Aventura em terras bolivarianas

Enquanto o MP Lafer do Delmiro Holanda aguardava o início de sua restauração, seu dono empreendia uma longa viagem que cruzou a linha do Equador.
Enquanto o MP Lafer do Delmiro Holanda aguardava o início de sua restauração, seu dono empreendia uma longa viagem que cruzou a linha do Equador.

Amigos do site mplafer.net, vejam que belo relato de viagem recebemos de Delmiro Holanda, que recentemente adquiriu um MP Lafer em Manaus, no Amazonas. Leiam o texto recebido em 03 de fevereiro de 2015:

"Olá meu amigo,

Chegamos ontem a noite de nossa aventura pela Venezuela, tivemos uns probleminhas e só pudemos ir até a Venezuela, na fronteira com a Colômbia.

A escrita não é meu forte, mas vou tentar fazer um resumo de nossa aventura.

Nossa equipe estava em dois carros: eu em uma Hyundai Tucson, e meu irmão em uma SW4.

Já conhecia a parte norte e nordeste do pais, então resolvemos ir para o leste, onde se encontra a capital Caracas, indo em direção a uma cidade dentro do parque de Morrocoy, uma cidade litorânea onde tem várias ilhas (cayos), chamada Chichiriviche.

A Venezuela esta se acabando. Tudo abandonado, com muitos problemas sócio-políticos - muito ruim para o pais. Graças a Deus não nos aconteceu nada.

É um pais com um litoral muito bonito. Lindas praias, passamos por várias cidades, umas muito bonitas e outras abandonadas.

A capital Caracas tem uma semelhança geográfica grande com o Rio de Janeiro, inclusive relacionada às favelas.

Estou te mandando as fotos por onde passei, desde o início em Manaus até Chichiriviche, onde ficamos dois dias - um lugar belo, com lindas praias.

Foram mais de 2.700 quilômetros para ida e mais 2.700 quilômetros para volta, mas valeu!

Delmiro"


Entre Manaus, a capital do Amazonas, até a fronteira com a Venezuela, são 994 km percorridos pela BR 174, que passa também por Boa Vista, em Roraima.
Entre Manaus, a capital do Amazonas, até a fronteira com a Venezuela, são 994 km percorridos pela BR 174, que passa também por Boa Vista, em Roraima.

A BR 174 possui um trecho de aproximadamente 20 km em terra quase intransitável, por causa de uma reserva indígena.
A BR 174 possui um trecho de aproximadamente 20 km em terra quase intransitável, por causa de uma reserva indígena.

Fronteira com a Venezuela, na região de Santa Elena de Uairén.
Fronteira com a Venezuela, na região de Santa Elena de Uairén.

Na alfândega, problemas burocráticos foram solucionados.
Na alfândega, problemas burocráticos foram solucionados.

Ingressando na grande savana venezuelana.
Ingressando na grande savana venezuelana.

Um ótimo lugar para fazer trilhas com motocicletas.
Um ótimo lugar para fazer trilhas com motocicletas.

Perto de Porto Darz: não é só em São Paulo que existem pontes estaiadas.
Perto de Porto Darz: não é só em São Paulo que existem pontes estaiadas.

Favelas do subúrbio de Caracas, a capital da Venezuela.
Favelas do subúrbio de Caracas, a capital da Venezuela.

A cor amarela, da bandeira venezuelana, está presente em várias obras viárias.
A cor amarela, da bandeira venezuelana, está presente em várias obras viárias.

A bandeira da Venezuela, por sua vez, é vista em vários lugares e incorpora as modificações idealizadas pelo finado presidente Chaves.
A bandeira da Venezuela, por sua vez, é vista em vários lugares e incorpora as modificações idealizadas pelo finado presidente Chaves.

A pequena comitiva se perdeu no centro de Caracas, antes de rumar para o litoral do país.
A pequena comitiva se perdeu no centro de Caracas, antes de rumar para o litoral do país.

As praias visitadas pertenciam o Parque Morrocoy entre as cidades de Tucacas e Chichiriviche.
As praias visitadas pertenciam o Parque Morrocoy entre as cidades de Tucacas e
Chichiriviche.

Lanchas como essa podem ser alugadas por R$ 400,00 e incluem o piloto, a gasolina a 3 centavos de real o litro, e o livre destino.
Lanchas como essa podem ser alugadas por R$ 400,00 e incluem o piloto, a gasolina a 3 centavos de real o litro, e o livre destino.

O casal Delmiro e Angélica.
O casal Delmiro e Angélica.

Tomaram parte neste viagem: Delmiro, Angelica, Adriano, Adriano Filho, Renata, Tayna e Andressa.
Tomaram parte neste viagem: Delmiro, Angelica, Adriano, Adriano Filho, Renata, Tayna e Andressa. 

Galeria 2015: Holanda

IV Grande Prêmio Argentino de Baquets

Baquet argentino: um carro antigo despido ao essencial para disputar uma prova de longa duração.
Baquet: um carro antigo despido ao essencial para disputar uma prova de longa duração.

Em homenagem ao piloto Juan Manuel Fangio, 32 Baquets com pilotos e navegadores percorreram 1.800 quilômetros entre Buenos Aires e San Martim De Los Andes, durante o mês de novembro de 2014. Apenas dois carros não completaram a prova.

Fotos: Fabian Gallucci - Texto: Orlando Bongiardino - Tradução: Jean Tosetto *

Pelas veias dos argentinos corre combustível, azeite e algo de sangue. A este povo são familiares os nomes de Nuvolari, Farina, Varzi, Castellotti, Musso, Fagioli, Villoressi. A Argentina teve um pentacampeão do mundo na Fórmula 1 que considerava Senna seu preferido. Isso está em seu DNA. Ferrari, Maserati, Lamborghini, Alfa Romeo, Pininfarina e Abarth são nomes com os quais os argentinos cresceram.

Há quase 100 anos, nos povoados do interior, os valentes garotos se perguntavam num sábado à noite que coisa poderiam fazer por diversão, que não tinham feito ainda. Sair a correr com o carro do papai, ou do tio, foi o resultado deste “brainstorming”. E lá foram eles, traçando um circuito imaginário nos campos, por caminhos de terra.

Os campos platenses onde se moldaram grandes pilotos.
Os campos platenses onde se moldaram grandes pilotos.

Logo se deram conta de que, tirando o peso desnecessário dos carros, estes corriam mais. A competição era grande. Assim começaram pelos para-choques, logo eliminaram também os para-lamas e por fim desmontaram a carroceria, preservando apenas os acentos e o tanque de gasolina.

Sem querer inventaram a Baquet, o primeiro tipo de carros de corrida na Argentina. Correram cada vez mais, se mataram cada vez mais, e logo foram proibidos de correr de Baquet por quase uma década. Porém, a semente havia germinado.

Os estepes pendurados no carro são muito úteis em trajetos prolongados.
Os estepes pendurados no carro são muito úteis em trajetos prolongados.

Correndo sobre o cascalho com tração traseira para controlar as derrapagens.
Correndo sobre o cascalho com tração traseira para controlar as derrapagens.

A categoria seguinte - o Turismo de Carretera, ou simplesmente TC - é praticada até hoje em dia na Argentina, sendo a que mais público concentra depois do futebol.

Há apenas alguns anos, ocorreu de alguém aproveitar os ferros velhos, que certa vez havia comprado por via das dúvidas, para compor uma réplica daquelas Baquets.

O resultado foi um veículo divertido, alegre e fácil de fazer. Brotou novamente aquele DNA de entusiasmo e a novidade se espalhou como um vírus. Havia muitas Baquets, mas não havia onde usa-las.

Ford, Bugatti, Chevrolet: não importa a marca para compor um Baquet.
Ford, Bugatti, Chevrolet: não importa a marca para compor uma Baquet.

Não existe Baquet feita para ficar na garagem. Viajar é uma premissa.
Não existe Baquet feita para ficar na garagem. Viajar é uma premissa.

O Clube Amigos de Automóveis Antigos tomou a frente, inventou e registrou o “Grande Prêmio Argentino de Baquets” e começou a trabalhar em saídas anuais para seus sócios. Após três exitosos intentos, a entidade considerou que era hora de fazer um evento aberto e programou seu IV GP, a Edição Transpatagônica.

Partindo de Buenos Aires, esta edição percorreu a planície dos Pampas, o deserto patagônico e as montanhas dos contrafortes da Cordilheira dos Andes, repleta de lagos.

Cenário idílico para uma reunião de Baquets e entusiastas.
Cenário idílico para uma reunião de Baquets e entusiastas.

Quando o leito de um riacho se torna também um leito carroçável.
Quando o leito de um riacho se torna também um leito carroçável.

Dormiu-se na vivenda de um oásis no meio do deserto. Atravessaram atoleiros e areais. Subiram as serras de Neuquén e desceram aos férteis vales frutícolas do Rio Negro, tomados pelo verde.

As máquinas se quebraram e se concertaram no caminho - DNA das gerações mecânicas, não cibernéticas. Juntas de cabeçote foram trocadas, rolamentos e correias foram recondicionados na base do improviso. Em cada lugarejo os habitantes se empolgavam para oferecer ajuda: uma garrafa de água mineral, uma oficina, uma tampa de distribuidores, um banho ou o que fosse preciso.

Pilotos e navegadores são mecânicos e rebocadores, uns dos outros.
Pilotos e navegadores são mecânicos e rebocadores, uns dos outros.

Para sair do atoleiro, só com um empurrão dos amigos.
Para sair do atoleiro, só com um empurrão dos amigos.

As tripulações se revestiram de lama e areia. Também se revestiram de amor por esta terra, tão diversa em sua paisagem e tão parelha em sua hospitalidade e amizade. O GP foi duro, mas o resultado foi supreendentemente além das mais otimistas expectativas dos organizadores.

Pilotos e navegadores esperam ansiosamente a edição de 2015. Os que não foram se culpam de não ter comparecido e esperam sentados para reparar a lacuna. Os que ainda não possuem uma Baquet procuram montar uma. O efeito expansivo do GP é extraordinário. Um jornalista alemão disse: “Incrível, nunca vi nada igual.” Um corredor suíço de rally exclamou: “Perfeito!” Um motorista austríaco e um tripulante alemão reconheceram ter participado de suas melhores experiências sobre rodas. Todos desejam voltar.

Lamaçais deixam carros, pilotos e navegadores impregnados de argentinidade.
Lamaçais deixam carros, pilotos e navegadores impregnados de argentinidade.

A melhor carne vermelha do mundo vem dos Pampas onde os bovinos veem Baquets passar.
A melhor carne vermelha do mundo vem dos Pampas onde os bovinos veem Baquets passar.

Os caminhos que foram escolhidos eram estradas vicinais, fora do asfalto e fora das rotas turísticas habituais. O interior do interior foi a palavra de ordem. A diversidade da paisagem e a extensão desse país asseguram muitos anos de destinos diferentes e igualmente interessantes.

O Farol do Fim do Mundo ao sul, a zona de influência Inca ao norte, a infinita Cordilheira dos Andes a oeste, a selva nativa e o Oceano Atlântico ao leste, são alguns destes destinos.

As Baquets fizeram a festa em pequenos povoados no interior profundo da Argentina.
As Baquets fizeram a festa em pequenos povoados no interior profundo da Argentina.

Um raro momento neste Grande Prêmio: um trecho asfaltado.
Um raro momento neste Grande Prêmio: um trecho asfaltado.

Havia motores de quatro, seis e oito cilindros. Porém, o motor que mais empurrou e impregnou de estilo este GP foi a solidariedade. D’Artagnan apontou um lema pertinente: “Um por todos e todos por um.” As fotografias são testemunhas desta solidariedade maravilhosa que imperou em cada dificuldade vencida com entusiasmo e bom humor.

Os argentinos, que são meio italianos e meio espanhóis, possuem uma habilidade extraordinária para complicar as coisas mais simples e faze-las de qualquer jeito. No entanto, desta vez, a força de vontade misturada com garra e coração resultaram num evento memorável. Os portenhos sabem que no próximo ano receberão muitas visitas do exterior e esperam que seu limitado grid seja suficiente para receber todos os amigos. Todos serão mais do que bem vindos.

Permanecer jovem é acreditar que o melhor ainda está por vir.
Permanecer jovem é acreditar que o melhor ainda está por vir.

Piloto alivia o peso do conjunto enquanto mecânico trabalha na suspensão do veículo.
Piloto alivia o peso do conjunto enquanto mecânico trabalha na suspensão do veículo.

Porque nas veias dos argentinos corre combustível, azeite e algo de sangue.

Visite: www.gpab.com.ar
RevistaMotorMachine.blogspot.com.br



  * Artigo publicado originalmente na Revista MotorMachine número 11, em janeiro de 2015.


O Editor Volante recomenda o livro do MP Lafer
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Coloque seu carro na estrada: Chevy 1941


Diário de bordo de Jean Tosetto * em 09 de agosto de 2014:

"Hoje acordei mais cedo do que o normal, para dar andamento em alguns assuntos do escritório. Não marquei atendimento algum pois há muitos dias já tinha combinado de pegar uma carona até Indaiatuba, no Chevy de um velho amigo.

Eis que de longe surge um rugido que vem aumentando. Minha esposa falou: "Pelo ronco do motor, o Dani está chegando". Ele veio com um sobrinho de apenas 14 anos, que não entende nada de carros e pelo jeito não sabe o que é rock. A gente começou a dar um jeito nisso. O garoto tem salvação.

Pegamos a estrada, conversando sobre o nada e prestando atenção em tudo. Fomos de boa, de banda, deixando todo mundo ultrapassar. Mas tinha gente que reduzia a marcha para tirar fotos do carrão.

Chegamos no recinto e fomos bem recebidos no extenso gramado, na frente de um ginásio. O cheiro dos espetinhos de linguiça assando na churrasqueira nos convidou para encher o bucho logo cedo, abancados numa mesinha de PVC sob a copa de um coqueiro.

O sistema de comunicação tocou "Perfect Strangers" do Deep Purple. "Aí garoto, se liga neste som que vai ser a trilha da sua juventude". Carro vai e carro chega, demos até entrevista para um programa de TV a cabo, onde contamos um pouquinho da história do Chevy e do site do MP Lafer.

O dia passou rápido. Na hora de ir embora veio o grande presente. Meu amigo me pediu para ir guiando o Hot pela Santos Dumont, Bandeirantes e Anhanguera. Só pistão pela frente e asfalto sendo devorado pela grade cromada do bicho. Então acelerei. Fiz o motor berrar, dado que foi feito pra isso.

Estaciono na calçada de casa e convido a turma para tomar um cappuccino, com receita secreta do mano aqui. Uma última olhada no carro e o contraste de luz e sombra, provocado pelo sol da tarde, rendeu a foto mais bonita do dia.

O Chevy Coupé Hot Rod 1941 descansa no por do sol.
O Chevy Coupé Hot Rod 1941 descansa no por do sol.

O garoto, tímido, não queria comer nada. Passei manteiga no pão pra ele, e mandei mergulhar no café, que ficaria bom pra caramba. Foi difícil, mas tiramos um sorriso de seu rosto. O cara encharcou o pão no café com leite e chocolate. Acho que ele vai lembrar do gosto disso por um bom tempo.

Foi um dia corriqueiro? Sim, com certeza. Mas se querem saber, foi um dia feliz, pois se a gente não consegue extrair felicidade de algo trivial, ela não vem sequer nas grandes datas e dias excepcionais. É preciso treinar para ser feliz, e praticar bastante.

E a historinha acaba aqui, pois a Renata acaba de me pedir para ir buscar o lanche favorito dela. No sábado, nada de feijão com arroz, e nada de louça pra lavar. É pizza ou sanduba. Câmbio e desligo."

Leia mais artigos da coluna "Editor Volante".
* Jean Tosetto é arquiteto desde 1999 e editor do site mplafer.net desde 2001. É também autor do livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” - lançado em 2012. 

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 Saiba mais sobre este Chevy 1941 Hot Rod na Revista MotorMachine número 09, publicada em agosto de 2014.

A professora que ensinou o escritor a ler

A professora Maria Mercedes e o aluno Jean Tosetto.
A professora Maria Mercedes e o aluno Jean Tosetto.

O pintor bateu na porta do escritório e me pediu para comprar uma lata de solvente e um galão de verniz, para terminar seu trabalho de quase três semanas em toda a parte externa da casa. Fui até a loja de tintas e o balconista me cumprimentou pelo nome pela primeira vez. Era a quarta ou quinta vez que voltara lá em poucos dias.

Ao pagar a conta no caixa reparei numa senhora que conversava com alguém mais jovem - provavelmente sua filha. Conhecia ela de algum lugar e outro funcionário da loja resolveu o enigma, ao dizer algo como: "Aqui está, Dona Mercedes".

- Você é professora? Fui seu aluno na primeira série!

Ao responder que sim, Mercedes se virou para a filha, confirmando que também se lembrava de mim, pois a jovem havia advertido que ela parasse com a mania de achar que todo mundo, na cidade, havia sido seu aluno.

- Seu aprendiz escreveu um livro. Faço questão de ofertar um exemplar para você.

A professora me perguntou sobre o que havia escrito. Respondi que era sobre a história de um carro antigo. Dei um cartão de visitas e a convidei para conhecer meu escritório, que fica junto de minha residência.

Naquela noite, antes de dormir, as memórias foram aflorando na mente. Voltei ao já distante ano de 1983, quando fui para a Escola Estadual Dr. Francisco de Araújo Mascarenhas, em Paulínia. Lembrei de meu estojo de madeira com tampa deslizante. Dentro dele havia um apontador redondo, alguns lápis de cor, uma borracha da marca Mercur, com a face estilizada de um homem, além da lapiseira Compactor vermelha, ponta grossa (daria minha Pentel 0.9 laranja para ter ela de volta).

Na pasta em formato de maleta eu carregava a cartilha, na qual cada capítulo equivalia a uma letra consoante, sempre combinada com as vogais. Havia também um caderno de brochura e o caderno de caligrafia. Além de aprender a ler e escrever, deveríamos também escrever com letra bonita - não importando se fosse em letra de forma ou letra de mão.

Lembrei também dos coleguinhas: Márcio, Leandro, Paulo, Marcelo... todos nós gostávamos da Simone, a menina mais linda da classe. Fazíamos fila para entrar na sala de aula e fila para receber a merenda no recreio. A fila começava com as garotas e dos mais baixos para os mais altos. Eu ficava quase no fim dela.

A professora Maria Mercedes era disciplinadora. Tinha uma régua de madeira que costumava batucar na carteira dos alunos que não prestavam atenção. Para passar de lição, na cartilha, todos tinham que ir na mesa dela fazer a leitura em voz alta. Era sempre uma ansiedade crescente até ela me chamar.

Confesso que tinha facilidade para aprender e isso teve o lado ruim, pois detestava fazer lição de casa. Certa vez a professora Mercedes escreveu um bilhete no meu caderno. Minha mãe teria que ler e assinar. Para evitar a bronca homérica eu mesmo assinei. Seria o crime perfeito se não fosse por um detalhe: assinei com a lapiseira e não com a caneta. Meus pais foram chamados na escola e a bronca homérica virou uma epopeia digna de Ulisses: só terminou perto do Natal.

O fato é que aprendi a ler e escrever. Tenho a professora Maria Mercedes num canto nobre de meu coração. No dia seguinte ela veio ao meu escritório. Ao folhear o livro "MP Lafer: a recriação de um ícone", ouviu de mim que não seria preciso gostar de carros antigos para apreciar a leitura. Ela me surpreendeu dizendo que teve um Fusca 1966 por mais de trinta anos e que só vendeu o carro pois estava ficando difícil encontrar peças de reposição.

Pedi para tirar uma foto e eternizar o momento. A mulher que me ensinou a ler e escrever ganhou um livro de minha autoria. Logicamente não sou um Ernest Hemingway, um Voltaire ou um Machado de Assis, mas acho que eles não tiveram o prazer de presentear a primeira professora.

Por Jean Tosetto

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O hall das legendas da Alfa Romeo

1938 - 8C 2900B Speciale tipo "Le Mans"
1938 - 8C 2900B Speciale tipo "Le Mans"
Grandes criações, vitórias, emoções, motores ícones e pontos de vista revolucionários permeiam os mais de 100 anos de história automotriz que a Alfa Romeo carrega. Este recanto da fama revive parte desta fascinante história composta por modelos emblemáticos com 100% de coração esportivo.

Texto: María Noel Sánchez | Tradução: Jean Tosetto
Imagens: Alfa Romeo Argentina

A Alfa Romeo desenvolveu um hotsite em honra às suas criações mais memoráveis. Poucos fabricantes automotores podem orgulhar-se de uma história tão extraordinária como a da automotriz italiana: única e fascinante, repleta de excelentes homens, de uma aventura esportiva constante que tem caracterizado anos de autos que formam parte do imaginário coletivo. Evolução técnica e engenharia que sempre marcaram a diferença. A seleção compartilhada se baseia em modelos emblemáticos que merecem ser recordados para sempre.


1925 - P2 Gran Premio

1925 - P2 Gran Premio
Desenhado por Vittorio Jano em 1924, guarda um capítulo a parte no que diz respeito às vitórias. Desde sua criação até 1930 ocupou o pódio em 14 Grandes Prêmios e eventos dos mais importantes, incluindo a Targa Florio. Foi um dos ícones da década e permitiu incorporar a coroa de láureas no escudo da Alfa Romeo. Em 1925 se coroou campeão mundial em Monza, nas mãos de Gastone Brilli Peri.


1930 - 6C 1750 Gran Sport

1930 - 6C 1750 Gran Sport
Derivado do 6C 1500, com motor e cilindrada superiores, o 6C 1750 coleciona um patamar de conquistas impressionante. Nas Mille Miglia de 1930, com Nuvolari e Guidotti (recorde de velocidade média: 100 Km/h) este Alfa se confirmou como rei da categoria Sport.


1932- Gran Premio Tipo B "P3"

1932- Gran Premio Tipo B "P3"
O P3, desenhado por Vittorio Jano, é o primeiro automóvel concebido desde o princípio como monoposto. Foi um projeto genial e inovador, com soluções técnicas avançadas, como a colocação da caixa de velocidades junto ao diferencial, sobre o eixo traseiro. Entre 1933 e 1935 o P3 se impõe em todos os principais Grandes Prêmios internacionais, guiado pelo talentoso Tazio Nuvolari e os pilotos mais reconhecidos dessa época: Caracciola, Varzi, Chiron e Trossi. Foi primeiro na Targa Florio de 34 e 35 e na Mille Miglia de 1935.


1938 - 8C 2900B Speciale tipo "Le Mans"

1938 - 8C 2900B Speciale tipo "Le Mans"
Considerado um dos esportivos mais belos do mundo, o Alfa Romeo 8C 2900 é um automóvel entusiástico por natureza, aguerrido nas corridas, embora de condução dócil. A primeira versão se configurou em 1934 com uma cabine de dois lugares para que pudesse correr nas competições tipo Sport. Em 1937 se comercializou no mercado dos colecionistas o modelo 8C 2900 B na versão com cabine curta (Spider Corsa de dois lugares) e estendida (Coupé Touring de quatro lugares). Desde sua estreia em competições, com uma extraordinária tríplice coroa nas Mil Milhas, até 1939 não encontrou resistência.


1951 - Gran Premio Tipo 159 "Alfetta"

1951 - Gran Premio Tipo 159 "Alfetta"
Sucessor do modelo 158, o "Alfetta" 159, conduzido pelo argentino Juan Manuel Fangio, ganha o 2º campeonato do mundo de Fórmula 1 para a casa da Alfa Romeo. A mecânica se mantinha tal qual a de seu predecessor, 8 cilindros em línea, e com algumas melhorias alcançava os 450 cavalos de potencia.  Esse motor alcançava um nível de potência específico quase incrível, 287 cv/litro, uma cifra impressionante até hoje em dia. Nas palavras do próprio Fangio, depois das primeiras voltas sobre este auto, "sufocar o incrível poder deste auto é uma recordação que ficará para sempre em minha cabeça e em meu estômago”.


1954 - Giulietta

1954 - Giulietta
Foi o primeiro Alfa Romeo com nome próprio e de mulher. Apresentado ao público em 1954 na versão Coupé Sprint, com uma línea jovem e dinâmica desenhada por Bertone, foi um carro de êxito seguro. Suas qualidades: dimensões reduzidas, prático e ágil, com rendimento elevado. Ambas as versões Berlina e Spider surpreenderam com um êxito imediato entre o público, por suas qualidades mecânicas e pela sóbria elegância de suas linhas. Em 1959 veio à luz o Sprint Speciale de Bertone e o SZ de Zagato, decididamente de corridas.


1955 - 750 Competizione

1955 - 750 Competizione
Carlo Abarth foi o encarregado de produzir o chassi deste exemplar. Para a carroceria optou-se por outro ilustre desenhista: Felice María Boano, criador de alguns dos Ferrari 250 GT mais bonitos que existem. O coquetel explosivo resultou num motor que aumentou sua potência até os 145 cavalos com um peso realmente contido. As sensações geradas foram únicas e sua condução mostrou-se muito mais delicada.


1960 - Giulietta SZ "Coda Tonda"

1960 - Giulietta SZ "Coda Tronca"
A Giulietta SZ "Coda Tronca", além de sua indubitável beleza estética, foi um veículo que alcançou numerosos triunfos em competições, sobretudo graças à sua leveza e ao fantástico motor. Pertenceu a uma série de motores preparados por Virgilio Conrero que chegaram aos 127 cavalos.


1967 - 33 Stradale

1967 - 33 Stradale
O Alfa Romeo 33 Stradale foi um automóvel esportivo fora do comum em termos de desenho. Foram fabricadas tão somente 18 unidades em 1967, compondo um modelo exclusivo de dois lugares com motor central e tração traseira, com desenho a cargo de Franco Scaglione. Foi visto pela primeira vez no Sport Car Show de Monza, em 1967, trazendo consigo o apelido Stradale, que designa as versões aptas para circular por corridas. Grande parte do desenho do 33 Stradale foi reutilizado no século XXI, no vigente superesportivo 8C Competizione.

Visite o site www.alfaromeohalloflegends.com

Veja também: