Santana de Parnaíba 2017

O Clube MP Lafer Brasil levou 17 carros para o tradicional encontro de Santana de Paraníba.
O Clube MP Lafer Brasil levou 17 carros para o tradicional encontro de Santana de Paraníba.

Há 16 anos a Prefeitura Municipal de Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, promove um encontro de carros antigos em seu centro histórico. Em 2017 o evento aconteceu no último domingo de junho, dia 25.

Santana de Parnaíba é servida pelo Rio Tietê, acompanhado pela Estrada dos Romeiros que desemboca na Estreada Parque até Itu: uma dica de passeio para quem gosta de guiar um carro especial por um cenário de beleza impar, pouco explorado por quem vai ao interior pelas grandes rodovias, como Bandeirantes e Castelo Branco.

Outra tradição no encontro de Santana, é a participação do Clube MP Lafer Brasil. Desta vez foram 17 conversíveis alinhados diante de vários Pumas. Quem sempre prestigia a festa é o Gilberto Martines. Ele nos enviou várias imagens e selecionamos algumas para compartilhar com o amigo do mplafer.net - acompanhe:

O Bianco é um modelo muito apreciado por goleiros que defendem pênaltis.
O Bianco é um modelo muito apreciado por goleiros que defendem pênaltis.

Este Karmann Ghia, pelos para-choques, deve ser de 1970 - talvez um pouco menos.
Este Karmann Ghia, pelos para-choques, deve ser de 1970 - talvez um pouco menos.

Fiat 147 Pick Up de 1980 ou 1981. Uma versão que valoriza ao longo dos anos.
Fiat 147 Pick Up de 1980 ou 1981. Uma versão que valoriza ao longo dos anos.

Um Corvette de 1965 - bem mais interessante que os modelos atuais da GM.
Um Corvette de 1965 - bem mais interessante que os modelos atuais da GM.

Triciclo experimental propulsionado por hélice. A rede evita que a mesma faça trança nos cabelos mais compridos.
Triciclo experimental propulsionado por hélice. A rede evita que a mesma faça trança nos cabelos mais compridos.

Réplica brasileira do Alfa Romeo P3 1931. A grade deste unidade foi estilizada e os bancos receberam encostos altos.
Réplica brasileira do Alfa Romeo P3 1931. A grade deste unidade foi estilizada e os bancos receberam encostos altos.

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XXII Encontro Paulista de Autos Antigos - Vinhedo 2017


O Encontro Paulista de Autos Antigos é um dos mais tradicionais do calendário brasileiro. O evento já esteve em Águas de São Pedro e Campos do Jordão em algumas edições, e viveu seu período de auge na cidade de Águas de Lindóia. Agora em Vinhedo pela segunda vez, tenta recuperar o espaço perdido para os organizadores que assumiram o encontro no Circuito das Águas.

O Parque de Uva em Vinhedo mostrou ser um lugar ideal para a grande festa. Situado numa encosta, o recinto oferece cinco patamares em desnível para setorização dos veículos. No patamar mais alto ficaram os caminhões, abaixo dele se concentraram os carros nacionais. Os dois patamares intermediários mesclaram a praça de alimentação com o mercado de pulgas e os veículos importados. Lá embaixo ficaram os automóveis para venda e leilão.

O clima no final de outono combina bem com a região e a proximidade com São Paulo favoreceu a presença do público que movimentou a pequena cidade que, neste ano, ficou sem a tradicional Festa da Uva. A crise política e econômica que vem se arrastando no Brasil desde 2014 só não diminui o entusiasmo dos aficionados por carros antigos, que seguem frequentando os principais eventos do ramo.

Ocorrido entre 15 e 18 de junho, durante o feriadão de Corpus Christi, estivemos lá na sexta-feira, dia 16, para registrar o evento para os amigos do mplafer.net - poupando vocês de ouvir a conversa de certo comerciante de carros antigos que desanda a depreciar o modelo de um colega sem ao menos vê-lo de perto.

Por outro lado, não teremos como compartilhar o sabor do risoto de queijo com frango da Maria Zabbé, acompanhado de suco de uva da Família Ferragut - pretendemos voltar em Vinhedo para conhecer de perto a adega deles.

Por Jean Tosetto

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Descoberto o plano secreto para forjar uma nova geração de laferistas

Nove crianças abancadas num velho MP Lafer: a semente para uma nova geração de entusiastas da marca.
Nove crianças abancadas num velho MP Lafer: a semente para uma nova geração de entusiastas da marca.

Você se lembra da primeira vez que viu um MP Lafer? Algumas destas crianças poderão não se lembrar, mas algo vai dizer para elas, no futuro, que este carro lhe traz bons sentimentos. 

Por Jean Tosetto *

Lá em casa a gente tem um costume conservador - retrógrado, alguns diriam: nós fazemos as festas de aniversário da nossa filha no quintal mesmo. A gente não aluga salão e não contrata buffet. Não enviamos convites formais pelo Facebook. É tudo no tête-à-tête (ok: pelo Whatsapp também, mas em último caso). Minha esposa fica ansiosa, enrolando os brigadeiros, encomendando o bolo na confeitaria, assoprando as bexigas e comprando alguns enfeites.

Não estou dizendo que você deva fazer o mesmo. Estou apenas contando como acontece lá em casa. Você certamente já está aborrecido com este monte de gente na Internet ditando regras. Eu também.

Festa de criança tem que ter criança, não tem que ter regras.

Neste ano a Carol fez quatro aninhos. É uma idade muito legal, pois a criança começa a guardar as lembranças. As primeiras amizades se formam nesta época da vida. E os primeiros desejos são plantados no inconsciente, sabe-se lá como, e nem Freud precisa explicar. Você entende, não é mesmo?

Desta vez estacionei meu velho MP Lafer no cantinho do gramado. Velho, sim. O carro é meu e posso chamá-lo de velho, pois ele é meu velho amigo também.

A criançada veio chegando aos poucos. É impressionante como os olhinhos delas brilham quando veem o MP Lafer. Não interessa que a pintura dele está craquelada. Não importa que suas rodas perderam o brilho e que a capota precisa ser trocada. É um carro diferente, bonito, que parece sorrir para nós. Como explicar o fascínio dele?

- Meu filho pode sentar no banco do motorista? - Pergunta outro velho amigo.

- Claro que sim! - Imagina se eu vou tolher a onda de curiosidade de um garotinho de apenas três anos?

- Mas você não tem ciúmes do carro?

- Claro que não! - E afinal de contas essa é uma vantagem de nunca ter restaurado o MP Lafer. A criançada pode por a mão nele sem dó.

Que coisa mais chata é um crianção com ciúmes de seu carro.

E o garotinho mexeu na alavanca de câmbio, puxou os botões que ascendem os faróis, tentou girar o volante. Olhou por todos os recantos daquela redoma da máquina do tempo, que ele nem sabe que só existe na ficção científica.

Então me veio a ideia de fotografar todas as crianças na frente do MP. Elas toparam na hora. Que outro carro conseguiria manter a atenção de nove crianças diante de um fotógrafo? Elas subiram no capô, sentaram no para-lama e se encostaram na lateral do conversível. Na casca de ovo de um SUV é que isso não ia acontecer. E deste modo consegui tirar a foto para vocês, meus amigos virtuais.

Os anos vão passar. Essas crianças vão para a escola. Vão ensinar para elas que os carros entopem as cidades, são poluentes, são símbolos de status de uma sociedade doente, e toda sorte daquela ideologia que prega que devemos nos sentir culpados por ter aquilo que gostamos. E nem sei onde isso vai parar.

Só sei que estou fazendo a minha parte. Montei um célula de resistência para preservar as bexigas coloridas penduradas na varanda, os brigadeiros sobre a toalha rendada que só usamos em dias especiais, e o prazer de ver um MP Lafer passando pela rua.

Agora que meu plano secreto vazou você tem duas opções: me denunciar para as autoridades ou se juntar a mim.

* Jean Tosetto é arquiteto desde 1999 e editor do site mplafer.net desde 2001. É também autor do livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” - lançado em 2012.

O Editor Volante recomenda o livro do MP Lafer
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Obrigado, Roger Moore

Roger Moore em praia do Rio de Janeiro, diante do MP Lafer usado na gravação de um filme de 007 em 1979. A imagem pertence ao acervo da Lafer.
Roger Moore em praia do Rio de Janeiro, diante do MP Lafer usado na gravação de um filme de 007 em 1979. A imagem pertence ao acervo da Lafer.

Dentre os atores que deram vida ao personagem de Ian Fleming, Roger Moore permanece como o recordista da série oficial de James Bond, com sete produções.

Por Jean Tosetto *

James Bond, o agente secreto mais famoso do mundo, é um personagem inverossímil. Ele se hidrata com Vodca Martini, mas seu fígado não acusa. É promíscuo em relação às mulheres, dirige carros sempre acima dos limites de velocidade e leva um estilo de vida perigoso demais, combatendo vilões cujos capangas nunca lhe acertam tiros a queima roupa. Na vida real, 007 dificilmente passaria dos 45 anos de idade, mas como ele continua habitando o imaginário da cultura popular, transferimos sua imortalidade para os atores que já encarnaram um dos papéis mais icônicos do cinema.

Mais difícil de acreditar que Roger Moore se foi, é aceitar o fato de que ele já tinha 89 anos de idade - quase o dobro da expectativa de vida de um espião internacional. Por ter se afastado das atuações em filmes de 007 há mais de trinta anos, guardamos apenas os bons e divertidos momentos dele usando o smoking que lhe dava permissão para matar - e para ser o canastrão mais querido e elegante em serviço de Sua Majestade.

Se foi Sean Connery que apresentou James Bond ao mundo, foi Roger Moore que tornou-se embaixador do Unicef - o fundo das Nações Unidas para promoção dos direitos das crianças. Como tal, visitou inclusive o Brasil na década de 1990, quando participou de ações para arrecadação de doações ao lado de Renato Aragão, o eterno Didi dos Trapalhões.

Mas a primeira vez de Roger Moore no Brasil se deu no fim dos anos de 1970, durante as gravações de "Moonraker" (007 contra o Foguete da Morte). Os amigos de mplafer.net já conhecem esta história e, por causa dela, volta e meia recebemos mensagens de gente interessada em comprar um MP Lafer, mas com um detalhe: "tem que ser branco".

Roger Moore não dirigiu o MP Lafer no filme, que foi usado por uma espiã brasileira numa cena de perseguição tão curta quanto inofensível. O suficiente, no entanto, para promover o modelo brasileiro na Europa e nos Estados Unidos pois, além do filme, divulgou-se também uma série de fotos do ator britânico ao lado do carro - uma delas republicada acima.

O tempo passa para todos, inclusive para Sir Roger Moore. Nascido em outubro de 1927 na cidade de Londres, tornou-se ator após o fim da Segunda Guerra Mundial. Fez sucesso também na TV a partir de 1962, nas séries "O Santo" e "The Persuaders!". Assumiu o papel de 007 em 1973, atuando em sete filmes da franquia até 1985. Era embaixador da Unicef desde 1991, tendo sido condecorado em 2003 como Cavaleiro do Império Britânico. Faleceu em maio de 2017 na localidade suíça de Crans-Montana, após breve luta contra um câncer.

Descanse em paz, Roger Moore.

* Jean Tosetto é arquiteto desde 1999 e editor do site mplafer.net desde 2001. É também autor do livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” - lançado em 2012.

Veja também:

MPLAFER.net apresenta "pinup session" com Marcela Vargas

MPLAFER.net apresenta "pinup session" com Marcela Vargas

O fotógrafo Fernando Bretas Junior trabalhou no sábado em que Águas de São Pedro recebeu a caravana do Clube MP Lafer Brasil. O resultado você vê aqui, em primeira mão.

A modelo Marcela Vargas, caracterizada como uma "pinup girl".
A modelo Marcela Vargas, caracterizada como uma "pinup girl".

As primeiras pinups foram retratadas no fim do século XIX.
As primeiras pinups foram retratadas no fim do século XIX.

O termo "pinup" popularizou-se no cinema americano a partir da década de 1940.
O termo "pinup" popularizou-se no cinema americano a partir da década de 1940.

O auge das pinups na cultura pop ocorreu nos anos de 1950, cuja estética reverbera até hoje.
O auge das pinups na cultura pop ocorreu nos anos de 1950, cuja estética reverbera até hoje.

O MP Lafer usado neste ensaio foi gentilmente cedido por Roberto Vignon, de São Paulo.
O MP Lafer usado neste ensaio foi gentilmente cedido por Roberto Vignon, de São Paulo.

As linhas e a cor vermelha do carro combinam perfeitamente com a sensualidade da pinup.
As linhas e a cor vermelha do carro combinam perfeitamente com a sensualidade da pinup.

A ambientação, nas imediações de um hotel, lembra um filme de Quentin Tarantino.
A ambientação, nas imediações de um hotel, lembra um filme de Quentin Tarantino.

Não seria uma pinup girl sem uma pitada de insinuação.
Não seria uma pinup girl sem uma pitada de insinuação.

Ué?! Cadê o motor?
Ué?! Cadê o motor?

Surpresa! O motor está num compartimento bem humorado.
Surpresa! O motor está num compartimento bem humorado.

Marcela Vargas é farmacêutica e mora em Piracicaba.
Marcela Vargas é farmacêutica e mora em Piracicaba.

Não peçam, pois não temos o telefone dela.
Não peçam, pois não temos o telefone dela.

Mas você pode encomendar cópias impressas em alta resolução das fotografias deste ensaio :)
Mas você pode encomendar cópias impressas em alta resolução das fotografias deste ensaio :)
Tem coisas que só o site mplafer.net faz para você!

Serviço:

Fernando Bretas Junior
Fotografia - Filmagem - Fotolivros
www.bretasfotografia.com.br
facebook.com/bretasfotografia
(19) 9.9973.4747 / (19) 3482.4714
bretasjr@gmail.com

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15 anos de MPLAFER.net


O site mplafer.net nasceu em agosto de 2001, como mplafer.hpg.com.br - o domínio de mplafer.net só foi registrado em abril de 2002, quando sua programação em "flash" foi refeita pelo jovem webmaster Rene Sarli, primo deste que vos tecla.

Em novembro de 2006 o site virou blog, adotando a programação básica em "html". Desde então venho atualizando a página sozinho, com a colaboração de amigos e leitores que enviam fotos, relatos e outros materiais.

Mas a parceria com o Rene nunca terminou. Estamos sempre conversando e palpitando um sobre os projetos do outro. O Rene tem uma agência multimídia e presta serviços de tecnologia da informação para uma entidade educacional. Eu trabalho como arquiteto e as vezes escrevo livros.

No último fim de semana de abril de 2017 demos um giro a bordo de nosso MP Lafer 1974, velho de guerra. Eu dirigi e o Rene captou as imagens do vídeo acima, que comemora os 15 anos do domínio mplafer.net na rede mundial de computadores.

Mais uma vez cabe o agradecimento à você que nos prestigia com sua visita. Nosso objetivo é lhe entregar alguns momentos de prazer por mês. Queremos que este site só lhe dê motivos de alegria, pois é isso que ele traz para nós.

Saudações cordiais,
Jean Tosetto

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O melhor de Lindóia


Entre prestigiar rituais e ansiar por caminhos novos, ficamos com os dois. No mesmo dia estivemos num dos eventos mais visitados por turistas no Estado de São Paulo e, a poucos quilômetros dali, num rincão esquecido, com cenas igualmente marcantes.

Por Jean Tosetto *

Coloquei o despertador para tocar às seis horas da manhã, mas não foi preciso: quatro minutos antes já estava em estado de alerta, ouvindo a chuva cair no quintal. Consultei a previsão do tempo para a região: nublado de manhã e pancadas de chuva de tarde. Se não fosse pela vontade de guiar na estrada, teria voltado para o travesseiro. Porém, meus amigos Dani e Luciano já estavam de pé. Nossa palavra também. Seguimos juntos para o IV Encontro Brasileiro de Autos Antigos, em Águas de Lindóia, no feriado de Tiradentes.

Chegamos antes dos estacionamentos abrirem, por isso deixamos o carro no pátio da igreja matriz da cidade - uma forma de colaborar com a comunidade local. Caminhamos pela enorme praça, onde carros - cada vez menos antigos e cada vez mais velhos - se esparramavam em torno do lago artificial. É preciso afirmar: os colecionadores de porte não estão mais levando seus melhores veículos para a cidade, embora o evento em Águas de Lindóia ainda seja o recordista de público no Brasil, apesar dos (poucos) banheiros imundos e da comida sempre cara.

O que nos leva ano sim, outro também, para a cidade, é a expectativa de reviver o impacto das primeiras edições do encontro, quando era organizado por outra entidade. A teimosia é alimentada ritualisticamente: o café na varanda do hotel central, o alô para os comerciantes de livros, o abraço em alguns colegas que só vemos por ali. Antes isso consumia um dia inteiro. Agora, a vontade de ir embora bateu logo depois do almoço. O vídeo acima resume bem o que foi a nossa manhã.

Se você está com mais tempo para voltar para casa, significa que não é preciso fazer o caminho mais curto. Dá tempo de parar em Serra Negra para outro café, onde escolhemos seguir pela vicinal até a rodovia que liga Amparo e Itapira. É o lugar ideal para testar a eficiência da caixa de marchas do Alfa Romeo 156, velho de guerra que aceita, sem frescuras, uma tocada esportivamente suave pelos cafezais da Serra da Mantiqueira.

É neste modo de guiar que o nosso olhar de arquiteto fica mais aguçado e consegue vislumbrar as ruínas do que parece ser uma estação de trem abandonada.

- Posso parar para fazer uma foto?

Era a pergunta que só aceitava uma resposta. Descemos da máquina, que chamo de "embaixada italiana", para ver de perto a construção de tijolos à vista, com grandes mãos francesas na cobertura e uma plataforma que confirma: era realmente uma estação de trem, provavelmente construída no fim do século XIX, para escorar a produção do café de Serra Negra, em fazendas tocadas pela mão-de-obra de imigrantes também italianos. O Alfa Romeo estava em casa.

O Alfa Romeo 156 diante da estação de trem abandonada.
O Alfa Romeo 156 diante da estação de trem abandonada.

Só não me peça para explicar qual era o trajeto da linha férrea, pois a topografia do local não indicava tal possibilidade. A poucos metros dali, começava outra estradinha vicinal asfaltada, tão estreita que não permitia a passagem simultânea de um caminhão com um carro - só se alguém fosse para o mato.

- Vamos ver até onde este caminho nos leva?

Se você gosta de falar "não", então pegue carona com outro sujeito. E toca desviar dos buracos, ansioso para saber o que tem do outro lado da montanha, só para descobrir que tem mais uma montanha. As surpresas vão se descortinando pelas curvas, como uma velha sede de fazenda próxima a um riacho. O casarão repousa sobre um terreno em aclive, com a porta social abastecida por duas escadas sobre arcos diante de um porão.

A sede da fazenda esperando a volta do Led Zeppelin, para servir de encarte para um novo álbum.
A sede da fazenda esperando a volta do Led Zeppelin, para servir de encarte para um novo álbum.

O Dani diz que aquele porão era uma espécie de senzala. Tenho minhas dúvidas, pois a fachada era rebuscada demais para ser do tempo colonial. Tinha dedo de artesãos italianos naqueles entablamentos, e estes, embora trabalhassem de sol a sol, não eram propriamente escravos. Para mim, aquele porão era um grande armazém - talvez uma adega. Só o questionamento diante de uma edificação, que raramente vemos nas cidades, já estava valendo a escapada da rota convencional.

Seguimos adiante. A largura do leito carroçável aumentou um pouco, indicando que estávamos na direção de algum povoado. Ao passar por um bambuzal, outra parada, para ver de perto as ruínas de mais um casarão, habitado agora por árvores que romperam o telhado. Alguns batentes de portas e janelas ainda estavam lá, a espera de alguém que trabalha com madeiras de demolição, que rendem móveis rústicos que custam os olhos da cara.

O novo e o velho: a dicotomia sempre esconde as nuances.
O novo e o velho: a dicotomia sempre esconde as nuances.

A quietude do entorno, envernizada pelo som do vento alisando as folhas no alto das árvores, nos permite ouvir os pensamentos: como pode, algo belo e imponente, entrar em decadência até se arruinar completamente?

É bom constatar que a previsão do tempo falhou: as pancadas de chuva não vieram, mas estava na hora de voltar para Paulínia, e fotografando cada cenário revelado não faríamos isso antes do anoitecer. Nossa última parada foi diante da Capela da Sagrada Família, que está sendo reformada por voluntários que trabalham nos feriados e fins de semana. Eles alegaram trabalhar na construtora "Odebrecha".

A paineira não consegue oferecer sombra para a Kombi. Não importa: tudo debaixo do sol é passageiro.
A paineira não consegue oferecer sombra para a Kombi. Não importa: tudo debaixo do sol é passageiro.

O bom humor deles era o testemunho do entusiamo reinante na cena. Algo que contagia e nos faz querer arregaçar as mangas para ajudar. Faria isso certamente, se não estivesse longe de casa, com boas dezenas de quilômetros para percorrer. Perguntei para o líder deles qual era o nome daquele bairro rural.

- Bairro dos Leais.

Eles não foram ao encontro de carros antigos de Águas de Lindóia.
Eles não foram ao encontro de carros antigos de Águas de Lindóia.

Nem tudo é decadência, portanto. Algo importante está em reconstrução. O Bairro dos Leais, em Serra Negra, é um retrato do Brasil.

* Jean Tosetto é arquiteto desde 1999 e editor do site mplafer.net desde 2001. É também autor do livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” - lançado em 2012.

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