São Lourenço, os carros fora de série e uma viagem que ficou na memória

O MP Lafer marcou presença com duas unidades no Encontro Mineiro de Veículos Antigos em São Lourenço.
O MP Lafer marcou presença com duas unidades no Encontro Mineiro de Veículos Antigos em São Lourenço.

Uma viagem a São Lourenço para participar do Encontro Mineiro de Veículos Antigos acabou se transformando em algo maior: uma reflexão sobre memória, idealismo, criatividade e o valor de preservar histórias que poderiam desaparecer. Entre automóveis raros, personagens pioneiros, palestras improvisadas e encontros inesperados, o verdadeiro patrimônio desta jornada não estava apenas nos carros expostos, mas nas pessoas, nas lembranças e no entusiasmo que ainda nos move a fazer aquilo de que gostamos.

Por Jean Tosetto

O entusiasmo pelos carros antigos deixou de ser uma atividade restrita a alguns colecionadores. Em muitas cidades brasileiras, ele se transformou também em uma forma de promover o turismo. A cada fim de semana, há dois ou três encontros de veículos antigos acontecendo, muitas vezes na mesma região, disputando a atenção de proprietários, colecionadores, turistas e simplesmente curiosos que querem ver carros diferentes.

Essa multiplicação de eventos criou uma espécie de competição informal pela relevância. Como fazer um encontro de carros antigos ser mais do que apenas uma exposição? Como criar uma identidade capaz de atrair pessoas e, principalmente, fazer com que elas tenham vontade de voltar?

O Lobini H1 é um carro esportivo brasileiro feito à mão, criado por José Orlando Lobo e Fábio Birolini. Produzido entre 2005 e 2013, foram feitas apenas 42 unidades.
O Lobini H1 é um esportivo feito à mão, criado por José Orlando Lobo e Fábio Birolini. Produzido entre 2005 e 2013, foram feitas apenas 42 unidades.

São Lourenço, no sul de Minas Gerais, parece ter encontrado uma resposta interessante. Localizada em meio à Serra da Mantiqueira e conhecida por suas águas minerais, a cidade decidiu se inserir nesse circuito de grandes encontros. Para isso, a prefeitura contou com colecionadores de Carmo da Mata e Campanha, entre eles André Cavalcante, para organizar uma edição que pudesse ser memorável e, mais importante, tivesse continuidade.

A ideia de dar uma temática ao Encontro Mineiro de Veículos Antigos foi particularmente feliz. Em 2026, a escolha recaiu sobre os carros brasileiros fora de série produzidos entre os anos 1960 e o começo dos anos 2000. Foi uma escolha promissora. E André Cavalcante levou a proposta a sério.

Ele conseguiu reunir em São Lourenço pessoas que jamais haviam se encontrado, mas que ocupam lugares importantes na história do automobilismo brasileiro. Giuseppe Russo, idealizador do Farus; José Orlando Lobo e Fábio Birolini, criadores do Lobini; Ricardo Gurgel, sobrinho de João Augusto Conrado do Amaral Gurgel; Newton Masteguin, filho de um dos fundadores da Puma Veículos e responsável pela Chamonix desde 1987, entre outros.

A réplica do Porsche 356 fabricada artesanalmente - com esmero - pela Chamonix.
A réplica do Porsche 356 fabricada artesanalmente - com esmero - pela Chamonix.

No caso do MP Lafer, André tentou levar Percival Lafer, mas o empresário não pôde comparecer. Como alternativa, ele me convidou para fazer uma palestra sobre a história do MP Lafer, assunto sobre o qual escrevi o livro MP Lafer: a recriação de um ícone.

A princípio, considerei São Lourenço longe demais para uma viagem de fim de semana. Saindo de Paulínia pela Fernão Dias, seriam pelo menos 330 quilômetros. Pela Dutra, cerca de 380. Depois descobri que a cidade fica aproximadamente 90 quilômetros distante das duas principais rodovias da região. Era longe, portanto. Mas a forma do convite e a proposta do encontro me convenceram.

O André queria que eu levasse meu MP Lafer. Eu, porém, argumentei que o carro comporta apenas duas pessoas e que gostaria de levar minha esposa e minha filha, de 13 anos. Ela precisava acumular boas memórias — e nós três nunca havíamos estado em São Lourenço. O André compreendeu.

Acabamos viajando no dia 14 de agosto, uma sexta-feira, para passar o sábado no encontro, fazer minha palestra à noite e retornar no domingo. E aqui preciso registrar a generosidade da cidade: o Hotel Londres gentilmente nos ofereceu a hospedagem.

O Hotel Londres fica no centro turístico de São Lourenço.
O Hotel Londres fica no centro turístico de São Lourenço.

A viagem já fazia parte da experiência. Passamos por estradas que nunca havíamos percorrido, por cidades como Lambari e Borda da Mata, admirando aquelas montanhas de Minas Gerais que inspiraram tantos poetas. Também constatamos algo que precisa ser dito: muitas rodovias mineiras ainda são simples demais para a importância que o estado possui. Faltam acostamentos, sinalização e, em alguns trechos, melhores condições de segurança. Em vários municípios, a estrada simplesmente atravessa o centro urbano, em vez de contorná-lo. Mas, quando não se está com pressa, há uma beleza particular nisso. A viagem se torna mais lenta e, justamente por isso, mais prazerosa.

Chegamos ao Hotel Londres, um estabelecimento simples e antigo, mas onde fomos recebidos com uma atenção que merece ser mencionada. O pessoal da recepção nos tratou como se já nos conhecesse havia muito tempo. Explicavam tudo com paciência, indicavam os lugares e pareciam genuinamente interessados em nossa estadia.

O boulevard de São Lourenço: menos carros, mais verde e mais espaço para as pessoas.
O boulevard de São Lourenço: menos carros, mais verde e mais espaço para as pessoas.

O hotel ficava a poucas quadras da Praça João Lage. Para chegar até lá, atravessávamos um boulevard onde bancos de madeira ocupavam antigos espaços destinados aos automóveis. Havia uma faixa central para os carros e, logo adiante, o calçadão. Foi ali que conhecemos o Pedro, um senhor que nos abordou para oferecer uma mesa em um restaurante próximo. Eu disse que voltaríamos. Voltamos mesmo — nos dois dias. A pizza era muito boa. Em Minas Gerais, contudo, vale a pena reservar pelo menos o almoço para experimentar a culinária local. Também fizemos isso.

O calçadão de São Lourenço é repleto de cafés e restaurantes, onde as pessoas fazem suas refeições ao ar livre, numa atmosfera descontraída.
O calçadão de São Lourenço é repleto de cafés e restaurantes, onde as pessoas fazem suas refeições ao ar livre, numa atmosfera descontraída.

Uma exposição improvável

Quando finalmente entrei no recinto do encontro, fiquei impressionado. Não apenas pela quantidade, mas pela qualidade e pela raridade dos automóveis. Dois grandes colecionadores do estado de São Paulo haviam levado seus carros para São Lourenço. A Garage Brazil transportou cerca de 20 veículos, enquanto o Dream Car, de São Roque, também cedeu alguns exemplares para a exposição.

Entre eles estava um Hofstetter que, salvo engano, teve apenas 17 unidades produzidas. É o tipo de automóvel que provavelmente muitas pessoas jamais haviam visto pessoalmente — e talvez nunca mais tenham oportunidade de ver novamente em um encontro. Por isso, é preciso reconhecer a generosidade de quem possui recursos para preservar esses automóveis e, sobretudo, disposição para colocá-los à disposição do público.

Hofstetter: o carro do filme "De Volta para o Futuro" para uns; importado para muitos; devidamente admirado por todos.
Hofstetter: o carro do filme "De Volta para o Futuro" para uns; importado para muitos; devidamente admirado por todos.

