Um MP Lafer de consulado?

Este MP Lafer diferenciado foi encontrado numa oficina de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Este MP Lafer diferenciado foi encontrado numa oficina de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Existem coisas que não estão ao alcance de um clique no Google. É preciso tirar uma capa protetora ou uma camada de poeira para encontrar certas relíquias - como o MP Lafer registrado nesta crônica.

Por Custodio Saraiva

Como todo antigomobilista, gosto de frequentar oficinas, principalmente aquelas bem antigas.

Quase sempre existirá, em algum canto das mesmas, um automóvel mais antigo ou raro coberto por uma lona, ou a descoberto, mas sempre ostentando uma camada de poeira que ditará o tempo em que o mesmo deixou de ser atração nas ruas para ser somente o portador de histórias muitas vezes comoventes ou até mesmo hilárias.

Desta vez foi diferente.

Encontrei, sob uma capa plástica, um reluzente exemplar da baratinha numa antiga e tradicional oficina de Porto Alegre. O proprietário da oficina, Senhor Francisco Geraldo Capra, gentilmente se ofereceu para mostrar o carro, ao mesmo tempo que falava sobre os melhoramentos que conferiu ao MP - os quais me surpreenderam.

Ele instalou uma direção hidráulica - trabalho que segundo o empresário levou bastante tempo até ser concluído. Chamam a atenção, também, os quebra-ventos fixos, os aros metálicos ao redor do velocímetro e do conta-giros, e outros pequenos detalhes criados pelo proprietário, inclusive as rodas, que conferem ao carro um visual muito interessante.

Aspecto do sistema de direção hidráulica adaptado no MP Lafer.
Aspecto do sistema de direção hidráulica adaptado no MP Lafer.

O quebra-vento foi afixado junto ao para-brisa, e os bancos receberam encosto alto para as cabeças.
O quebra-vento foi afixado junto ao para-brisa, e os bancos receberam encosto alto para as cabeças.

Vide aros metálicos contornando o velocímetro e conta-giros. Ao centro do painel com moldura de borracha, dois retrovisores internos.
Vide aros metálicos contornando o velocímetro e conta-giros. Ao centro do painel com moldura de borracha, dois retrovisores internos.

Este relato é apenas uma mostra de como o MP induz seu proprietário a desenvolver sua imaginação para deixar o carrinho cada vez com mais charme e com detalhes que fazem a diferença. Nunca haverá um exatamente igual ao outro!

Tudo isso faz com que as pessoas procurem se agrupar para troca de ideias e encontro de soluções - o que acho muito salutar.

Este MP Lafer conta com rodas personalizadas. O detalhe acima da placa: um suporte para bandeiras.
Este MP Lafer conta com rodas personalizadas. O detalhe acima da placa: um suporte para bandeiras.

Em tempo: a MP do Senhor Geraldo também possui um suporte traseiro para colocação de uma bandeira, que já fazia parte do carro antes da compra. Tal fato aguça a curiosidade sobre o uso da baratinha.

Lembro-me que há muitos anos existiu em Porto Alegre uma MP branca que pertencia a um consulado de um pais europeu. Seria esta?

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Veja também:


Galeria 2015: Mendes

A linda combinação da capota bege com a carroceria em verde metálico.
A linda combinação da capota bege com a carroceria em verde metálico.


ESPECIALISTA EM JOIAS

Enio Mendes, de Itanhandu, Minas Gerais, trabalha no departamento administrativo da Joalheria Brasil. De joia ele entende e tem até uma na garagem, um MP Lafer, como ele mesmo relata em mensagem de 09 de junho de 2015:

"Adquiri este MP, ano 1979, há poucos dias no Rio. Sempre apreciei muito este carro pela suas linhas e esportividade. Afinal consegui comprar este, que está me realizando em termos de carros. Dirigi-lo é muito bom e prazeroso, principalmente no modo conversível. Ainda tenho que fazer pequenos reparos nas rodas, porém faz parte do hobby. Já solicitei o meu ingresso no grupo Amigos do MP Lafer do Rio de Janeiro."


Pneus com faixas brancas: costume americano pouco usual na Europa, mas que pegou no Brasil.
Pneus com faixas brancas: costume americano pouco usual na Europa, mas que pegou no Brasil.

O conversível conta com o envelope da capota, um artigo raro.
O conversível conta com o envelope da capota, um artigo raro.

Painel e aro do volante em madeira: beleza que a modernidade não suplanta.
Painel e aro do volante em madeira: beleza que a modernidade não suplanta.


Galeria 2015: Saraiva

O MP Lafer 1977 marrom metálico barroco de Custodio Saraiva. Este carro já havia sido dele há muitos anos, tendo sido recomprado recentemente.
O MP Lafer 1977 marrom metálico barroco de Custodio Saraiva. Este carro já havia sido dele há muitos anos, tendo sido recomprado recentemente.

Reunião entre amigos admiradores do conversível. O documento de propriedade de um MP Lafer é como se fosse um passaporte para o país dos bons companheiros.
Reunião entre amigos admiradores do conversível. O documento de propriedade de um MP Lafer é como se fosse um passaporte para o país dos bons companheiros.

MPs fotografados por Saraiva, prestigiando o evento "Fusca Show" de 2015, realizado no Sul.
MPs fotografados por Saraiva, prestigiando o evento "Fusca Show" de 2015, realizado no Sul.

Custodio Saraiva, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é colaborador do site mplafer.net desde 2007. A cada quatro anos ele marca presença na seção Galeria.  Agradecemos ao amigo gaúcho pelo envio de novas imagens em 24 de maio de 2015. Confira as versões anteriores:

Galeria 2011: Saraiva

Galeria 2007: Saraiva

Veja também:

MPs em São Sebastião do Caí - 2015
Mosaicos de boas lembranças
O MG Bandeirante Amarelo

As 24 Horas de Le Mans

Alfa Romeo 8C - 1933.
Alfa Romeo 8C - 1933.
Uma pequena cidade no interior da França se converte na capital mundial do automobilismo durante os meses de junho, por causa de uma corrida que vale por um campeonato. 

Texto e desenhos de Jean Tosetto *

A categoria mais popular do automobilismo no Brasil é a Formula 1, devido aos três campeões mundiais que o país forneceu aos entusiastas – Fittipaldi, Piquet e Senna – e pela grande cobertura do principal canal de TV aberta nacional. Mesmo a Fórmula 1 vem perdendo espaço numa época em que a juventude não se dispõe mais a ficar quase duas horas acompanhando uma transmissão esportiva, sem que algum estímulo da Internet lhe desvie a atenção.

A pouca cobertura da imprensa e a ausência de pilotos brasileiros em equipes de fábrica talvez explique o fato das 24 Horas de Le Mans – a mais antiga e importante corrida de resistência para automóveis, pilotos e mecânicos do mundo – não ser tão difundida no Brasil; situação diversa da Europa, América do Norte e Japão, onde o público torce também pelas marcas oriundas de seus países. Nestas regiões a disputa - envolvendo carros grand turismo e protótipos - é aguardada com grande antecedência.

Desde os primórdios, ainda na década de 1920, as 24 Horas de Le Mans foram concebidas para promover o desenvolvimento tecnológico dos carros. As primeiras marcas a colecionar triunfos nas estradas francesas que compõem o circuito foram a Bentley e a Alfa Romeo. A Bugatti, dona da pequena pista de testes que empresta a linha de partida da corrida, venceu apenas duas vezes neste período.

Na década de 1940, em função da Segunda Grande Guerra Mundial, as provas foram canceladas. Somente nos anos de 1950 Le Mans retomou seu prestígio, ao ver nascer uma histórica rivalidade entre a Jaguar e a Ferrari.

Jaguar D-Type - 1955.
Jaguar D-Type - 1955.

Um pavoroso acidente na edição de 1955 marcou a história de Le Mans. O choque entre o Austin-Healey de Lance Macklin com a Mercedes de Pierre Levegh foi tão traumático que provocou a morte instantânea do segundo piloto, com os destroços dos carros voando pelas arquibancadas vitimando mais de 80 espectadores.

Em função desta tragédia a Suíça proibiu as corridas automobilísticas em seu país e a Mercedes se retirou do esporte até o fim da década de 1980.

A Ferrari seguiu triunfante nos anos 60, quando a rivalidade passou a ser com a Ford, interessada em aumentar suas vendas no mercado europeu. O Ford GT 40 conseguiu quatro vitórias consecutivas com suas duplas de pilotos, transformado este modelo num ícone de sua geração.

Ferrari 330 P4 - 1967.
Ferrari 330 P4 - 1967.

Le Mans notabilizou-se também por seu estilo da largada peculiar, no qual os pilotos ficavam na margem oposta da pista onde os carros se alinhavam um atrás do outro, formando ângulos de 45 graus com a linha dos boxes. Ao sinal do diretor de prova, os pilotos corriam para atravessar a pista, dar partida nos motores e arrancar para a corrida.

Este modo de largada foi abandonado na virada dos anos 70, por causa de um apelo por racionalidade do piloto belga Jacky Ickx. Em 1969 ele esperou todos largarem, saiu caminhando para o seu carro e mesmo assim venceu a corrida a bordo de seu Ford GT 40, em parceria com Jackie Oliver. Na mesma edição, um acidente logo na primeira curva vitimou John Woolfe: os comissários de pista verificaram que ele, na pressa de largar, não havia afivelado seu cinto de segurança. Em 1970 a largada se deu com os carros ainda postados em diagonal, mas já com os pilotos devidamente posicionados nos cockpits. Desde 1971 a largada é feita em movimento, com os bólidos seguindo um pace car.

É neste período de transição que o cinema nos brindou com um dos filmes mais festejados sobre o automobilismo. Com o mesmo nome da famosa corrida de Le Mans, a película estrelada por Steve McQueen com direção de Lee H. Katzin é quase um documentário fiel da época. O próprio Steve MacQueen guiou carros alemães da Porsche em várias cenas, retratando a dificuldade de manter a concentração ao volante por horas a fio, num circuito com mais de treze quilômetros de extensão, mesclando dezenas de carros de quatro categorias diversas, com velocidades médias variadas – os protótipos mais velozes atingem velocidades superiores a 350 km/h ao passo que carros do tipo GT podem correr abaixo dos 250 km/h, nem sempre na mão de pilotos profissionais, uma vez que amadores milionários pagam para correr em equipes menores.

A dificuldade adicional se dá pelo horário da largada: quatro horas da tarde, o que significa que os carros atravessam a noite e a madrugada cruzando fachos de luz intensa de seus potentes faróis nos retrovisores dos carros à frente.

Veja também:

Especial: As 24 Horas de Le Mans de 1967
IV Grande Prêmio Argentino de Baquets
Interlagos recebe o MP Lafer na Super Classic

A Porsche, por sua vez, reinou quase absoluta por duas décadas, configurando-se na recordista de vitórias em Le Mans – 16 triunfos no total, deixando pouco espaço para marcas francesas como Matra e Peugeot. No miolo dos anos 80 a Porsche conseguiu a façanha de vencer em Le Mans com equipe própria e sagrar-se campeã também da Formula 1, fornecendo motores para a equipe McLaren.

Em 1991, quando a competição já admitia o revezamento de três pilotos em cada carro, ocorreu a única vitória da equipe japonesa da Mazda, uma das mais comemoradas de todos os tempos. Mas foi outra fabricante alemã, a Audi, que passou a se destacar desde então, chegando ao terceiro milênio com triunfos sucessivos que ajudaram o piloto dinamarquês Tom Kristensen a ser o recordista individual de vitórias – nove no total, com a impressionante trajetória de seis conquistas consecutivas.

Toyota TS040 Hybrid - 2014.
Toyota TS040 Hybrid - 2014.

As 24 Horas de Le Mans continuam sendo um campo avançado de experiências tecnológicas que podem chegar aos carros de rua dentro de alguns anos. O uso do diesel como combustível alternativo à gasolina já demonstrou ser eficiente. A mais recente fronteira a ser explorada são os carros híbridos, que mesclam motores à combustão com motores elétricos, visando diminuir o consumo de combustíveis fósseis e desenvolver os sistemas de armazenamento de energia elétrica nos veículos.

A Audi segue como a marca a ser batida nesta segunda década do século XXI. A japonesa Toyota voltou a investir pesado para ingressar no rol das fabricantes vitoriosas em Le Mans, que integra atualmente o campeonato mundial de Endurance, conhecido pela sigla inglesa “WEC”, de “World Endurance Championship” – que inclusive já teve etapas com seis horas de duração no circuito de Interlagos, em São Paulo. Porém, ninguém pode negar que Le Mans, sozinha, vale por um campeonato inteiro.

Leia mais artigos da coluna "Editor Volante".
* Jean Tosetto é arquiteto desde 1999 e editor do site mplafer.net desde 2001. É também autor do livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” - lançado em 2012. 

RevistaMotorMachine.blogspot.com.br



 Este artigo foi publicado originalmente na Revista MotorMachine número 08, em maio de 2014.

Galeria 2015: Rapisarda


Domenico Rapisarda possui um MP Lafer 1980 em Catania, na Sicília. Ele fez um passeio até o sopé do Vulcão Etna, levando consigo um livro especial.

Domenico Rapisarda possui um MP Lafer 1980 em Catânia, na Sicília. Ele fez um passeio até o sopé do vulcão Etna, levando consigo um livro especial.

MP LAFER VISITA O VULCÃO ETNA

A ilha da Sicília, ao sul da Itália, é mais próxima da Tunísia do que de Roma, a capital do país. O Mar Mediterrâneo separa a Europa da África e representa um obstáculo para as levas de imigrantes que fogem de guerras civis e perseguições religiosas. Aqueles que conseguem chegar na região de Catânia sentem-se salvos. Seria este recanto do mundo um paraíso na Terra?

É o que indica a presença do vulcão Etna - o maior do continente, com 3.340 metros de altura, em contínua atividade - pois nem a fumaça emitida pela montanha mitológica consegue tirar a beleza de seu entorno. Esta grandiosa atração turística é uma pedida obrigatória para quem visita o Mezzogiorno, como o sul da Itália é conhecido entre os habitantes locais.

Entre eles está Domenico Rapisarda, um amigo bem abençoado, acostumando a dirigir entre máquinas da Ferrari, Alfa Romeo, Lancia e Maserati - essas marcas encantadoras que povoam os sonhos daqueles que são entusiastas por carros esportivos. Mas sabe qual o conversível que lhe fala ao coração? Sabe sim: o brasileiríssimo MP Lafer.

Sua paixão por este carro o fez importar um exemplar do livro "MP Lafer: a recriação de um ícone" mesmo não sabendo ler em português. O ponto alto de tamanha gentileza foi levar o livro para um passeio a bordo de seu MP Lafer, nas imediações do vulcão Etna - o que para nós foi um motivo de doce satisfação, cabendo aqui o nosso sincero agradecimento.

O MP, o livro e o vulcão: recriando o ícone num lugar mitológico.
O MP, o livro e o vulcão: recriando o ícone num lugar mitológico.

Cena semelhante, vista de outro ângulo.
Cena semelhante, vista de outro ângulo.

Criatividade italiana para conservar o MP Lafer: calotas cromadas de Fusca.
Criatividade italiana para conservar o MP Lafer: calotas cromadas de Fusca.

Galeria 2012: Rapisarda