São Lourenço, os carros fora de série e uma viagem que ficou na memória

O MP Lafer marcou presença com duas unidades no Encontro Mineiro de Veículos Antigos em São Lourenço.
O MP Lafer marcou presença com duas unidades no Encontro Mineiro de Veículos Antigos em São Lourenço.

Uma viagem a São Lourenço para participar do Encontro Mineiro de Veículos Antigos acabou se transformando em algo maior: uma reflexão sobre memória, idealismo, criatividade e o valor de preservar histórias que poderiam desaparecer. Entre automóveis raros, personagens pioneiros, palestras improvisadas e encontros inesperados, o verdadeiro patrimônio desta jornada não estava apenas nos carros expostos, mas nas pessoas, nas lembranças e no entusiasmo que ainda nos move a fazer aquilo de que gostamos.

Por Jean Tosetto

O entusiasmo pelos carros antigos deixou de ser uma atividade restrita a alguns colecionadores. Em muitas cidades brasileiras, ele se transformou também em uma forma de promover o turismo. A cada fim de semana, há dois ou três encontros de veículos antigos acontecendo, muitas vezes na mesma região, disputando a atenção de proprietários, colecionadores, turistas e simplesmente curiosos que querem ver carros diferentes.

Essa multiplicação de eventos criou uma espécie de competição informal pela relevância. Como fazer um encontro de carros antigos ser mais do que apenas uma exposição? Como criar uma identidade capaz de atrair pessoas e, principalmente, fazer com que elas tenham vontade de voltar?

O Lobini H1 é um carro esportivo brasileiro feito à mão, criado por José Orlando Lobo e Fábio Birolini. Produzido entre 2005 e 2013, foram feitas apenas 42 unidades.
O Lobini H1 é um esportivo feito à mão, criado por José Orlando Lobo e Fábio Birolini. Produzido entre 2005 e 2013, foram feitas apenas 42 unidades.

São Lourenço, no sul de Minas Gerais, parece ter encontrado uma resposta interessante. Localizada em meio à Serra da Mantiqueira e conhecida por suas águas minerais, a cidade decidiu se inserir nesse circuito de grandes encontros. Para isso, a prefeitura contou com colecionadores de Carmo da Mata e Campanha, entre eles André Cavalcante, para organizar uma edição que pudesse ser memorável e, mais importante, tivesse continuidade.

A ideia de dar uma temática ao Encontro Mineiro de Veículos Antigos foi particularmente feliz. Em 2026, a escolha recaiu sobre os carros brasileiros fora de série produzidos entre os anos 1960 e o começo dos anos 2000. Foi uma escolha promissora. E André Cavalcante levou a proposta a sério.

Ele conseguiu reunir em São Lourenço pessoas que jamais haviam se encontrado, mas que ocupam lugares importantes na história do automobilismo brasileiro. Giuseppe Russo, idealizador do Farus; José Orlando Lobo e Fábio Birolini, criadores do Lobini; Ricardo Gurgel, sobrinho de João Augusto Conrado do Amaral Gurgel; Newton Masteguin, filho de um dos fundadores da Puma Veículos e responsável pela Chamonix desde 1987, entre outros.

A réplica do Porsche 356 fabricada artesanalmente - com esmero - pela Chamonix.
A réplica do Porsche 356 fabricada artesanalmente - com esmero - pela Chamonix.

No caso do MP Lafer, André tentou levar Percival Lafer, mas o empresário não pôde comparecer. Como alternativa, ele me convidou para fazer uma palestra sobre a história do MP Lafer, assunto sobre o qual escrevi o livro MP Lafer: a recriação de um ícone.

A princípio, considerei São Lourenço longe demais para uma viagem de fim de semana. Saindo de Paulínia pela Fernão Dias, seriam pelo menos 330 quilômetros. Pela Dutra, cerca de 380. Depois descobri que a cidade fica aproximadamente 90 quilômetros distante das duas principais rodovias da região. Era longe, portanto. Mas a forma do convite e a proposta do encontro me convenceram.

O André queria que eu levasse meu MP Lafer. Eu, porém, argumentei que o carro comporta apenas duas pessoas e que gostaria de levar minha esposa e minha filha, de 13 anos. Ela precisava acumular boas memórias — e nós três nunca havíamos estado em São Lourenço. O André compreendeu.

Acabamos viajando no dia 14 de agosto, uma sexta-feira, para passar o sábado no encontro, fazer minha palestra à noite e retornar no domingo. E aqui preciso registrar a generosidade da cidade: o Hotel Londres gentilmente nos ofereceu a hospedagem.

O Hotel Londres fica no centro turístico de São Lourenço.
O Hotel Londres fica no centro turístico de São Lourenço.

A viagem já fazia parte da experiência. Passamos por estradas que nunca havíamos percorrido, por cidades como Lambari e Borda da Mata, admirando aquelas montanhas de Minas Gerais que inspiraram tantos poetas. Também constatamos algo que precisa ser dito: muitas rodovias mineiras ainda são simples demais para a importância que o estado possui. Faltam acostamentos, sinalização e, em alguns trechos, melhores condições de segurança. Em vários municípios, a estrada simplesmente atravessa o centro urbano, em vez de contorná-lo. Mas, quando não se está com pressa, há uma beleza particular nisso. A viagem se torna mais lenta e, justamente por isso, mais prazerosa.

Chegamos ao Hotel Londres, um estabelecimento simples e antigo, mas onde fomos recebidos com uma atenção que merece ser mencionada. O pessoal da recepção nos tratou como se já nos conhecesse havia muito tempo. Explicavam tudo com paciência, indicavam os lugares e pareciam genuinamente interessados em nossa estadia.

O boulevard de São Lourenço: menos carros, mais verde e mais espaço para as pessoas.
O boulevard de São Lourenço: menos carros, mais verde e mais espaço para as pessoas.

O hotel ficava a poucas quadras da Praça João Lage. Para chegar até lá, atravessávamos um boulevard onde bancos de madeira ocupavam antigos espaços destinados aos automóveis. Havia uma faixa central para os carros e, logo adiante, o calçadão. Foi ali que conhecemos o Pedro, um senhor que nos abordou para oferecer uma mesa em um restaurante próximo. Eu disse que voltaríamos. Voltamos mesmo — nos dois dias. A pizza era muito boa. Em Minas Gerais, contudo, vale a pena reservar pelo menos o almoço para experimentar a culinária local. Também fizemos isso.

O calçadão de São Lourenço é repleto de cafés e restaurantes, onde as pessoas fazem suas refeições ao ar livre, numa atmosfera descontraída.
O calçadão de São Lourenço é repleto de cafés e restaurantes, onde as pessoas fazem suas refeições ao ar livre, numa atmosfera descontraída.

Uma exposição improvável

Quando finalmente entrei no recinto do encontro, fiquei impressionado. Não apenas pela quantidade, mas pela qualidade e pela raridade dos automóveis. Dois grandes colecionadores do estado de São Paulo haviam levado seus carros para São Lourenço. A Garage Brazil transportou cerca de 20 veículos, enquanto o Dream Car, de São Roque, também cedeu alguns exemplares para a exposição.

Entre eles estava um Hofstetter que, salvo engano, teve apenas 17 unidades produzidas. É o tipo de automóvel que provavelmente muitas pessoas jamais haviam visto pessoalmente — e talvez nunca mais tenham oportunidade de ver novamente em um encontro. Por isso, é preciso reconhecer a generosidade de quem possui recursos para preservar esses automóveis e, sobretudo, disposição para colocá-los à disposição do público.

