra Negra, nas margens do Rio Camanducaia, que serpenteia entre os montes da Serra Mantiqueira. Rica em fontes de água mineral, a malha urbana desordenada do município, repleta de casas do tempo colonial no ciclo do café, lembra a composição de um presépio, quando vista do alto de algum mirante.

O município de forte presença de descendentes de italianos fica distante apenas 130 km de São Paulo – ou seja, dá para ir e voltar no mesmo dia. Mas se tiver vaga em alguma pousada rural, vale a consideração pelo pernoite, especialmente se o clima estiver convidativo, com aquele ar puro e gelado que desce gostoso até os pulmões.

Há três caminhos pavimentados para chegar até Monte Alegre. Os usuários da Rodovia Fernão Dias podem seguir para Socorro e acessar uma estradinha vicinal tinhosa, que se liga ao caminho de Pinhalzinho para chegar ao destino pelo sul. Quem vem de Serra Negra, ao norte, desce apenas 6 km por uma pista simples, mas deliciosa de guiar. Nós optamos pela estrada que vem de Amparo, a oeste – é lá que fica o portal da cidade, construído num estilo que poderia ser classificado como misto de neocolonial com neorrenascentista.

Vista do portal de Monte Alegre do Sul para quem chega por Amparo.
Vista do portal de Monte Alegre do Sul para quem chega por Amparo.

Fronteira entre estados de espírito

A passagem pelo portal, reduzindo a marcha do carro, é simbólica. Até parece que deixamos numa alfândega imaginária aquele excesso de bagagem mental, formada por picuinhas não resolvidas, assuntos sem importância e implicações relacionadas ao trabalho. Para ingressar num recanto perdido entre montanhas, devemos levar apenas a parte alta do nosso astral.

Se por acaso o astral não estiver num bom nível, a placa indicando a direção do Mirante do Cristo vem como elixir. O percurso até o topo do monte é estreito e formado por bloquinhos de concreto intertravados. Nem todos bem travados. Os pneus vão tateando um por um e algumas peças se movimentam, fazendo um “cloc-cloc-cloc” agradável aos ouvidos.

Logo, um código informal se estabelece instintivamente entre desconhecidos: como só passa um carro de cada vez em certos trechos, quando há um encontro de veículos em direções opostas, quem está subindo joga duas rodas sobre a guia, encostando-se ao paredão. Quem está descendo não pode correr o risco de queda livre, dando passagem para quem sobe.

O Alfa Ronosso parece receber a benção luminosa do Redentor.
O Alfa Ronosso parece receber a benção luminosa do Redentor.

O cheiro do aconchego

Não é preciso dizer que a vista lá do alto é compensadora. Na quietude do lugar podemos ouvir a brisa encobrindo a pulsação do universo. Lá embaixo as casinhas coloridas disputam nossa atenção com o verde predominante da intensa arborização da paisagem. Se houvesse um restaurante com terraço panorâmico ali, poderíamos ter a sensação de esbarrar com Audrey Hepburn e Cary Grant, se estranhando ao som de Henry Mancini, no filme Charada. Está certo: o lugar não é nevado, mas igualmente charmoso.

Os jardins bem cuidados são uma tônica na cidade.
Os jardins bem cuidados são uma tônica na cidade.

Charmosa também é a velha Ponte da Mogiana, construída com estrutura metálica pela norte-americana Keystone Bridge Company de Pittsburgh em 1887, e restaurada um século depois pelo governo estadual. A Mogiana era uma empresa de transporte ferroviário, que escoava para Santos a produção de café em toda a região expandida de Campinas. Hoje o pontilhão não serve mais aos trens, mas aos automóveis – sempre um de cada vez.

A Ponte da Mogiana sobre o Rio Camanducaia.
A Ponte da Mogiana sobre o Rio Camanducaia.

Seguimos pelos trilhos desativados até a antiga estação ferroviária convertida em espaço cultural. Ao lado dela repousa uma locomotiva inglesa a vapor fabricada em 1910, sob um pergolado protegido com painéis de policarbonato. Teoricamente ela ainda funciona, dado que sua chaminé está ligada a um exaustor na cobertura translúcida. O ramal férreo da cidade foi desativado em 1966, para desalento daqueles que iam de trem para a capital.

Nas imediações da Maria Fumaça, funcionários municipais interrompiam o tráfego nas ruas de paralelepípedo que conduziam ao centro. Procuramos uma vaga para o Alfa Ronosso – como chamamos o nosso Twin Spark 156. A caminhada entre casarões com fachada na calçada não seria tão longa até a praça, em frente ao Santuário do Senhor Bom Jesus, repleta de barraquinhas de produtores rurais, com seus morangos do tamanho de limões e cachaças artesanais famosas no interior.

A passarela de pedestres sobre o Rio Camanducaia é cercada de verde.
A passarela de pedestres sobre o Rio Camanducaia é cercada de verde.

A locomotiva a vapor fez sua última viagem oficial em 1966.
A locomotiva a vapor fez sua última viagem oficial em 1966. 

Menos pressa – mais sabor

Com a fome apertando, procuramos um lugar para almoçar ali perto. Escolhemos um bife à parmegiana, numa varanda com vista para a Festa do Morango. A trilha sonora do momento foi executada ao vivo pela banda municipal, cujo repertório passeou pela Bossa Nova, Samba, MPB, Beatles e até uma peça erudita de Verdi. 

Mas o engasgo na garganta veio com o Tema da Vitória. Depois de tantos anos ele ainda mexe com os brasileiros. Não há estatísticas sobre isso, mas talvez a cada três famílias, duas tem um Ayrton Senna que foi embora cedo demais. A gente, porém, ainda tinha uma tarde inteira pela frente em Monte Alegre do Sul.

Nas escadarias do Santuário do Senhor Bom Jesus as pessoas descansam.
Nas escadarias do Santuário do Senhor Bom Jesus as pessoas descansam.

Hora da sobremesa. Um pote de morangos mergulhados no creme de leite e outro no chocolate. Arruma-se um lugar para sentar nas escadarias da igreja, que se convertem em arquibancadas para ver as pessoas passarem. As colheradas glicosadas abastecem o tanque de coragem para vencer a caminhada – quase uma escalada – até o Mirante do Cruzeiro.

Permeada com 14 imagens da Via Crúcis, a trilha para o alto do morro castiga as panturrilhas. A vontade de desistir só não é maior do que a curiosidade de ver o que tem lá em cima: uma capela e uma cruz, separadas por um campo que parece um heliporto – ou seria um lugar para esperar a chegada de uma espaçonave?

A trilha para o Mirante do Cruzeiro é adornada com imagens da Via Crúcis.
A trilha para o Mirante do Cruzeiro é adornada com imagens da Via Crúcis.

Entre a capela e a cruz há espaço para uma missa campal.
Entre a capela e a cruz há espaço para uma missa campal.

A religiosidade em cidades pequenas é mais latente do que nas grandes metrópoles. Talvez alguns não acreditem no além, mas acreditam no vizinho, cujos laços comunitários vão sendo fortalecidos sempre que alguém pendura um estandarte sacro na fachada da casa.

O “Fecha Corpo”

No Brasil as crenças se misturam e Monte Alegre guarda uma tradição iniciada em 1948, quando o Seu Zezé Valente adoeceu. Ninguém sabia ao certo o que era e, portanto, não havia cura para seu sofrimento. Como último recurso Seu Zezé procurou uma curandeira. Ela lhe ensinou uma receita de cachaça com ervas, que deveria ser preparada na quinta-feira da Semana Santa.
 
A bebida teria que ficar ao relento para ser consumida somente na alvorada da Sexta-Feira da Paixão. Seu Zezé se curou! Em agradecimento ele fez uma promessa: servir a cachaça milagrosa de graça, para quem lhe pedisse, nos anos seguintes. O dia do “Fecha Corpo” já completou sete décadas, com a tradição passada para os herdeiros do patriarca. 

Filas quilométricas se formam na porta da casa da Família Valente, que ainda serve uma fatia de pão com aliche para completar o desjejum. Como eles não dão mais conta de atender todo mundo, a Adega do Italiano entrou na história para ajudar. Tempos depois, vários alambiques do município engrandeceram o evento, a ponto de reunir gente fervorosa – além da conta – que vai fechar o corpo várias vezes, fazendo um périplo para garantir vida longa.

Fachada da casa da Família Valente, onde é servido o “Fecha Corpo”.
Fachada da casa da Família Valente, onde é servido o “Fecha Corpo”.

Quem nos contou isso foi um senhor que encontramos num boteco onde compramos água. Ele estava de camisa regata, bermuda e chinelos, mas portava um anel de advogado no dedo anelar direito. Pelo tamanho da pedra vermelha, devia ser tão bom de serviço como era de prosa.

Subindo a montanha

Anoitece mais cedo em cidades que dormem nas várzeas de rios que cortam as montanhas. As sombras que elas projetam nas ruas funcionam como ponteiros de relógios, a indicar a hora de pegar a estrada de novo. Antes conversamos com a Ludmila. Ela vive no Sítio do Júlio, distante mais de 20 km do centro, perto do Distrito de Mostardas. Levamos uma caixa de morangos para saber se realmente eles são os melhores do Brasil.

A Festa do Morango ocorre em julho, quando a Ludmila vende a safra do Júlio.
A Festa do Morango ocorre em julho, quando a Ludmila vende a safra do Júlio.

Seguimos para Serra Negra antes de voltar para casa. A subida da serra é curta, mas garante a diversão para aqueles que gostam de uma boa tocada. Eucaliptais fazem às vezes de guard-rails nas curvas em “C” que conversam com curvas em “S”. Tem curvas em “U” também, e algumas retas curtas para respirar. A paisagem é bucólica.

Essa estrada foi palco de três edições de uma corrida da modalidade “Subida de Montanha”. A última aconteceu em outubro de 2017. É o tipo de evento que atrai aficionados por máquinas de todos os tipos. Mas para levar a disputa a sério ali, a melhor pedida é um carro com tração traseira, livre de todo o peso extra de veículos convencionais.

Na subida para Serra Negra, as curvas são cercadas por eucaliptos.
Na subida para Serra Negra, as curvas são cercadas por eucaliptos.

E aquele peso extra que deixamos na alfândega imaginária do portal ficou para trás. No lugar dele, levamos de volta o perfume dos morangos e o desejo de voltar mais vezes. Em Monte Alegre do Sul não tem aeroporto e não tem mais estação ferroviária. Então a gente vai de carro mesmo – essa invenção sobre rodas que nos dá a liberdade de vasculhar o que há de bom perto de nós.


* Jean Tosetto é arquiteto desde 1999 e editor do site mplafer.net desde 2001. É também autor dos livros “MP Lafer: a recriação de um ícone” (2012), "Arquiteto 1.0 - Um manual para o profissional recém-formado (2015), "Guia Suno Dividendos" (2017) e "Guia Suno de Contabilidade para Investidores" (2018). Saiba mais em www.vivalendo.com

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