Feliz Natal e Próspero 2023!

Quadro decorativo com imagem de automóvel em alto relevo.
Quadro decorativo com imagem de automóvel em alto relevo.

NATAL NO CIRCUITO DAS ÁGUAS

A empresa onde ele presta serviços comunicou férias coletivas, faltando alguns dias para o Natal. O corte na sua rotina atribulada o deixou com a sensação de ser um inútil. Nem tempo para programar uma viagem com a família ele teve. Agora, os principais destinos turísticos estão lotados e as vagas remanescentes estão muito caras. Mais um ano desse jeito e parece que ele não aprende.

- Precisamos sair para comprar os presentes - ele disse para a esposa.

- De que jeito? - Ela respondeu. A filha deles estava com uma febre intermitente que não passava há alguns dias. Nada nos exames de urina e sangue. Nada nos pulmões. Uma virose, para variar. Criança em idade escolar é assim mesmo.

- Então deixa que eu faço isso. Preciso colocar o carro velho para rodar.

Carro velho, sim, um calhambeque com a pintura craquelada, os cromados ficando opacos e as rodas precisando de um polimento. Mas a mecânica está em dia. O câmbio e as suspensões também. Então, ele abre o capô e gira a chave geral da bateria para baixo, até dar contato. Depois se acomoda no banco de courvin, dá três bombadas no pedal do acelerador. Solta o freio de mão. Desce do carro e empurra ele um palmo para trás, para destravar as rodas e acordar o platinado. Volta. Gira a chave do painel com o pé embaixo. O motor pega de primeira, mas dá uma tossida, uma pigarreada. Nada que umas bombadas no acelerador não resolva. Subitamente, o motor se enche de gás e solta seu ronco sem piedade. Ele olha pelo retrovisor e percebe que o portão ainda está fechado. Aperta o botão do controle remoto. A cortina metálica da sua casa se abre e começa o espetáculo.

Em poucas quadras ele acessa a rodovia e liga o som, sintonizando a Rádio Cultura Municipal de Amparo. O locutor informa que o vereador assim assado está propondo um projeto de lei assim assado e na sequência toca uma canção natalina e aveludada de Michael Bublé. Ele nem mora em Amparo, mas sabe que a rua do bairro assim assado será asfaltada, pois gosta de música instrumental também, dessas que tem saxofone, contrabaixo, piano e melodia, principalmente melodia. Isso ajuda na estrada.

Nos arredores de Itapira, a paisagem rural, mesclada com os contrafortes da Serra da Mantiqueira ao fundo, o fez lamentar por não ter trazido sua câmera fotográfica. Foto de celular não vale. Mas esta constatação foi interrompida pela sensação da bexiga lhe apertando.

"Punta de la miercoles, envelhecer é uma boshta, mesmo!" - Ele pensou.

Estacionou o carro perto de uma moita no acostamento, que não era muito alta. O vento refrescou suas partes íntimas assim que baixou a braguilha, mas fez os respingos atingirem suas calças. Uma caminhonete passou perto e o carona gritou:

- Mijão!

Ele deu tanta risada que a urina respingou também em seus sapatos. Aos menos estava curado de um trauma de infância. Quando garoto, o Passat de seu pai teve um pneu furado numa viagem em família. Tiveram que colocar as malas para o chão para acessar o estepe. A pista tinha um leve aclive e o acostamento contava com guia e sarjeta naquele ponto. O moleque escolheu o lado de cima para fazer xixi. O riozinho amarelo foi em direção às malas. Correram para tirá-las dali. A bronca foi homérica, de virar a orelha do avesso. O coitado ficou vários anos sem se aliviar na beira da estrada.