Hofstetter: o carro do filme "De Volta para o Futuro" para uns; importado para muitos; devidamente admirado por todos.
Hofstetter: o carro do filme "De Volta para o Futuro" para uns; importado para muitos; devidamente admirado por todos.

A Garage Brazil organizou duas cegonheiras para transportar seus veículos. Não levou apenas o MP Lafer amarelo, extremamente original. Levou também um Adamo, exemplares da Miura, modelos da Puma, um Chamonix, um Gurgel e o Centauro, baseado no Ford Maverick, entre outros. Eu nunca havia visto um Centauro diante de mim. E se não voltar à Garagem Brasil, em Alphaville, provavelmente não o verei novamente.

Centauro: tão estranho e robusto quanto raro.
Centauro: tão estranho e robusto quanto raro.

Havia algo curioso acontecendo entre os visitantes. Muitas pessoas passavam pelos automóveis acreditando que fossem importados. Quando eu dizia que determinado carro havia sido fabricado no Brasil, algumas simplesmente não acreditavam. Como era possível que o Brasil dos anos 1970 produzisse automóveis tão interessantes? A pergunta é legítima.

A Garagem Brasil levou ainda três exemplares do Farus: o ML 929, o Cabriolet e o Quadro. Foi nesse momento que encontrei Giuseppe Russo caminhando sozinho pelo evento. Aos 76 anos, ele não aparentava ser o homem que idealizou um automóvel que chegou a vender mais de 1.200 unidades. Era atencioso, acessível e disposto a conversar informalmente com quem se aproximasse. Talvez essa seja uma das grandes riquezas de um encontro como aquele: por alguns minutos, a história deixa de estar nos livros e passa a caminhar entre nós.

Jean Tosetto (quem?) e Giuseppe Russo diante de um Farus ML 929, desenvolvido no final da década de 1970.
Jean Tosetto (quem?) e Giuseppe Russo diante de um Farus ML 929, desenvolvido no final da década de 1970.

O evento também recebeu uma etapa do Rally de Regularidade de Minas Gerais. Alguns carros que estavam em exposição participaram da prova. Era uma demonstração prática de que automóvel antigo não precisa ser tratado como peça de museu. Ele pode — e deve, quando possível — continuar rodando.

Um L'Automobile Ventura durante a largada do Rally de Regularidade de Minas Gerais.
Um L'Automobile Ventura durante a largada do Rally de Regularidade de Minas Gerais.

Na entrada, dois carros chamavam particularmente a atenção: o Concorde, ainda pertencente à família de seu criador, e o Brasinca Uirapuru, que pertencia ao próprio André Cavalcante. Pouco mais de 70 unidades do Uirapuru teriam sido produzidas, e pouquíssimas ainda circulam. A unidade de André estava impecável.

O Concorde, comemorando 50 anos de lançamento, e o Brasinca Uirapuru na tenda mais nobre do Encontro Mineiro de Veículos Antigos de 2026.
O Concorde, comemorando 50 anos de lançamento, e o Brasinca Uirapuru na tenda mais nobre do Encontro Mineiro de Veículos Antigos de 2026.

Havia também o menor automóvel do encontro em dimensões, mas talvez um dos maiores em capacidade de despertar curiosidade: uma Romi-Isetta de 1956. Ela atraía crianças e idosos com a mesma facilidade.

Romi-Isetta 1956, fabricado em Santa Bárbara d"Oeste, no interior de São Paulo.
Romi-Isetta 1956, fabricado em Santa Bárbara d'Oeste, no interior de São Paulo.

São Lourenço além dos automóveis

O clima ajudou. O fim de semana não estava quente demais nem frio demais. Havia sol, uma brisa leve e aquela temperatura agradável que convida a caminhar. No sábado à tarde, chegou a chover um pouco, mas nada capaz de esfriar o entusiasmo.

Entre uma fotografia e outra, caminhávamos pelos carros, voltávamos ao calçadão para comer alguma coisa e descobríamos vielas, becos e pequenas lojas charmosas. São Lourenço não tem um grande shopping center, mas possui um centro comercial diversificado e bastante vivo.

Também visitamos o Mercado Municipal. Ali, a experiência é quase sinestésica. Temperos, ervas, couro, bebidas, frutas e legumes disputam espaço nas bancas. Cores e cheiros se misturam enquanto as pessoas circulam. E há algo especialmente interessante nisso: não é um lugar construído para turistas. É um lugar autêntico, feito para os próprios moradores.

Além do mais, conhecemos o Parque das Águas, com suas fontes de águas minerais de diferentes características, o balneário e um paisagismo exuberante. É um lugar que merece ser visitado mesmo quando não há carros antigos na cidade.

Caminhar pelo Parque das Águas de São Lourenço é como encontrar um momento de paz e serenidade.
Caminhar pelo Parque das Águas de São Lourenço é como encontrar um momento de paz e serenidade.

Outra atração obrigatória é o Trem das Águas, que parte da antiga estação ferroviária e segue até Soledade de Minas. O passeio dura pouco mais de duas horas e é realizado por uma Maria Fumaça de 1927.

A cidade foi, portanto, muito além do encontro. Conversando com comerciantes, funcionários do hotel e moradores, comecei a enxergar São Lourenço sob outra perspectiva. É uma cidade interessante para turistas e pode ser especialmente atraente para quem já possui uma fonte de renda passiva e procura um lugar com custo de vida mais moderado. Para alguém jovem, no início de uma carreira profissional, a realidade pode ser diferente. Quem pretende ampliar rapidamente a renda e o patrimônio talvez precise buscar oportunidades em centros maiores. Para quem trabalha remotamente, porém, São Lourenço pode ser uma excelente alternativa.

Um encontro que ultrapassou os carros

Entre as pessoas que encontrei estava Lucas de Oliveira, professor de matemática em uma escola pública de Caxambu e também professor de uma escola particular de São Lourenço. Ele desenvolve um projeto de educação financeira que já foi premiado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais e que chegou a ser apresentado em Brasília. Seus alunos também conquistaram diversas medalhas em olimpíadas estudantis.

O que me aproximou dele foi ainda mais especial: o Lucas utiliza em seu projeto alguns dos livros que escrevo ou edito pela Suno. Como havíamos enviado uma coleção de livros para o projeto, avisei que estaria em São Lourenço. Ele generosamente foi ao encontro acompanhado de alguns alunos, entre 11 e 13 anos.

Os alunos do Professor Lucas já estão aprendendo sobre educação financeira e investimentos.
Os alunos do Professor Lucas já estão aprendendo sobre educação financeira e investimentos.

Pude dizer algumas palavras a eles. Não falei sobre dinheiro. Não falei sobre sucesso. Falei sobre uma vida digna e bem-aventurada. Disse que isso começa em casa, pelo respeito aos pais, e continua na escola, pelo respeito aos professores. Foi um momento pequeno dentro de um evento grande. Para mim, entretanto, só aquele encontro já teria feito a viagem valer a pena.

Quando a história toma o microfone

No entardecer de sábado, começou o ciclo de palestras com criadores, historiadores e autores ligados aos carros brasileiros fora de série. Eu era um deles. Outro era Juan Dierckx, que faria duas apresentações: uma sobre a Puma e outra sobre o Volkswagen SP2, modelo de produção limitada criado justamente para competir dentro desse universo de esportivos brasileiros.

A proposta era excelente. A execução poderia ter sido melhor. As palestras foram realizadas em uma tenda ao ar livre, ao lado dos carros. A poucos metros dali havia outra tenda, na praça de alimentação, com música ao vivo. Eu gosto de rock. Mas, pela primeira vez, fiquei desapontado ao ouvir rock ao vivo. O problema não era a música. Era a concorrência sonora.

No palco: Felipe Bitu, da Quatro Rodas, e Gerry Cunningham, o idealizador do Glaspac Cobra, conversam diante do bólido fabricado com carroceria de fibra de vidro e mecânica Ford.
No palco: Felipe Bitu, da Quatro Rodas, e Gerry Cunningham, o idealizador do Glaspac Cobra, conversam diante do bólido fabricado com carroceria de fibra de vidro e mecânica Ford.

Além disso, cada palestrante teria aproximadamente 15 minutos para falar. Os primeiros, porém, se estenderam por uma hora ou mais. Sem um moderador para controlar o tempo, o cronograma foi sendo comprometido. E havia poucas pessoas assistindo. Algo entre 25 e 30 espectadores. A cada palestra, algumas pessoas iam embora.

Houve apresentação que se transformou quase em um inventário. Em vez de contar de forma sintética a história de determinado automóvel, o palestrante mostrou fotografias de exemplares remanescentes, inclusive sucatas, e passou a mencionar proprietários, negociações e destinos dos carros. A sensação era de estar diante de um perito prestando depoimento. Quando terminou, ele foi embora. Não ficou para assistir aos demais.

A exceção honrosa foi a dupla José Orlando Lobo e Fábio Birolini. Os sobrenomes dos dois formam justamente o nome Lobini, um dos mais interessantes automóveis esportivos brasileiros. Um carro excepcionalmente bem projetado e construído, com qualidade que, na minha opinião, poderia ter encontrado espaço no mercado europeu. Eles apresentaram a história de maneira organizada, com slides progressivos, e permaneceram até o final do ciclo de palestras.

José Orlando Lobo e Fábio Birolini falam sobre a ousada experiência com o Lobini, esportivo brasileiro fabricado no começo do século 21.
José Orlando Lobo e Fábio Birolini falam sobre a ousada experiência com o Lobini, esportivo brasileiro fabricado no começo do século 21.

O tempo excessivo das primeiras palestras acabou prejudicando as seguintes. O Juan, que havia viajado de Botucatu — cerca de nove horas de estrada — acabou incorporado à apresentação de Newton Masteguin sobre a Chamonix, empresa que nasceu de um desmembramento da Puma. A palestra sobre o SP2 foi cortada. Lamentei por ele.

Família Puma: carros com motores da VW, GM e DKW. Muita história para ser contada. Pouco tempo restante.
Família Puma: carros com motores da VW, GM e DKW. Muita história para ser contada. Pouco tempo restante.

Mas não foi isso que estragou o fim de semana. Estamos apenas registrando o episódio porque críticas também podem ser uma forma de ajudar a melhorar um evento que tem muito potencial.

A minha palestra

Minha palestra sobre o MP Lafer seria a penúltima. Giuseppe Russo havia falado sobre o Farus sem slides, apenas com o microfone. Depois veio a apresentação sobre o Concorde, com familiares do criador e o autor do livro sobre o automóvel.

Eu havia preparado 12 slides para uma apresentação de aproximadamente 15 minutos. Um minuto por slide, mais introdução e conclusão. Convidei o Walter Martins Pereira Jr, do canal Quinta Marcha, para dividir comigo aquele momento. Não tenho vaidade de falar sozinho. O Walter é um entusiasta genuíno dos carros fora de série e fez ótimas colocações.

Walter Jr e Jean Tosetto (quem?) durante a breve palestra sobre o MP Lafer, em registro de Juan Dierckx.
Walter Jr e Jean Tosetto (quem?) durante a breve palestra sobre o MP Lafer, em registro de Juan Dierckx.

Eu sequer esperava usar slides. Mas, quando mencionei isso, pediram que eu entregasse o pendrive. O secretário de Turismo de São Lourenço acabou operando a mesa, pois a pessoa responsável havia saído para jantar e não retornara. Foi tudo bastante improvisado. Ainda assim, acho que a palestra funcionou.

Havia me preparado para contar uma história com começo, meio e fim. E, no final, resolvi colocar algo pessoal. Havia talvez dez pessoas assistindo. Mas falei como se fossem 1.500. Disse que aquele encontro merecia um auditório fechado e que as palestras deveriam ter sido gravadas em áudio e vídeo. Afinal, estávamos diante de um momento histórico: pessoas fundamentais para a história dos carros brasileiros fora de série estavam reunidas no mesmo lugar. Provavelmente aquilo nunca mais acontecerá daquela maneira. O que poderia ter sido um gol de placa acabou sendo uma bola murcha que bateu na trave. Mesmo assim, quem estava ali participou de algo que dificilmente se repetirá.

Encerrei minha participação de uma maneira que não estava nos slides. Disse que podemos ter muitas dúvidas na vida — sobre futebol, política, sobre os mistérios do universo. Mas que havia pelo menos uma dúvida que duas pessoas ali não poderiam ter. Olhei para minha filha, Carol, e para minha esposa, Renata. Elas não poderiam duvidar de que eu as amo. O público riu e aplaudiu. Foi uma maneira leve de terminar uma noite que, apesar dos problemas, tinha sido especial.

Gurgel e a elegância da memória

A última palestra foi de Ricardo Gurgel, sobrinho do João Gurgel. Ele contou a história do tio com a elegância de quem não está simplesmente transmitindo informações, mas tentando preservar a memória de alguém que considera importante.

João Gurgel foi um inventor extraordinário. Criou um carro elétrico ainda na década de 1970, quando o assunto estava muito longe de possuir a relevância que tem hoje. Enfrentou dificuldades para financiar suas ideias e construiu uma trajetória praticamente sem o apoio que grandes fabricantes tinham à disposição.

Também criou o projeto chamado Cena, sigla de Carro de Econômico Nacional. Porém a utilização do nome gerou uma disputa judicial com o piloto Ayrton Senna. Ricardo contou que, diante da questão envolvendo o nome, João Gurgel teria respondido com uma tirada que atravessou o tempo: mudaria o nome do carro para BR-800 — Brasil, 800 cm³ (capacidade do motor de combustão interna) —, mas lembraria ao piloto que o rio Sena já corria por Paris muito antes dele, Ayrton Senna, começar a correr e, naturalmente, antes mesmo de ele nascer.

O Gurgel Motomachine foi concebido no final dos anos 1980. Ao contrário dos demais automóveis brasileiros fora de série, não foi um modelo esportivo dos sonhos para poucos, mas veio com a proposta de ser um utilitário de fato.
O Gurgel Motomachine foi concebido no final dos anos 1980. Ao contrário dos demais automóveis brasileiros fora de série, não foi um modelo esportivo dos sonhos para poucos, mas veio com a proposta de ser um utilitário de fato.

Já era quase dez horas da noite. Estávamos ao relento, com frio e fome. Mas valeu cada segundo para quem permaneceu até o fim. Naquele momento, inclusive, pensei que talvez tivesse sido melhor Percival Lafer não ter comparecido. mesmo. Um homem de 90 anos não deveria precisar esperar horas para falar alguns minutos, ainda mais em condições desconfortáveis.

Uma pequena surpresa no fim da noite

Quando finalmente deixei o local e fui a caminho do restaurante do Pedro (ao lado da banca de jornais do calçadão), uma moradora de São Lourenço me abordou. Era uma das poucas pessoas da cidade que haviam permanecido até o final das palestras. Ela pediu para tirar uma selfie comigo porque havia gostado da apresentação sobre o MP Lafer. Também conversamos sobre os móveis Lafer, assunto que mencionei durante a palestra.

Ela me apresentou à mãe, uma senhora elegante, e perguntou o que faríamos no dia seguinte. Respondi que andaríamos no Trem das Águas. Ela aprovou imediatamente. Disse que minha filha iria gostar muito. Foi uma pequena cena, aparentemente sem importância. Mas é justamente dessas pequenas cenas que uma viagem acaba sendo feita. Não guardei o nome dela. Guardei, porém, a lembrança.

Vinte e cinco anos depois

O dia 15 de agosto de 2026 tinha ainda outro significado para mim. Naquela mesma data, o site MP Lafer — mplafer.net — completava 25 anos. Sim, fomos pioneiros da Internet. Quando criei o site, estava sozinho, no meu escritório de arquitetura. Era uma época em que manter uma página dedicada a uma marca de automóveis era quase uma excentricidade.

Vinte e cinco anos depois, naquele sábado à noite, cerca de dez ou doze pessoas compartilharam comigo a alegria de lembrar essa história. Ficamos no lucro. E talvez essa seja uma boa metáfora para todo o fim de semana.

A indústria brasileira de carros fora de série também nasceu de uma espécie de pioneirismo. A proibição das importações, nos anos 1970, abriu espaço para empreendedores criativos. Surgiram fabricantes pequenos, capazes de produzir automóveis originais em um país dominado pelas grandes montadoras.

Durante algum tempo, parecia que aquilo poderia prosperar indefinidamente. O Brasil havia vivido o chamado milagre econômico e carregava a velha promessa de ser o país do futuro. Mas o futuro não chegou exatamente como se imaginava. A hiperinflação dos anos 1980 atingiu duramente os pequenos fabricantes. Depois, a abertura das importações, no começo da década de 1990, encerrou boa parte dessas experiências.

Miuras em destaque: bravos esportivos fabricados no Rio Grande do Sul.
Miuras em destaque: bravos esportivos fabricados no Rio Grande do Sul.

Os carros sobreviveram. As empresas, em muitos casos, não. E há algo de simbólico nisso quando penso no próprio encontro de São Lourenço. A ideia era excelente. As pessoas certas estavam lá. Havia história, conhecimento, carros raríssimos e uma plateia interessada. Mas o resultado final ficou aquém do potencial. É uma crítica construtiva, não uma condenação.

Os organizadores fizeram o melhor que podiam com os recursos que tinham. O André Cavalcante reconheceu isso e afirmou que a próxima edição poderá ser melhor. Espero que seja. Porque os fabricantes que foram homenageados naquele fim de semana merecem.

O trem, a estrada e a volta para casa

No domingo de manhã, finalmente fizemos o passeio no Trem das Águas. Seguimos até Soledade de Minas e voltamos. Depois do almoço, pegamos a estrada. Na ida, havíamos usado a Fernão Dias. Na volta, escolhi a Dutra. Não foi a melhor decisão. Ao chegarmos à região de Aparecida, encontramos um congestionamento gigantesco. Paulistanos voltavam de Aparecida, do litoral norte e de Campos do Jordão ao mesmo tempo. A viagem que poderia durar cinco horas passou de oito.

Chegamos em casa à noite, fisicamente cansados. Mas mentalmente revigorados. E talvez essa seja a maior conclusão que tiro de São Lourenço. Há viagens que não precisam ser eficientes. Há programas que não precisam fazer sentido econômico. Há coisas que fazemos simplesmente porque gostamos. E isso tem valor.

Os fabricantes de carros fora de série fizeram isso. Foram movidos por idealismo, criatividade e paixão. Os organizadores do encontro fizeram algo parecido ao tentar reunir pessoas que carregam pedaços importantes dessa história.

Nós, que escrevemos livros, mantemos sites e registramos memórias, também somos movidos por uma espécie de entusiasmo. No fim das contas, talvez seja esse entusiasmo que nos mantém em movimento.

O trem de São Lourenço para Soledade de Minas: reserve com antecedência.
O trem de São Lourenço para Soledade de Minas: reserve com antecedência.

 São Lourenço me lembrou disso. E pretendo voltar. Não necessariamente para outro encontro de carros antigos. Talvez apenas para caminhar pelo calçadão, visitar novamente o Mercado Municipal, andar de trem com minha família e comer outra pizza no restaurante do Pedro.

Porque algumas viagens acabam quando voltamos para casa. Outras continuam. A história, afinal, continua.

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Dez MPs, um Karmann-Ghia e uma Kombi vistos de cima. Paixão movida pelo motor boxer da VW.
Dez MPs, um Karmann-Ghia e uma Kombi vistos de cima. Paixão movida pelo motor boxer da VW.

Em tempos de instabilidade, os carros antigos oferecem nostalgia e um ponto de apoio. Enquanto o mundo muda rapidamente, reunir-se para cuidar de um MP Lafer, viajar e conversar sobre coisas triviais nos reconecta ao "aqui e agora". Foi assim no 15º encontro do MP Lafer Germany, realizado na Rhön, na Alemanha, com uma pequena comunidade gerando grandes amizades em um gesto de desaceleração.

Quem vive a rotina diária de trabalho ou estudo pode imaginar que o mundo e a sociedade são coisas estagnadas, que nunca mudam ou que mudam lentamente. Então, eventos impactantes, como a queda do Muro de Berlim em 1989, a queda das Torres Gêmeas em 2001 e, mais recentemente, a eclosão da Pandemia do Coronavírus em 2020, bagunçam as nossas percepções, causando a sensação de ver a História (com H maiúsculo) acontecendo.

Em 2026, quem se conecta à Internet,  trocou a impressão de calmaria pela sensação de instabilidade: guerra na Ucrânia e no Irã, Inteligência Artificial, democracias em risco em vários países, populismo tomando conta de grandes nações, ondas de imigração, conflitos comerciais, a eletrificação dos automóveis, o avanço da China sobre a infraestrutura de países periféricos da África e da América Latina. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e não sabemos onde tudo vai parar.

É por isso que algumas pessoas se agarram em certas coisas que nos trazem um pouco de estabilidade, de acolhimento e de confiabilidade. Os carros antigos se encaixam nisso, assim como discos de vinil e as turnês das velhas bandas de Rock. As pessoas querem se apoiar em algo sólido do passado, como muletas para seguir em frente, ou mesmo como um descanso momentâneo para o cotidiano sem sentido que invade mentes e corações.

Um MP Lafer proporciona reconexão com a natureza e consigo mesmo.
Um MP Lafer proporciona reconexão com a natureza e consigo mesmo.

Compartilhar esses gostos com outras pessoas também parece ser saudável. Logo, é comum vermos gente combinando passeios de motos em grupo, para sair das grandes cidades em direção a algum recanto do interior. Talvez isso ajude a explicar o motivo de, ano após ano, proprietários de MP Lafer se reunirem uma vez por ano, no Brasil e na Alemanha.

São poucas pessoas, é verdade. Mas nestas ocasiões, colegas de esquerda ou de direita não falam de política. Aprender a polir metais com pasta de dente e esponja de aço é mais importante, pois coisas assim forçam os indivíduos a se concentrarem em algo trivial que os traga para o "aqui e agora", quando todo o resto pode esperar. Neste sentido, participar de um encontro de carros antigos é uma ótima forma de gerenciar o estresse. Isso, no fim das contas, colabora para uma vida mais longa e prazerosa.

Onde tem reunião de MP Lafer, tem alguém contrariando a lógica imposta pelo cotidiano.
Onde tem reunião de MP Lafer, tem alguém contrariando a lógica imposta pelo cotidiano.

Quem participou do 15º encontro anual do MP Lafer Germany poderá se identificar com esta breve explanação, ou quem sabe dar outras explicações a respeito do que motiva alguém a se deslocar para outra cidade, nem sempre perto de casa, para passar um fim de semana com gente que sequer é da mesma família. Tem uma beleza intrínseca nisso.

Neste turbulento 2026, os amigos do MP Lafer na Alemanha se reuniram entre os dias 5 e 7 de junho no Wohlfühlhotel Sonnentau — Restaurante & Café, em Fladungen, a cidade mais ao norte do estado da Baviera. Localizada no distrito de Rhön-Grabfeld, ela fica situada entre as montanhas de Rhön, na fronteira com os estados de Hesse e Turíngia. É um destino turístico apreciado por sua história medieval, arquitetura enxaimel e forte proximidade com a natureza.

De acordo com Ludwig Stolz, criador do MP Lafer Germany, "Rhön é uma região montanhosa de origem vulcânica situada na área de fronteira entre os estados alemães da Baviera, Hesse e Turíngia. Conhecida como Terra das Extensões Abertas, possui uma paisagem cultural diversificada, composta por florestas, prados e habitats ricos em espécies. Desde 1991, a região é reconhecida como Reserva da Biosfera da UNESCO."

O hotel Sonnentau é administrado pelas famílias Goldbach e Karlein. Conforme a declaração na página deles, "Não só os nossos hóspedes, mas nós próprios muitas vezes sentimos uma conexão incrível com o céu aqui, na encosta sul de Fladungen, de uma beleza estonteante. Não há muitos alojamentos na Alemanha onde se possa estar tão perto das estrelas! Queremos que vivencie isto com todos os seus sentidos – por isso, o bem-estar e o spa, o prazer consciente, a saúde e as experiências na natureza são prioridades para nós."

Os carros antigos se agrupam no estacionamento do Wohlfühlhotel Sonnentau — Restaurante & Café.
Os carros antigos se agrupam no estacionamento do Wohlfühlhotel Sonnentau — Restaurante & Café. 

Visão panorâmica da singela cidade de Fladungen na Alemanha, com os MPs em destaque.
Visão panorâmica da singela cidade de Fladungen na Alemanha, com os MPs em destaque.

Como sempre, quem nos ajudou a registrar este evento envolvendo o MP Lafer na Alemanha, foi o Miro Dudek. Embora não tenha participado da reunião, pois seu MP Lafer 1977 precisa ter o chicote elétrico reformado, ele nos encaminhou as imagens que selecionamos e editamos para compartilhar com você. Portanto, vale sempre o agradecimento, que nesta ocasião se estende para Erhard Rübsam, designado organizador do evento neste ano. Empresário na cidade de Fulda, Rübsam teve seu primeiro MP Lafer ainda na década de 1980. Em 2021 ele voltou a ser proprietário de um MP, incorporado em sua coleção de carros antigos.

Dentre as atrações de 2026, os laferistas visitaram a Noah’s Segel, uma torre de observação localizada no Ellenbogen, uma elevação de aproximadamente 813 metros, próxima a Oberweid e Frankenheim. O próprio nome Noah's Segel significa “Vela de Noé”, numa referência ao formato da estrutura. A torre tem cerca de 22 metros de altura e oferece uma vista panorâmica da paisagem da Rhön, embora se localize na Turíngia.

Dois MPs diante da Noah’s Segel, no Ellenbogen, região de Rhön, Turíngia, Alemanha.
Dois MPs diante da Noah’s Segel, no Ellenbogen, região de Rhön, Turíngia, Alemanha.

A torre de observação tem aproximadamente 22 metros de altura, deixando os MPs pequenos na imagem.
A torre de observação tem aproximadamente 22 metros de altura, deixando os MPs pequenos na imagem.

Outro ponto turístico visitado foi o Radom, no topo da Wasserkuppe, em Hesse. O enorme domo esférico é uma antiga cúpula de radar. Atualmente, o local funciona como espaço cultural e plataforma de observação panorâmica de 360°. A passarela que circunda a cúpula é considerada a plataforma de observação mais alta de Hesse.

O Radom foi originalmente uma instalação militar, ligada à vigilância durante a Guerra Fria. Hoje, o local abriga inclusive uma exposição permanente sobre a importância estratégica da Wasserkuppe naquele período. A Wasserkuppe, por sua vez,  tem 950 metros de altitude e é o ponto culminante de Hesse e de toda a Rhön. A região fica no encontro dos territórios de Hesse, Baviera e Turíngia.

Os MPs em Wasserkuppe, diante do Radom, antiga cúpula de radar e atual mirante panorâmico, na região da Rhön, Hesse, Alemanha.
Os MPs em Wasserkuppe, diante do Radom, antiga cúpula de radar e atual mirante panorâmico, na região da Rhön, Hesse, Alemanha.

Assim, a cada ano dos participantes dos encontros do MP Lafer Germany conhecem um lugar diferente, não apenas na Alemanha como em países vizinhos que incluem a França, a Bélgica e os Paises Baixos. Ludvig Stolz nos lembra que o clube, apesar de ser informal, é aberto para todos os proprietários de MP Lafer na Europa. Seguem os dados para contato:

ludwigstolz@t-online.de

mp-lafer-germany@t-online.de

www.mp-lafer-germany.de

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EMVA 2026 homenageia os carros brasileiros fora de série.
EMVA 2026 homenageia os carros brasileiros fora de série.

Há alguns dias recebemos o contato do André Cavalcanti, curador do Museu Garagem do Automóvel, que fica em Carmo da Mata, Minas Gerais, e possui mais de 150 automóveis clássicos em ótimo estado de funcionamento, conservação e originalidade. Ele também está na organização do EMVA 2026, o Encontro Mineiro de Veículos Antigos, que será realizado entre os dias 14 e 16 de agosto, na cidade de São Lourenço.

A temática do evento será centrada nos clássicos brasileiros fora de série com mais de 30 anos de fabricação, como Puma, MP Lafer, Miura, Bianco, Santa Matilde, Farus, Concorde, Avallone e outros. A intenção da organização, com aval da Prefeitura Municipal e apoio da Garage Brazil, que levará parte de seu acervo para a exposição, é reunir carros e personalidades relacionadas com um dos períodos mais criativos da indústria automobilística brasileira, incluindo criadores dos modelos, funcionários das fábricas, especialistas nas marcas e escritores.

Portanto, não será apenas uma exposição estática de automóveis, mas um evento cultural que inclui um rally de regularidade a ser disputado no sábado.

São Lourenço, no sul de Minas Gerais, é uma das principais estâncias hidrominerais do Brasil. Situada na Serra da Mantiqueira, possui pouco menos de 45 mil habitantes e se destaca pelo turismo voltado ao bem-estar, à saúde e ao contato com a natureza. O clima é tropical de altitude, com verões chuvosos e invernos secos e frios, em que as temperaturas podem chegar a zero grau.

A história da cidade começa no século XIX, quando foram descobertas as propriedades medicinais de suas águas. Em 1890, a Companhia de Águas Minerais São Lourenço começou a engarrafar água mineral em escala industrial, tornando-se pioneira na América Latina. O município foi oficialmente fundado em 1927.

O grande símbolo da cidade é o Parque das Águas, onde diversas fontes oferecem águas com diferentes propriedades terapêuticas. Além disso, São Lourenço oferece passeios de pedalinho, teleférico com vista panorâmica, trilhas pela Serra da Mantiqueira e até voos de balão, que atraem visitantes em busca de experiências únicas.

A economia local gira em torno do turismo e da cultura, com destaque para o Festival Internacional de Corais, o Festival da Cachaça, o Festival de Inverno, exposições de orquídeas e encontros de balonismo. A festa do padroeiro São Lourenço, celebrada em agosto, congrega música, gastronomia e tradições religiosas.

São Lourenço fica distante aproximadamente 378 km de Belo Horizonte, 233 km de Juiz de Fora, 268 km do Rio de Janeiro, 286 km de São Paulo e 206 km de São José dos Campos. Ou seja, proprietários de veículos antigos fora de série do interior de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, especialmente os moradores do Vale do Paraíba, estão a apenas algumas horas de volante, em boas estradas, rumo ao evento a ser realizado na Praça João Lage.

Para mais informações, entre em contato, via WhatsApp, com os organizadores:

Atila - (35) 98813-9400

Theodoro - (35) 98862-1463

André Cavalcanti / Pedro Cândido - (31) 99306-7004

Cartaz promocional do EMVA 2026 em São Lourenço (MG).
Cartaz promocional do EMVA 2026 em São Lourenço (MG).

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O Lafer LL 001 foi apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo em 1976.
O Lafer LL 001 foi apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo em 1976.

Produzido em apenas sete exemplares entre 1976 e 1979, o Lafer LL é um dos veículos mais exclusivos já concebidos no Brasil. Com carroceria em fibra de vidro, mecânica do Opala, interior inspirado nos sofisticados móveis da Lafer e um painel digital revolucionário para a época, o coupê de luxo foi um projeto visionário que reuniu design arrojado, tecnologia de vanguarda e espírito empreendedor. No 11º Encontro Brasileiro de Autos Antigos de Águas de Lindóia (EBAA), entusiastas do modelo se reuniram para resgatar a história quase arqueológica desse automóvel.

Por Jean Tosetto

Minha vidinha estava bem resolvida por volta de 2010. Trabalhava como arquiteto numa cidade pequena que estava crescendo rapidamente. Não faltava projeto para fazer. “Então é isso?” – Pensei. “A vida não pode ser apenas isso: trabalhar, ganhar dinheiro e poupar um pouco para a aposentadoria”.

Daí que arranjei sarna para me coçar. A culpa era do bloco de mármore ocupando espaço na minha cabeça e pesando na minha memória. Eram quase dez anos como responsável pelo site mplafer.net, acumulando conhecimentos esparsos que precisavam ser reunidos e concatenados num livro que contasse a história do MP Lafer. Comecei a trabalhar em mais um projeto. Não num projeto de arquitetura, mas num projeto editorial, com as durezas e os desafios para um marinheiro de primeira viagem.

Um dos capítulos mais difíceis de escrever foi justamente sobre o Lafer LL. Das oito carrocerias construídas, sabia que talvez cinco ou seis estavam finalizadas sobre o conjunto mecânico do GM Opala 4.1 de seis cilindros. Consegui o contato do proprietário de um dos protótipos, que morava no interior do Paraná. Escrevi um belo e-mail para ele, solicitando permissão para viajar mais de 600 km até sua cidade, para fotografar seu carro, posto que as imagens disponíveis até então eram poucas e estavam protegidas por direitos autorais inacessíveis. A resposta do sujeito foi lacônica. Um balde de água fria na minha vontade de fazer algo bem feito e caprichado.

A silhueta do Lafer LL convida para a direção esportiva.
A silhueta do Lafer LL convida para a direção esportiva.

Cavalheiros que se ajudam

Felizmente, recebi ajuda do próprio Percival Lafer, idealizador do modelo, que cedeu algumas fotografias de época, inclusive das cambotas de madeira compensada que deram suporte para a aplicação de argila, resultando na fonte para o molde das carrocerias de fibra de vidro.

Outro amigo que ajudou bastante foi o Flávio Fernandes, engenheiro de longa carreira por empresas como VW e Ford, que começou sua trajetória justamente na Lafer, estagiando na equipe coordenada pelo professor Rigoberto Soler da FEI (Faculdade de Engenharia Industrial, de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo). Entrevistei o Flávio na varanda do Hotel Monte Real, durante uma edição do encontro de carros antigos de Águas de Lindóia. Ele contou coisas interessantes sobre o carro, fabricado artesanalmente entre 1976 e 1978.

O conjunto de faróis e grade destacada do Lafer LL 001 de 1976.
O conjunto de faróis e grade destacada do Lafer LL 001 de 1976.

O Lafer LL 007, de 1978, preserva o motor GM de seis cilindros, que também equipava o Chevrolet Opala.
O Lafer LL 007, de 1978, preserva o motor GM de seis cilindros, que também equipava o Chevrolet Opala.

Com o livro pronto, começou uma peregrinação. Bati na porta de várias editoras. Nenhuma fechou a porta na minha cara, pois simplesmente nenhuma a abriu para saber do que se tratava. Restou atuar como editor independente, providenciando tudo que uma editora constituída está habituada a fazer, inclusive contratar a gráfica.

O jornalista Flávio Gomes compartilhou uma nota que eu havia publicado sobre o livro do MP Lafer, que estaria no prelo. Foi o suficiente para o Horacio Zabala, consultor da Gráfica Gandrei, de Indaial em Santa Catarina, entrar em contato. Rapidamente chegamos num acordo para imprimir o livro em novembro de 2012, exatamente 40 anos após a apresentação do primeiro protótipo do MP Lafer no Salão do Automóvel de São Paulo.

Foram dias de luzes. No começo de 2013 o Zabala fundou a Revista MotorMachine, que circulou em algumas edições bimestrais na Região Sul e São Paulo. Fui convidado para colaborar com a publicação, de forma voluntária. O senso de gratidão se somou com o antigo (e não revelado) desejo de escrever sobre carros em mídia impressa.

No fim daquele ano passei um dia diferente na zona rural de Atibaia, no interior de São Paulo, amoitado sobre um barranco numa estrada vicinal de terra, para fotografar a última etapa do Campeonato Brasileiro de Rally de Velocidade. O Zabala também estava lá, na comitiva do piloto catarinense Toninho Genoin e do navegador Sidinei Broering. Na ocasião, um pneu estourado tirou as chances de título na categoria 4x2, mas a dupla vice-campeã nos recebeu no motorhome para almoçarmos um arroz carreteiro para lá de saboroso. O relato foi publicado na sexta edição da revista, já em janeiro de 2014.

As lanternas traseiras do Lafer LL 001 foram modificadas com peças oriundas do Ford Del Rey.
As lanternas traseiras do Lafer LL 001 foram modificadas com peças oriundas do Ford Del Rey.

O conjunto traseiro do Lafer LL 007 permanece original.
O conjunto traseiro do Lafer LL 007 permanece original.

A placa traseira do Lafer LL 007 é protegida por uma tampa transparente de acrílico.
A placa traseira do Lafer LL 007 é protegida por uma tampa transparente de acrílico.

E a poupança Bamerindus?

Então, avancemos doze anos para demonstrar como esse mundo é pequeno. Em 2026 fui convidado pelo Ricardo Luna, do Clube do Carro Antigo, para gravar um podcast sobre os 50 anos do Lafer LL, durante o Encontro Brasileiro de Autos Antigos em Águas de Lindóia. A mesa seria dividida com o Carlos Castilho, mediador, Juan Dierckx, autor de livros sobre a Puma Veículos e o VW SP2, e Flávio Fernandes, o mesmo que me ajudou a escrever sobre o Lafer LL.

O engenheiro, agora aposentado, encontrou uma carroceria do Lafer LL prestes a ser desmantelada e conseguiu resgatá-la. Seu objetivo é completar a construção daquele que poderá ser o Lafer LL 008. Porém, para marcar o meio século do lançamento do primeiro protótipo do modelo, ele conseguiu, junto aos organizadores do evento de Águas de Lindóia, um espaço de destaque na exposição.

Para tanto, Fernandes passou semanas preparando a carroceria para o grande encontro. Ele e sua equipe adesivaram algumas partes do conjunto, para simular os faróis, lanternas e a grade frontal do veículo, usando superfícies de policarbonato escuro no lugar dos vidros das janelas e do para-brisa. Ele também convenceu um proprietário de dois protótipos do Lafer LL (o 001 e o 007) a levar os carros de Santa Catarina para o interior paulista. Seu nome? Toninho Genoin.

A carroceria do Lafer LL 008 em destaque, ladeada pelos carros do Toninho Genoin, em Águas de Lindóia.
A carroceria do Lafer LL 008 em destaque, ladeada pelos carros do Toninho Genoin, em Águas de Lindóia.

Assim que cheguei em Águas de Lindóia no dia 05 de junho, fui direto ao local onde, pela primeira vez, estariam reunidas três carrocerias do Lafer LL, das quais, duas estavam motorizadas. Logo avistei o Toninho tirando as capas de proteção de seus carros. Ele disse que havia os comprado do Alcido Reuter, de Curitiba, capital do Paraná.

Naquele momento, apontei para um MP Lafer prateado de seis rodas (quatro nas pontas dos eixos e duas sobressalentes nos paralamas), que teria sido o único exemplar saído assim da fábrica de São Bernardo do Campo, em 1985. Informei que, por coincidência, o carro também havia sido comprado do Reuter, por parte do Reinaldo Keller, de Socorro, cidade vizinha. Então, o próprio Keller se aproximou da gente. Apresentei os novos amigos e segui para o compromisso com o podcast.

O MP Lafer 1985 de seis rodas do Reinaldo Keller.
O MP Lafer 1985 de seis rodas do Reinaldo Keller.

Toninho Genoin e Reinaldo Keller diante do Lafer LL 007.
Toninho Genoin e Reinaldo Keller diante do Lafer LL 007.

Não tenho como reproduzir mais de uma hora e meia de conversa neste espaço. Mas posso compartilhar uma síntese do programa, que você pode assistir na íntegra, no canal do Clube do Carro Antigo no YouTube.

De móveis a automóveis: a história do Lafer LL

A Lafer tem raízes centenárias. Tudo começou em 1927, quando o imigrante polonês Bension Laufer fundou a Casa Lafer, uma loja de móveis em São Paulo. Com habilidade comercial, ele prosperou e educou quatro filhos. O caçula, Percival, formou-se em arquitetura pelo Mackenzie (pois não havia curso de desenho industrial à época) e alimentava desde a infância dois amores: o design de móveis e os automóveis.

Com o falecimento precoce do pai, os filhos uniram forças e deram um salto estratégico: passaram a projetar e fabricar os próprios móveis, em vez de apenas revendê-los. O crescimento foi vertiginoso. Nos anos 1960, a empresa embarcou no programa governamental de exportações (sob o slogan “exportar é o que importa”) e conquistou mercados competitivos como Dinamarca, Suécia, Alemanha e Itália. O nome MP Lafer — Móveis Patenteados Lafer — refletia a preocupação de registrar as criações para protegê-las de cópias.

O passo que abriria as portas para o setor automotivo veio de um contrato improvável: o orelhão. A Lafer adquiriu equipamentos para trabalhar com fibra de vidro e desenvolveu o modelo original da cabine telefônica da Telesp, concebido pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. O desafio de executar aquela forma tão curva foi resolvido com a criatividade: de Antonio De Mitry, funcionário da empresa, que usou um balão de aniversário como molde. O resultado foi um contrato milionário, que pavimentou a entrada da Lafer no mercado de automóveis.

O Lafer LL 001 conta com estofamento original em couro, com o perfume de uma máquina do tempo.
O Lafer LL 001 conta com estofamento original em couro, com o perfume de uma máquina do tempo.

O acabamento das portas do Lafer LL 001 é rico em madeira e couro, conforme o padrão da empresa na época.
O acabamento das portas do Lafer LL 001 é rico em madeira e couro, conforme o padrão da empresa na época.

O nascimento do MP Lafer e do LL

O veículo MP Lafer não foi um acidente. Foi uma diversificação planejada, impulsionada pela paixão de Percival por automóveis. De Mitry montou uma equipe de artesãos, mecânicos e marceneiros para elaborar os primeiros moldes, baseados no MG TD inglês de 1952. Em 28 dias, construíram o primeiro protótipo, apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo em 1972. Apesar do estande modesto, o carro roubou a cena. A produção oficial começou em 1974, e o próximo passo lógico era um modelo maior. Assim nasceu o projeto do Lafer LL.

Muito se comenta que o LL seria uma cópia do Mercedes SLC. Não é. O design do carro foi definido pelo método clássico do clay, modelado em argila para encontrar a forma final, absorvendo o melhor do design europeu da época. O carro lembra o Mercedes porque esse era o veículo referencial do período, mas as influências são múltiplas. O Lafer LL não copiou, mas incorporou um arquétipo. Assim como as SUVs de hoje são todas parecidas porque seguem uma forma comum, o LL expressava o espírito do tempo — o Zeitgeist — dos GTs europeus dos anos 1970. E ao exterior refinado, Percival somou o diferencial que a Lafer dominava como ninguém: o interior. Os bancos em couro e o acabamento em madeira nobre remetiam diretamente ao vocabulário dos móveis Lafer. Sentar no LL era como estar num sofá da sala.

O interior do Lafer LL 007 foi modificado com um volante convencional, bancos revestidos em courvin e painel com instrumentos analógicos no lugar dos mostradores digitais.
O interior do Lafer LL 007 foi modificado com um volante convencional, bancos revestidos em courvin e painel com instrumentos analógicos no lugar dos mostradores digitais.

Vanguarda tecnológica cinquenta anos atrás

O Lafer LL foi pioneiro também do ponto de vista tecnológico. Em 1976, o carro apresentava um painel digital, algo inconcebível para a época. Como os equipamentos não existiam no mercado, foram fabricados dentro da própria Lafer. No lugar de instrumentos analógicos convencionais, lâmpadas acendiam progressivamente no centro do volante: verde para indicar progresso, vermelho para alertar sobre rotações perigosas. Para quem precisava de valores numéricos exatos, havia uma televisão de tubo de 17 polegadas atrás da alavanca do câmbio: o bisavô das telas que hoje equipam os automóveis.

Outros detalhes revelavam o mesmo espírito inventivo. A fiação elétrica, o que hoje chamamos de chicote, era produzida artesanalmente em bancadas de 15 a 20 metros, fio a fio, cor a cor, unida com adesivo industrial. O para-choque dianteiro avançava 15 centímetros a partir de 60 km/h graças a um sistema hidráulico, absorvendo impactos. Cada carro saía da fábrica com uma placa dourada no painel, gravada com o número do veículo e o nome do primeiro proprietário.

O volante do Lafer LL 001 ainda é original, mas os mostradores digitais estão desativados. Instrumentos analógicos ocupam o lugar do monitor de 17 polegadas perto da alavanca de marchas.
O volante do Lafer LL 001 ainda é original, mas os mostradores digitais estão desativados. Instrumentos analógicos ocupam o lugar do monitor de 17 polegadas perto da alavanca de marchas.

O desenvolvimento foi igualmente artesanal nos testes. Sem dummies de ergonomia, usavam pessoas reais para avaliar posicionamento e conforto. Para medir a velocidade máxima (o motor era o 250 da linha GM, o mesmo do Opala), a equipe escolheu uma rodovia com posto policial equipado com cronômetro. Os pilotos de testes passavam a 180, 185 km/h; um policial anotava o tempo e, no posto seguinte, outro aplicava a multa. A taxa era irrisória. Os dados, preciosos.

As limitações e o fim de uma era

A complexidade tecnológica do LL cobrava seu preço. O painel, desenvolvido por dois ou três engenheiros, deveria ser de manutenção exclusiva da fábrica, pois qualquer proprietário que levasse o carro a um eletricista comum arriscava queimar metade dos instrumentos. A Lafer garantia a manutenção dos exemplares, mas a fragilidade era estrutural. Com o tempo, os proprietários foram substituindo componentes: painéis, faróis, grades, lanternas. O para-choque hidráulico tornou-se uma dor de cabeça e quase nenhum exemplar o mantém funcionando até hoje.

Detalhe do para-choque traseiro do Lafer LL 007.
Detalhe do para-choque traseiro do Lafer LL 007.

Financeiramente, o LL foi um prejuízo. Saiu do papel porque a Lafer tinha alta rentabilidade em seu negócio principal: os móveis. Se Percival desistiu do Lafer LL, ele seguiu acreditando no projeto do MP Lafer até 1988, mesmo diante da crise do petróleo de 1979 e da hiperinflação dos anos 1980, contrariando consultores. A empresa encerrou as atividades apenas em 2022. Resistiu tanto tempo graças às patentes dos móveis. Quando elas começaram a vencer, fabricantes chineses já tinham cópias prontas para assumir os contratos de exportação aos europeus. O modelo de negócio chegou ao fim.

Um legado maior do que os números

O Lafer LL é a prova de que o Brasil tem criatividade e o que os franceses chamam de savoir-faire — a capacidade de fazer acontecer. A dificuldade, histórica, vem depois: na gestão de longo prazo, na escala, na perenidade. E aí o problema raramente é o empresário. É o sistema. O ambiente tributário e regulatório brasileiro não contribui com quem começa pequeno e quer empreender. A Lafer surfou no momento em que o país precisava gerar divisas e a proibição de importar automóveis favorecia iniciativas como o LL, o Santa Matilde e o Miura. Esses empresários não eram amigos do poder. Eram teimosos.

O carro era de fibra de vidro. Mas as pessoas que o fabricavam também eram de fibra.

As rodas do Lafer LL foram projetadas exclusivamente para o modelo e são tão raras quanto os próprios carros.
As rodas do Lafer LL foram projetadas exclusivamente para o modelo e são tão raras quanto os próprios carros.

O depoimento de quem dirige dois Lafer LL

Quando saí do estúdio do podcast, montado no gramado da Praça Adhemar de Barros, bem ao lado da exposição tripla do Lafer LL, o Toninho Genoin e o Reinaldo Keller já não estavam mais por perto. Após retornar para minha cidade, fiquei sabendo que ambos tiveram seus carros premiados na grande mostra que, dizem, atraiu um público de 500 mil pessoas num fim de semana prolongado. Um reconhecimento mais do que merecido para ambos.

O tanque de combustível do Lafer LL fica entre o banco dos passageiros e o bagageiro. O abastecimento é feito pela coluna C.
O tanque de combustível do Lafer LL fica entre o banco dos passageiros e o bagageiro. O abastecimento é feito pela coluna C.

Em contato com o Genoin, pedi para ele registrar um depoimento sobre como é dirigir um Lafer LL, algo que pouquíssimas pessoas neste pequeno mundo tiveram o privilégio de fazer. Segue o relato dele especialmente para os amigos do mplafer.net:

“Jean, você sabe que eu piloto até avião pegando fogo. Então, o que posso dizer sobre o Lafer LL é que ele é um carro sensacional. O 001, com aquele interior todo original de época, tem bancos que parecem um sofá — de um conforto extraordinário. Motorização, suspensão, equilíbrio: é fantástico de guiar. Motor forte, carroceria leve, tamanho compacto. Uma nave dos anos 1970.

Há pouco tempo dei uma volta com o 007 e, numa curva molhada, acelerei sem querer demais. Tive de lembrar dos tempos de Rally de Velocidade — o carro veio de lado, puxei para o outro e ele se endireitou em linha. Emocionante, como só um carro desse pode proporcionar. Aliás, a nossa equipe de Rally tinha um lema: ‘Na dúvida... Acelera!!!’. Chegamos a conquistar dois títulos brasileiros de Rally de Velocidade e três vice-campeonatos, sempre sem patrocínio, mas com muita determinação. Esses títulos me renderam dois Capacetes de Ouro — o Oscar do automobilismo brasileiro.

Sobre os carros em si: temos o primeiro e o último Lafer LL fabricados. A fábrica encerrou a produção com sete unidades, e o Flávio encontrou recentemente a carroceria que seria o oitavo exemplar. Possuir o 001 e o 007 é ter nas mãos a abertura e o fechamento de uma história única do automobilismo nacional.

O 001 passou recentemente por uma revisão com o Mario, preparador esportivo especializado em Opala de terra. Ao abrir os freios, ele ficou perplexo: após mais de trinta anos trabalhando com Opalas, nunca tinha visto um disco, uma pinça e uma pastilha de freio com a marca GM originais de fábrica. Uma raridade dentro de outra raridade.

Percival foi um homem de visão extraordinária. Um carro daquele porte, com para-choque retrátil, concebido nos anos 1970, quando as opções eram poucas — isso diz tudo. Dirigir um Lafer LL é estar na estrada e, ao mesmo tempo, no sofá de casa. Tenho muito orgulho de ser guardião dessas duas joias e fico feliz que a presença delas no EBAA 2026 tenha marcado história. O LL é um carro que, como dizia a vinheta, não existiu — e, ainda assim, está aí, vivo, presente e inesquecível.”

Marcos, Toninho e Elaine Genoin: zeladores da trajetória do Lafer LL.
Marcos, Toninho e Elaine Genoin: zeladores da trajetória do Lafer LL.

A história continua

E assim terminamos mais uma tentativa de honrar a memória de um projeto automobilístico que antecipou tendências que se confirmaram apenas anos ou décadas depois. Obviamente, muitas pontas ainda continuam soltas na história do Lafer LL, ao passo que outras se ataram, envolvendo pessoas repletas de entusiasmo. É justamente com entusiasmo que as próximas páginas sobre o Lafer de luxo deverão ser escritas, posto que se este mundo é pequeno e a vida é curta, não há razão para desperdiçar o tempo e o espaço com decisões estritamente racionais. É justamente por dar abertura para as emoções, que arquitetos de formação cartesiana escrevem livros e concebem automóveis fora-de-série.

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