A Garage Brazil organizou duas cegonheiras para transportar seus veículos. Não levou apenas o MP Lafer amarelo, extremamente original. Levou também um Adamo, exemplares da Miura, modelos da Puma, um Chamonix, um Gurgel e o Centauro, baseado no Ford Maverick, entre outros. Eu nunca havia visto um Centauro diante de mim. E se não voltar à Garagem Brasil, em Alphaville, provavelmente não o verei novamente.

Centauro: tão estranho e robusto quanto raro.
Centauro: tão estranho e robusto quanto raro.

Havia algo curioso acontecendo entre os visitantes. Muitas pessoas passavam pelos automóveis acreditando que fossem importados. Quando eu dizia que determinado carro havia sido fabricado no Brasil, algumas simplesmente não acreditavam. Como era possível que o Brasil dos anos 1970 produzisse automóveis tão interessantes? A pergunta é legítima.

A Garagem Brasil levou ainda três exemplares do Farus: o ML 929, o Cabriolet e o Quadro. Foi nesse momento que encontrei Giuseppe Russo caminhando sozinho pelo evento. Aos 76 anos, ele não aparentava ser o homem que idealizou um automóvel que chegou a vender mais de 1.200 unidades. Era atencioso, acessível e disposto a conversar informalmente com quem se aproximasse. Talvez essa seja uma das grandes riquezas de um encontro como aquele: por alguns minutos, a história deixa de estar nos livros e passa a caminhar entre nós.

Jean Tosetto (quem?) e Giuseppe Russo diante de um Farus ML 929, desenvolvido no final da década de 1970.
Jean Tosetto (quem?) e Giuseppe Russo diante de um Farus ML 929, desenvolvido no final da década de 1970.

O evento também recebeu uma etapa do Rally de Regularidade de Minas Gerais. Alguns carros que estavam em exposição participaram da prova. Era uma demonstração prática de que automóvel antigo não precisa ser tratado como peça de museu. Ele pode — e deve, quando possível — continuar rodando.

Um L'Automobile Ventura durante a largada do Rally de Regularidade de Minas Gerais.
Um L'Automobile Ventura durante a largada do Rally de Regularidade de Minas Gerais.

Na entrada, dois carros chamavam particularmente a atenção: o Concorde, ainda pertencente à família de seu criador, e o Brasinca Uirapuru, que pertencia ao próprio André Cavalcante. Pouco mais de 70 unidades do Uirapuru teriam sido produzidas, e pouquíssimas ainda circulam. A unidade de André estava impecável.

O Concorde, comemorando 50 anos de lançamento, e o Brasinca Uirapuru na tenda mais nobre do Encontro Mineiro de Veículos Antigos de 2026.
O Concorde, comemorando 50 anos de lançamento, e o Brasinca Uirapuru na tenda mais nobre do Encontro Mineiro de Veículos Antigos de 2026.

Havia também o menor automóvel do encontro em dimensões, mas talvez um dos maiores em capacidade de despertar curiosidade: uma Romi-Isetta de 1956. Ela atraía crianças e idosos com a mesma facilidade.

Romi-Isetta 1956, fabricado em Santa Bárbara d"Oeste, no interior de São Paulo.
Romi-Isetta 1956, fabricado em Santa Bárbara d'Oeste, no interior de São Paulo.

São Lourenço além dos automóveis

O clima ajudou. O fim de semana não estava quente demais nem frio demais. Havia sol, uma brisa leve e aquela temperatura agradável que convida a caminhar. No sábado à tarde, chegou a chover um pouco, mas nada capaz de esfriar o entusiasmo.

Entre uma fotografia e outra, caminhávamos pelos carros, voltávamos ao calçadão para comer alguma coisa e descobríamos vielas, becos e pequenas lojas charmosas. São Lourenço não tem um grande shopping center, mas possui um centro comercial diversificado e bastante vivo.

Também visitamos o Mercado Municipal. Ali, a experiência é quase sinestésica. Temperos, ervas, couro, bebidas, frutas e legumes disputam espaço nas bancas. Cores e cheiros se misturam enquanto as pessoas circulam. E há algo especialmente interessante nisso: não é um lugar construído para turistas. É um lugar autêntico, feito para os próprios moradores.

Além do mais, conhecemos o Parque das Águas, com suas fontes de águas minerais de diferentes características, o balneário e um paisagismo exuberante. É um lugar que merece ser visitado mesmo quando não há carros antigos na cidade.

Caminhar pelo Parque das Águas de São Lourenço é como encontrar um momento de paz e serenidade.
Caminhar pelo Parque das Águas de São Lourenço é como encontrar um momento de paz e serenidade.

Outra atração obrigatória é o Trem das Águas, que parte da antiga estação ferroviária e segue até Soledade de Minas. O passeio dura pouco mais de duas horas e é realizado por uma Maria Fumaça de 1927.

A cidade foi, portanto, muito além do encontro. Conversando com comerciantes, funcionários do hotel e moradores, comecei a enxergar São Lourenço sob outra perspectiva. É uma cidade interessante para turistas e pode ser especialmente atraente para quem já possui uma fonte de renda passiva e procura um lugar com custo de vida mais moderado. Para alguém jovem, no início de uma carreira profissional, a realidade pode ser diferente. Quem pretende ampliar rapidamente a renda e o patrimônio talvez precise buscar oportunidades em centros maiores. Para quem trabalha remotamente, porém, São Lourenço pode ser uma excelente alternativa.

Um encontro que ultrapassou os carros

Entre as pessoas que encontrei estava Lucas de Oliveira, professor de matemática em uma escola pública de Caxambu e também professor de uma escola particular de São Lourenço. Ele desenvolve um projeto de educação financeira que já foi premiado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais e que chegou a ser apresentado em Brasília. Seus alunos também conquistaram diversas medalhas em olimpíadas estudantis.

O que me aproximou dele foi ainda mais especial: o Lucas utiliza em seu projeto alguns dos livros que escrevo ou edito pela Suno. Como havíamos enviado uma coleção de livros para o projeto, avisei que estaria em São Lourenço. Ele generosamente foi ao encontro acompanhado de alguns alunos, entre 11 e 13 anos.

Os alunos do Professor Lucas já estão aprendendo sobre educação financeira e investimentos.
Os alunos do Professor Lucas já estão aprendendo sobre educação financeira e investimentos.

Pude dizer algumas palavras a eles. Não falei sobre dinheiro. Não falei sobre sucesso. Falei sobre uma vida digna e bem-aventurada. Disse que isso começa em casa, pelo respeito aos pais, e continua na escola, pelo respeito aos professores. Foi um momento pequeno dentro de um evento grande. Para mim, entretanto, só aquele encontro já teria feito a viagem valer a pena.

Quando a história toma o microfone

No entardecer de sábado, começou o ciclo de palestras com criadores, historiadores e autores ligados aos carros brasileiros fora de série. Eu era um deles. Outro era Juan Dierckx, que faria duas apresentações: uma sobre a Puma e outra sobre o Volkswagen SP2, modelo de produção limitada criado justamente para competir dentro desse universo de esportivos brasileiros.

A proposta era excelente. A execução poderia ter sido melhor. As palestras foram realizadas em uma tenda ao ar livre, ao lado dos carros. A poucos metros dali havia outra tenda, na praça de alimentação, com música ao vivo. Eu gosto de rock. Mas, pela primeira vez, fiquei desapontado ao ouvir rock ao vivo. O problema não era a música. Era a concorrência sonora.

No palco: Felipe Bitu, da Quatro Rodas, e Gerry Cunningham, o idealizador do Glaspac Cobra, conversam diante do bólido fabricado com carroceria de fibra de vidro e mecânica Ford.
No palco: Felipe Bitu, da Quatro Rodas, e Gerry Cunningham, o idealizador do Glaspac Cobra, conversam diante do bólido fabricado com carroceria de fibra de vidro e mecânica Ford.

Além disso, cada palestrante teria aproximadamente 15 minutos para falar. Os primeiros, porém, se estenderam por uma hora ou mais. Sem um moderador para controlar o tempo, o cronograma foi sendo comprometido. E havia poucas pessoas assistindo. Algo entre 25 e 30 espectadores. A cada palestra, algumas pessoas iam embora.

Houve apresentação que se transformou quase em um inventário. Em vez de contar de forma sintética a história de determinado automóvel, o palestrante mostrou fotografias de exemplares remanescentes, inclusive sucatas, e passou a mencionar proprietários, negociações e destinos dos carros. A sensação era de estar diante de um perito prestando depoimento. Quando terminou, ele foi embora. Não ficou para assistir aos demais.

A exceção honrosa foi a dupla José Orlando Lobo e Fábio Birolini. Os sobrenomes dos dois formam justamente o nome Lobini, um dos mais interessantes automóveis esportivos brasileiros. Um carro excepcionalmente bem projetado e construído, com qualidade que, na minha opinião, poderia ter encontrado espaço no mercado europeu. Eles apresentaram a história de maneira organizada, com slides progressivos, e permaneceram até o final do ciclo de palestras.

José Orlando Lobo e Fábio Birolini falam sobre a ousada experiência com o Lobini, esportivo brasileiro fabricado no começo do século 21.
José Orlando Lobo e Fábio Birolini falam sobre a ousada experiência com o Lobini, esportivo brasileiro fabricado no começo do século 21.

O tempo excessivo das primeiras palestras acabou prejudicando as seguintes. O Juan, que havia viajado de Botucatu — cerca de nove horas de estrada — acabou incorporado à apresentação de Newton Masteguin sobre a Chamonix, empresa que nasceu de um desmembramento da Puma. A palestra sobre o SP2 foi cortada. Lamentei por ele.

Família Puma: carros com motores da VW, GM e DKW. Muita história para ser contada. Pouco tempo restante.
Família Puma: carros com motores da VW, GM e DKW. Muita história para ser contada. Pouco tempo restante.

Mas não foi isso que estragou o fim de semana. Estamos apenas registrando o episódio porque críticas também podem ser uma forma de ajudar a melhorar um evento que tem muito potencial.

A minha palestra

Minha palestra sobre o MP Lafer seria a penúltima. Giuseppe Russo havia falado sobre o Farus sem slides, apenas com o microfone. Depois veio a apresentação sobre o Concorde, com familiares do criador e o autor do livro sobre o automóvel.

Eu havia preparado 12 slides para uma apresentação de aproximadamente 15 minutos. Um minuto por slide, mais introdução e conclusão. Convidei o Walter Martins Pereira Jr, do canal Quinta Marcha, para dividir comigo aquele momento. Não tenho vaidade de falar sozinho. O Walter é um entusiasta genuíno dos carros fora de série e fez ótimas colocações.

Walter Jr e Jean Tosetto (quem?) durante a breve palestra sobre o MP Lafer, em registro de Juan Dierckx.
Walter Jr e Jean Tosetto (quem?) durante a breve palestra sobre o MP Lafer, em registro de Juan Dierckx.

Eu sequer esperava usar slides. Mas, quando mencionei isso, pediram que eu entregasse o pendrive. O secretário de Turismo de São Lourenço acabou operando a mesa, pois a pessoa responsável havia saído para jantar e não retornara. Foi tudo bastante improvisado. Ainda assim, acho que a palestra funcionou.

Havia me preparado para contar uma história com começo, meio e fim. E, no final, resolvi colocar algo pessoal. Havia talvez dez pessoas assistindo. Mas falei como se fossem 1.500. Disse que aquele encontro merecia um auditório fechado e que as palestras deveriam ter sido gravadas em áudio e vídeo. Afinal, estávamos diante de um momento histórico: pessoas fundamentais para a história dos carros brasileiros fora de série estavam reunidas no mesmo lugar. Provavelmente aquilo nunca mais acontecerá daquela maneira. O que poderia ter sido um gol de placa acabou sendo uma bola murcha que bateu na trave. Mesmo assim, quem estava ali participou de algo que dificilmente se repetirá.

Encerrei minha participação de uma maneira que não estava nos slides. Disse que podemos ter muitas dúvidas na vida — sobre futebol, política, sobre os mistérios do universo. Mas que havia pelo menos uma dúvida que duas pessoas ali não poderiam ter. Olhei para minha filha, Carol, e para minha esposa, Renata. Elas não poderiam duvidar de que eu as amo. O público riu e aplaudiu. Foi uma maneira leve de terminar uma noite que, apesar dos problemas, tinha sido especial.

Gurgel e a elegância da memória

A última palestra foi de Ricardo Gurgel, sobrinho do João Gurgel. Ele contou a história do tio com a elegância de quem não está simplesmente transmitindo informações, mas tentando preservar a memória de alguém que considera importante.

João Gurgel foi um inventor extraordinário. Criou um carro elétrico ainda na década de 1970, quando o assunto estava muito longe de possuir a relevância que tem hoje. Enfrentou dificuldades para financiar suas ideias e construiu uma trajetória praticamente sem o apoio que grandes fabricantes tinham à disposição.

Também criou o projeto chamado Cena, sigla de Carro de Econômico Nacional. Porém a utilização do nome gerou uma disputa judicial com o piloto Ayrton Senna. Ricardo contou que, diante da questão envolvendo o nome, João Gurgel teria respondido com uma tirada que atravessou o tempo: mudaria o nome do carro para BR-800 — Brasil, 800 cm³ (capacidade do motor de combustão interna) —, mas lembraria ao piloto que o rio Sena já corria por Paris muito antes dele, Ayrton Senna, começar a correr e, naturalmente, antes mesmo de ele nascer.

O Gurgel Motomachine foi concebido no final dos anos 1980. Ao contrário dos demais automóveis brasileiros fora de série, não foi um modelo esportivo dos sonhos para poucos, mas veio com a proposta de ser um utilitário de fato.
O Gurgel Motomachine foi concebido no final dos anos 1980. Ao contrário dos demais automóveis brasileiros fora de série, não foi um modelo esportivo dos sonhos para poucos, mas veio com a proposta de ser um utilitário de fato.

Já era quase dez horas da noite. Estávamos ao relento, com frio e fome. Mas valeu cada segundo para quem permaneceu até o fim. Naquele momento, inclusive, pensei que talvez tivesse sido melhor Percival Lafer não ter comparecido. mesmo. Um homem de 90 anos não deveria precisar esperar horas para falar alguns minutos, ainda mais em condições desconfortáveis.

Uma pequena surpresa no fim da noite

Quando finalmente deixei o local e fui a caminho do restaurante do Pedro (ao lado da banca de jornais do calçadão), uma moradora de São Lourenço me abordou. Era uma das poucas pessoas da cidade que haviam permanecido até o final das palestras. Ela pediu para tirar uma selfie comigo porque havia gostado da apresentação sobre o MP Lafer. Também conversamos sobre os móveis Lafer, assunto que mencionei durante a palestra.

Ela me apresentou à mãe, uma senhora elegante, e perguntou o que faríamos no dia seguinte. Respondi que andaríamos no Trem das Águas. Ela aprovou imediatamente. Disse que minha filha iria gostar muito. Foi uma pequena cena, aparentemente sem importância. Mas é justamente dessas pequenas cenas que uma viagem acaba sendo feita. Não guardei o nome dela. Guardei, porém, a lembrança.

Vinte e cinco anos depois

O dia 15 de agosto de 2026 tinha ainda outro significado para mim. Naquela mesma data, o site MP Lafer — mplafer.net — completava 25 anos. Sim, fomos pioneiros da Internet. Quando criei o site, estava sozinho, no meu escritório de arquitetura. Era uma época em que manter uma página dedicada a uma marca de automóveis era quase uma excentricidade.

Vinte e cinco anos depois, naquele sábado à noite, cerca de dez ou doze pessoas compartilharam comigo a alegria de lembrar essa história. Ficamos no lucro. E talvez essa seja uma boa metáfora para todo o fim de semana.

A indústria brasileira de carros fora de série também nasceu de uma espécie de pioneirismo. A proibição das importações, nos anos 1970, abriu espaço para empreendedores criativos. Surgiram fabricantes pequenos, capazes de produzir automóveis originais em um país dominado pelas grandes montadoras.

Durante algum tempo, parecia que aquilo poderia prosperar indefinidamente. O Brasil havia vivido o chamado milagre econômico e carregava a velha promessa de ser o país do futuro. Mas o futuro não chegou exatamente como se imaginava. A hiperinflação dos anos 1980 atingiu duramente os pequenos fabricantes. Depois, a abertura das importações, no começo da década de 1990, encerrou boa parte dessas experiências.

Miuras em destaque: bravos esportivos fabricados no Rio Grande do Sul.
Miuras em destaque: bravos esportivos fabricados no Rio Grande do Sul.

Os carros sobreviveram. As empresas, em muitos casos, não. E há algo de simbólico nisso quando penso no próprio encontro de São Lourenço. A ideia era excelente. As pessoas certas estavam lá. Havia história, conhecimento, carros raríssimos e uma plateia interessada. Mas o resultado final ficou aquém do potencial. É uma crítica construtiva, não uma condenação.

Os organizadores fizeram o melhor que podiam com os recursos que tinham. O André Cavalcante reconheceu isso e afirmou que a próxima edição poderá ser melhor. Espero que seja. Porque os fabricantes que foram homenageados naquele fim de semana merecem.

O trem, a estrada e a volta para casa

No domingo de manhã, finalmente fizemos o passeio no Trem das Águas. Seguimos até Soledade de Minas e voltamos. Depois do almoço, pegamos a estrada. Na ida, havíamos usado a Fernão Dias. Na volta, escolhi a Dutra. Não foi a melhor decisão. Ao chegarmos à região de Aparecida, encontramos um congestionamento gigantesco. Paulistanos voltavam de Aparecida, do litoral norte e de Campos do Jordão ao mesmo tempo. A viagem que poderia durar cinco horas passou de oito.

Chegamos em casa à noite, fisicamente cansados. Mas mentalmente revigorados. E talvez essa seja a maior conclusão que tiro de São Lourenço. Há viagens que não precisam ser eficientes. Há programas que não precisam fazer sentido econômico. Há coisas que fazemos simplesmente porque gostamos. E isso tem valor.

Os fabricantes de carros fora de série fizeram isso. Foram movidos por idealismo, criatividade e paixão. Os organizadores do encontro fizeram algo parecido ao tentar reunir pessoas que carregam pedaços importantes dessa história.

Nós, que escrevemos livros, mantemos sites e registramos memórias, também somos movidos por uma espécie de entusiasmo. No fim das contas, talvez seja esse entusiasmo que nos mantém em movimento.

O trem de São Lourenço para Soledade de Minas: reserve com antecedência.
O trem de São Lourenço para Soledade de Minas: reserve com antecedência.

 São Lourenço me lembrou disso. E pretendo voltar. Não necessariamente para outro encontro de carros antigos. Talvez apenas para caminhar pelo calçadão, visitar novamente o Mercado Municipal, andar de trem com minha família e comer outra pizza no restaurante do Pedro.

Porque algumas viagens acabam quando voltamos para casa. Outras continuam. A história, afinal, continua.

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