Também na beira da estrada principal ele avistou o acesso para o bairro da Ponte Nova, que agora tem uma ponte nova de fato, cujos caminhos vicinais são mais tranquilos e encurtam a viagem até Águas de Lindóia. Ante de chegar, deu tempo de responder ao cumprimento do autêntico capiau com uma enxada sobre o ombro direito, puxando o cavalo com a outra mão, sob seu chapéu de palha. No interior é assim, você se sente em casa, mesmo estando longe dela. Vai desviando das galinhas caipiras que cruzam na sua frente, como se fossem estudantes caminhando nos arredores das escolas particulares, com seus celulares e fones de ouvido.

Ele estaciona seu carro velho perto do Hotel Monte Real. Ao lado tem um bosque que liga a parte baixa à parte alta da cidade. Nas suas alamedas funciona uma feira de artesanato. O primeiro pensamento é sobre sua filha:

"O que posso dar para ela, se ela já tem tudo que precisa?"

Então conclui que quem mais precisa é a senhora da barraca de bordados: ela precisa vender bem nesta época do ano e garantir uma folga para as contas que chegam em janeiro.

- Quanto custa essa boneca de pano?

Ele sabe que logo a boneca será esquecida no alto do armário, mas a ternura desenhada no rosto do brinquedo fará sua filha sorrir quando desembrulhar o pacote.

"Feito. Agora precisamos cuidar do afilhado. Moleque gosta de carrinho." - E logo ele se deparou com um tabuleiro repleto de carrinhos de madeira envernizada, um deles muito parecido com o próprio conversível estacionado lá em baixo.

O joelho esquerdo começou a falsear naqueles degraus de pedras margeando árvores frondosas. De repente a perna estalou e o incômodo foi embora.

"Punta de la miercoles, envelhecer é uma boshta, mesmo!"

Depois de providenciar os presentes dos mais jovens da família, ele se voltou para os mais velhos. Lembrou que Monte Sião, nas Minas Gerais, era ali pertinho e que tinha várias lojas de tricô. As mulheres adoram blusas de tricô. Não tem como errar. Para não criar birra com a esposa, ele decidiu dar uma malha para sua mãe e outra parecida para sua sogra. Por sorte, as duas são esbeltas, com alturas semelhantes - o que facilita a escolha.

"Se elas quiserem trocar as blusas, terei que trazê-las aqui pessoalmente, mas vou correr o risco." - Matutou, enquanto caminhava pela praça repleta de murtas esculpidas por tesouras, formando imagens variadas em torno de um coreto, diante da Igreja Matriz onde o pipoqueiro e o vendedor de algodão doce ganham a vida. De relance, teve a convicção de ter visto uma amigo de longa data saindo de trás de um daqueles arbustos, para desaparecer atrás de outro. Foi em busca dele, sem sucesso, e concluiu que nesta época do ano os fantasmas do passado aparecem com mais frequência. Aquele saudoso amigo era um deles ou apenas alguém muito parecido.

O sol a pino lhe deu sede e a fome trouxe em sua memória aquele dia onde almoçou no restaurante de uma fazenda. O sanduíche de salame, ricota, folhas de rúcula e tomates secos, temperado com mel, orégano e azeite num pão de casca grossa, despertou a vontade de voltar para o Estado de São Paulo. O centro de Serra Negra estava congestionado e o jeito foi deixar o carro numa vila e dar umas pernadas, até sentir o cheiro de pasteis sendo fritos na varanda de um sobrado, de frente para a calçada. 

- Quero um pastel de banana com queijo. Capricha no pó de canela, por favor.

O caldo de cana com suco de limão e raspas de gengibre completou a refeição, feita de pé, ali mesmo, vendo as pessoas caminharem com suas sacolas de compras. O trenzinho, pintado com personagens da Disney brincando com a Turma da Mônica, buzinou. A crianças nos colos de seus pais acenavam como se tivessem vencido uma Copa do Mundo. Ele se lamentou por não ter insistido para sua esposa estar junto. Mas quem ficaria com a filha adoentada em casa?

"Ela merece um presente chique" - Concluiu. E avistou, numa vitrine, uma bolsa de couro com fecho dourado. