Site do MP Lafer completa 15 anos

Site mplafer.net no ar desde 15 de agosto de 2001


No dia 15 de agosto de 2001 as torres gêmeas de Nova Iorque ainda estavam de pé. Não havia Facebook, Twitter e Whatsapp. As pessoas não caçavam monstros virtuais com seus aparelhos móveis de telefone celular. E não havia muita informação disponível na Internet sobre o MP Lafer - modelo brasileiro esportivo de linhas clássicas. A rede mundial ainda estava engatinhando e foi neste contexto que surgiu a página mplafer.hpg.com.br - que se tornaria mplafer.net em 21 de abril de 2003.

Na ocasião, não imaginávamos que seríamos adotados pelo Clube MP Lafer Brasil. Sequer cogitávamos entrar em contato com Percival Lafer, criador do modelo, para publicar uma entrevista que de certo modo foi o embrião do livro "MP Lafer: a recriação de um ícone" lançado em 01 de dezembro de 2012.

O tempo passou rápido demais. Através do site mplafer.net conhecemos centenas de pessoas que compartilham do mesmo entusiasmo sobre um carro dono de um carisma capaz de vencer décadas sem esmorecer. Não citaremos um nome para não ser injusto com aqueles que ficariam de fora da interminável lista de amigos e colaboradores do site.

Vamos renovar o desejo de continuar por mais 15 anos pesquisando novos conteúdos, respondendo emails, participando dos eventos relacionados ao MP Lafer, entre outras satisfações. Sentimos um grande prazer sempre que atualizamos a página, que agora já é uma debutante na sociedade.

Saudações sempre cordiais,

Jean Tosetto

Carro tem anjo da guarda?

O MP Lafer vermelho, velho de guerra, diante de casebres na roça.
O MP Lafer vermelho, velho de guerra, diante de casebres na roça.

Por Jean Tosetto *

No dia 8 de setembro de 2015 uma tempestade de proporções históricas varreu a região de Campinas, no interior de São Paulo. Paulínia foi uma das cidades mais prejudicadas, onde um galpão industrial simplesmente virou ruínas, com sua cobertura metálica ficando toda retorcida, bloqueando metade de uma avenida.

Postes de concreto foram dobrados na base, como se um cortador de grama gigantesco tivesse passado por ali. Muros extensos de alvenaria, no Bairro João Aranha, foram para o chão, como se o Lobo Mau tivesse soprado a casa de palha do irmãozinho preguiçoso.

Ali perto, na chácara de meus pais, onde meu MP Lafer fica estacionado numa garagem junto ao muro de divisa, o vizinho do lado de lá teve o seu rancho todo destelhado. Nenhuma lasca caiu sobre meu carro.

Vendo a destruição pela cidade, deu a impressão de que as rajadas impetuosas de vento desviaram do meu xodó. A poucos metros dele a torre metálica da antena da casa entortou a ponto de tombar.

Hoje meu carro poderia estar embaixo de escombros, assim como o meu astral. Eu teria ficado desolado caso isso tivesse acontecido.

Felizmente pude colocá-lo na estrada, em direção à zona rural de Americana. Estacionei o conversível sob a copa de uma árvore, perto de uma antiga vila de colonos, agora ocupada por famílias humildes.

Dei graças por eles também terem sido preservados. Eles teriam perdido o pouco que possuem, caso o vulgo tornado tivesse deixado seu rastro por lá. E então aquela tristeza que eu teria, se perdesse meu calhambeque, não faria sentido algum.

Com as mãos no volante, perguntei se meu querido MP Lafer tem um anjo da guarda, pois personalidade parece que ele tem. Ocorre que essa pergunta não cabe. Se existem anjos da guarda, a prioridade deles é resguardar as pessoas.

E naquela vila de casebres centenários, com fachadas de tijolinhos de barro, muitas pessoas foram bem amparadas. O Lobo Mau passou por ali e não conseguiu derrubar casinha alguma.

Não é fabuloso?

* Publicado originalmente no Facebook em 13 de setembro de 2015.

Veja também:


Galeria 2016: Nascimento


Este MP Lafer Ti 1979 tem muita história para contar.
Este MP Lafer Ti 1979 tem muita história para contar.

MP LAFER TI 1979: CARRO DE REVISTA E PROGRAMA DE TV

Mensagem recebida em 30 de maio de 2016:

"Boa tarde, Jean

Meu nome é Eliel, acabo de comprar uma história em forma de carro. Um MP Lafer Ti 1979. Sou natural da capital de São Paulo, nasci em junho de 1959, no Hospital Cristo Rei no bairro do Tatuapé.

Quando jovem, tive o privilégio de compartilhar com meu irmão um MP Lafer 1981, branco perolizado, com vidros elétricos. O carro era novo, então imagina o impacto de andar com ele naqueles tempos.

Há quatro anos mudei de São Paulo para Blumenau, em Santa Catarina. Trabalho com tratamento de efluentes têxteis. Simplificando: eu limpo água para ser devolvida à natureza com qualidade acima dos padrões da nossa legislação.

E tudo começou assim.

Conheci um inglês de nome David, um engenheiro que trabalhava aqui em Santa Catarina na área de petróleo. Por conta do desmando e roubalheira que aconteceu na Petrobras, ele foi forçado a regressar ao seu país de origem. Então comprei dele um Fusca Itamar ano 1994.

David um jovem aventureiro: veio de moto do Canada até o Brasil. Em Manaus (Amazonas) encontrou Teresa, sua mulher, e foi morar no Rio de Janeiro. Se tornou torcedor do Flamengo, comprou um violão e, para completar a historia, comprou o Fusca.

Ele veio rodando com o Fusca do Rio de janeiro até Navegantes, em Santa Catarina, onde passou a residir próximo ao mar e descuidou do veículo. O carro estava queimado do sol e com motor travado. Ele me vendeu o carro por um preço baixo o suficiente para pagar a passagem aérea de um cachorro de estimação.

Levar o animalzinho para Londres foi caro. Pintei o teto do Fusca e arrumei o motor. Tentei vender o Fusca, mas não tive comprador disposto a pagar pelo carro, então fiz o contrário: troquei o Fusca por uma Kombi 1974.

Fiquei feliz. A Kombi era maravilhosa, comprei a distância só por fotos. Pensei: "me livrei de um carro com ferrugem e tenho uma Kombi maravilhosa". Bem, descobri que a Kombi também sofria do mesmo mal - carro de surfista corroído pela maresia. Tentei arrumar algumas coisas, mas fui desaconselhado a prosseguir com a reforma total.

Meu problema continuava: tinha que encontrar algum carro que eu gostasse e com certeza sem problemas de ferrugem. Imagine, lembrei do MP Lafer construído em fibra e comecei a procurar um. Encontrei em Itu, interior de São Paulo. Então fiz o mesmo: ofereci a Kombi mais a diferença em dinheiro.

A Kombi eu enviei na plataforma fechada. Quando a Kombi chegou em Itu, o dono do MP Lafer descobriu mais problemas do que eu tinha relatado e realmente eu não tinha conhecimento. Resultado: tive que oferecer mais dinheiro para concluir o negócio. A Kombi foi entregue quinta feira passada em Itu. O MP Lafer Ti vou receber somente hoje de noite.

Neste tempo (dias) comecei a pesquisar a história deste MP Lafer Ti 1979. Além de ser matéria da Revista Quatro Rodas e da Revista Fusca, descobri que o carro foi matéria do programa da Rede Globo, Auto Esporte. O MP Lafer ti 1979 era cor verde escuro na época do programa, depois foi trocado pela cor para verde claro e permanece com esta cor atualmente. Quero - e vou - adquirir a revista como esse MP Lafer.

Confesso que fiquei fora do contexto dos carros antigos até me mudar para Santa Catarina, então comprei um Fusca ano 1971 em São Paulo e reformei o carro. Há dois anos venho construindo o "The Best", até revestimento em fibra de carbono eu fiz. Importei a fibra e revesti para-choques e muito mais, o carro ainda esta na metade do projeto.

Neste universo eu encontrei uma velha paixão, o MP Lafer. Seu feito em resgatar a historia deste carro é incrível, eu trabalhei em São Bernardo do Campo e conheci a Lafer. Quis dividir esta história com você, que tem uma obra e paixão, eu assisti o vídeo onde você narra sua história com o MP Lafer desde a infância.

Parabéns, Jean Tosetto.

Eliel Nascimento"

De Itu para Blumenau: a nova casa do MP Lafer Ti, agora de posse do Nascimento.
De Itu para Blumenau: a nova casa do MP Lafer Ti, agora de posse do Nascimento.

Nossa resposta, no mesmo dia:

"Caro Eliel, parabéns pelo relato e pelo MP Lafer Ti adquirido. Esse carro era do Nelson Porto na época da reportagem no Auto Esporte. Trata-se de um exemplar único. Tomarei a liberdade de publicar sua colaboração no site do MP Lafer. Quando o carro chegar, envie novas imagens!"

O MP Lafer Ti chegou ainda naquela noite:

"Boa noite, Jean. Feliz pela sua atenção. Troquei a bateria, por uma nova e mais potente.
Amanhã vou poder cuidar do carro e poderei ver melhor. Estou parecendo um menino, com brinquedo novo. Muito show."

Bateria nova para recarregar o ânimo também do motorista do conversível.
Bateria nova para recarregar o ânimo também do motorista do conversível.

Na manhã seguinte:

"Caro Eliel, bom dia! Parabéns pelo seu MP Lafer Ti! Pelas imagens o carro parece estar bem conservado. Nos primeiros dias você vai reconhecê-lo, pegar as manhas e descobrir um ou outro item para ajustar. Curta bastante seu novo conversível!"

O Eliel encomendou dois exemplares do livro "MP Lafer: a recriação de um ícone". Quando eles chegaram ao destinatário, no dia 07 de junho de 2016, tivemos o seguinte retorno;

"Bom dia, Jean. Recebi os livros de devo confessar minha empolgação. Agradeço cada palavra escrita na dedicatória, a narrativa da história deste carro é fantástica. Obrigado pelas informações.
Tenho agora o privilégio e o dever de cuidar com muito carinho deste MP Lafer Ti. Parabéns.

Anualmente é realizado o encontro de Fuscas e derivados aqui em Blumenau, o Sul Brasileiro.
Este ano eu levei o "The Best" (Fusca 1971) mais a Kombi que entrou como parte de pagamento do Lafer.

Seria uma honra receber você neste evento com 18 mil m² totalmente cobertos. Creio que venderia muitos livros e poderia divulgar seu brilhante trabalho. O evento é realizado no pavilhão onde se realiza a Oktoberfest."

Ao que finalmente respondemos, no dia seguinte:

"Fico feliz que tenha apreciado o livro. Espero que a leitura seja muito prazerosa. Agradeço o convite para o encontro de Blumenau, onde o livro do MP Lafer já tem um representante de vendas, o Horacio Zabala, da Espaço MotorMachine. Foi ele que agenciou a gráfica (Gandrei) do livro, que fica em Indaial. Grande abraço!"

O retorno do Eliel, em 31 de julho de 2016:

"Boa tarde, Jean. Ao ler a sua publicação e, ao final, ver a narrativa do Sr. Gilberto Martines, fiquei muito feliz.

Fiz uma revisão completa no carro, percebi que o escapamento estava vazando gás. Tinha uma corrosão na bengala de saída, então ao remover a peça notei que tinha duplo abafador. Não tive dúvidas: troquei por peças novas e mantive a configuração do escape que faz um lindo ronco abafado.

Outra particularidade: os pneus do carro tem a data de fabricação de abril de 1994. Estão no carro há 22 anos e pretendo mantê-los, pois uso o carro esporadicamente num pequeno percurso, para mantê-lo em atividade.

Este MP Lafer Ti é com certeza uma história a parte, rica e documentada. Por ter participado de eventos em TV, revistas e tudo documentado pode gerar um capítulo à parte, escrito por você, Jean.

Ao querido Gilberto meus sinceros agradecimentos por representar mais um elo da rica história deste automóvel. Abraço a todos."

Recomendamos a troca do pneu, sempre que este ultrapassar os cinco anos de fabricação, independentemente de seu estado de conservação. Após tal prazo, nenhum pneu oferece segurança regulamentar, mesmo para uso ocasional.

No mais, o site mplafer.net existe para isso mesmo: contar histórias - de carros e de pessoas!


Imagem enviada junto com o respaldo do Eliel.
Imagem enviada junto com o respaldo do Eliel.

Veja também:

MP Lafer no programa Auto Esporte
O Lafer TI na subida do Pico do Jaraguá
Galeria 2013: Aleixo

Galeria 2016: Coito

Um homem diante de seu carro favorito vira um garoto.
Um homem diante de seu carro favorito vira um garoto.

Todo passeio do Clube MP Lafer Brasil rende imagens que merecem o registro aqui no site mplafer.net - são tantas que não dá para publicar todas de uma vez. Então, aos poucos, vamos dando o devido destaque para as mesmas.

Por exemplo? Flagramos o Milton Coito, vulgo Jabá, diante de seu MP Lafer 1986 antes da largada para o passeio até Holambra, no dia 16 de abril de 2016. Agora que quase todos carregam em seus telefones celulares verdadeiros computadores com câmeras fotográficas acopladas, estamos testemunhando o nascimento de novos costumes relacionados com a tecnologia.

Chegamos mais perto para ver o que ele estava registrando: era o motor de seu carro. Uma olhada mais para baixo e vimos o motivo de sua satisfação: uma plaqueta da oficina de restauração especializada em MP Lafer, comandada pelo Toninho em São Bernardo do Campo, afixada perto da trava da tampa do compartimento.

O detalhe próximo à trava da tampa do motor explica parte da beleza deste MP Lafer.
O detalhe próximo à trava da tampa do motor explica parte da beleza deste MP Lafer.

Veja também:

20º Passeio do MP Lafer - Holambra 2016
Campos do Jordão 2011: uma família laferista
Toninho - Restaurador de MPs

A saudade também viaja de carro

Um MP Lafer estacionado diante de um moinho.
Um MP Lafer estacionado diante de um moinho.

Por Jean Tosetto *

As vezes estou sozinho, dirigindo meu carro, e tenho a impressão de que estou acompanhado. Você está do meu lado, como nos velhos tempos. Sei que para manter esta sensação não posso lhe contar sobre coisas importantes, pois elas me lembram que você se foi para sempre.

Então falo sobre coisas aparentemente corriqueiras, enquanto troco as marchas e vou separando as moedas para pagar o pedágio. Hoje te contei que levei minha filha ao circo pela primeira vez.

Quando o homem voador circulou o picadeiro pelos ares, pendurado numa corda elástica, ela sorriu feito alguém que não sabe conter a felicidade, com seus olhos brilhando como se tivesse feito uma grande descoberta.

O vendedor ambulante apareceu com uma pistola de plástico, que atira bolhas coloridas por um efeito luminoso. Ela encheu a minha cara com essas bolhas e fingi que fui atingido, caindo de lado. Ela gargalhou e, se eu soubesse que isso era tão bom, teria me casado bem antes.

Será que a minha esposa se daria bem com você? Que pergunta tola. Você sempre se deu bem com todo mundo. Acho que a sua patroa é que teria algumas rusgas com a cunhada, de vez em quando, pois casamos com duas mulheres de personalidade forte. Também sinto falta dela.

Segura aí que eu vou descer para a terceira no câmbio, para nós subirmos essa encosta. Sinta o cheiro dos eucaliptos... Aproveite, pois vão derrubar todos em breve, ou tocar fogo neles. Sempre que passo por aqui vejo menos árvores.

Olhá lá, estamos chegando no moinho. Milagre: hoje ele está funcionando. O som das rajadas de vento movendo as pás é sublime. É o som do tempo passando, vencendo o atrito das peças de madeira.

Vamos abaixar a capota. Depois de tantos anos ainda curto os acenos das pessoas nas calçadas. As crianças apontam o dedo para o carro. Sei que os sorrisos não são para mim, mas surfo pela energia positiva emanada em nossa direção.

Quer dirigir um pouco?

E aquela doce impressão vai embora com o vento. Não há uma construção engenhosa para segurá-la no chão. Gostaria de criar um moinho de vento que pudesse moer a a saudade que sinto de você, meu querido irmão.

* Publicado originalmente no Facebook em 18 de outubro de 2015.

Veja também:

Galeria 2016: Gonçalves

Fotografia digna de um álbum de família.
Fotografia digna de um álbum de família.

TRÊS MARCOS E UM MP LAFER

No dia 16 de abril de 2016 o Clube MP Lafer Brasil reuniu dezenas de carros no começo da Rodovia dos Bandeirantes em São Paulo, para a largada do passeio até Holambra.

Neste dia tivemos a oportunidade de fotografar três gerações da mesma família em torno de um MP Lafer, representadas por Marcos Aurélio Gonçalves (de boné), Marcos Aurélio Gonçalves Junior (de óculos escuros) e  Marcos Aurélio Gonçalves Neto (sentado ao volante). Eles vivem em Itaquá, ao lado de Arujá, pertinho da capital do estado.

Um belo testemunho de que a paixão pelo MP Lafer passa de pai para filho e promete se estender pelas gerações futuras.

Veja também:

20º Passeio do MP Lafer - Holambra 2016
Clube MP Lafer Brasil
Uma crônica napolitana

O último domingo do outono

A sombra da cerca viva se alinha com o friso central do capô do MP Lafer.
A sombra da cerca viva se alinha com o friso central do capô do MP Lafer.

O calendário de festividades do mundo moderno se apóia em tradições religiosas adaptadas pela lógica capitalista, especialmente nos países que adotam a cultura ocidental. Na Europa e nas Américas se comemora o Natal e a Páscoa, por exemplo. No Oriente Médio e em boa parte da África, o Ramadã é a principal época do ano.

Mas na antiguidade, quando os povos não conheciam Moisés, Jesus Cristo e Maomé, as pessoas prestavam mais atenção nas estrelas. Solstícios e equinócios eram as datas mais comemoradas ao longo do ano, pelas sociedades que seguiam o calendário solar. No Hemisfério Sul, o solstício de inverno representa o dia mais curto do ano, ao passo que no Hemisfério Norte temos o solstício de verão, com o dia mais longo acima da Linha do Equador. Nos equinócios, os dias tem a mesma duração nos dois hemisférios.

A essa altura você deve estar perguntando: "o que isso tem a ver com o site do MP Lafer?"

Calma, eu respondo. Caiu no meu ouvido que teremos o solstício de inverno no dia 20 de junho de 2016, numa segunda-feira. O que significa que hoje, quando escrevo estas linhas, é o último domingo do outono. Em memória de nossos antepassados, mas sem desrespeitar os religiosos, eu tinha que comemorar de alguma forma. Para tanto, escolhi fazer um passeio de MP Lafer, com a capota reclinada.

Nesse ano os brasileiros que vivem nas regiões sul e sudeste tiveram um outono diferente, com a chegada antecipada do frio. Um onda de ar polar fez a temperatura cair bem mais do que o normal e pude sentir isso com o aumento da minha pressão arterial. Meus amigos, envelhecer é uma droga, e estou relutando em depender delas para controlar minha pressão. Ainda sou moleque, só tenho 40 anos.

Mas hoje o dia estava ideal para guiar um MP Lafer. Frio sim, mas suportável. Logo que engato a primeira marcha, meu pensamento vai direto para a zona rural da cidade. A estrada estava quase deserta, esperando por mim.

O sol não chegava a provocar calor, mas não me deixava sentir frio, como dentro de casa. Poucas vezes senti uma sensação de equilíbrio térmico tão agradável nos últimos anos. No verão a gente fica suado quando dirige com a capota abaixada, e no pico do inverno é quase impossível não ranger os dentes nestas condições.

A blusa de lã repousa diretamente sobre a pele dos braços, deixando os raios de sol penetrarem nas pequenas frestas do tecido. Porém, não tive vontade de arregaçar as mangas. Nas trocas das marchas na ascendência da velocidade, tudo se compensava.

Quando atingi o que chamo de tobogã - uma longa reta em declive, com curvas de nível ligeiramente aplainadas - tive um caso de paixão com as árvores na margem da pista. Elas faziam sombras sobre nós - eu e o MP. No entanto, seus galhos vazavam as luzes outonais do sol. Um estímulo idílico para as retinas.

Se aquela estrada me levasse para a Patagônia, na Argentina, eu poderia dirigir o dia inteiro. E a noite também. Me ocorreu que aquele jogo de luzes e sombras era uma metáfora para a vida: os momentos felizes são valorizados por causa dos momentos que não são  necessariamente tristes, mas lembrados pela ausência de felicidade. E felicidade é um domingo de sol a bordo de um MP Lafer.

A curva chega e tento contorná-la sem frear. Desço de quarta para terceira marcha e deixo o motor nos segurar, enquanto seguro firme no volante de madeira do carro, ainda mais caramelizado com os reflexos da tarde, como se um editor de imagens aplicasse um filtro cor de uísque em tempo real.

Queria mesmo que esse passeio se transformasse numa viagem sem fim, impedindo com isso a chegada do inverno.

O que me fez mudar de ideia foi a saudade repentina que bateu da mulher amada. E compreendi que toda viagem que tem como destino os braços de uma mulher vale a pena ser empreendida.

Faço o "cul-de-sac" em segunda marcha, cruzando os braços diante do volante, sem tirar as mãos dele. Minha cabeça se inclina quase para fora do campo de proteção do para-brisa, e tomo o rumo de volta para casa.

O inverno vai chegar, sim. Mas depois vem a primavera. As estações do ano não deixam de ser um jogo de luzes e sombras na beira do caminho, que nos estimulam a viver a vida em sua plenitude.

Se você não olhar para as estrelas, de vez em quando, o que acabo de escrever não fará sentido. O último domingo deste outono me ensinou isso.

Saudações cordiais,
Jean Tosetto

Veja também: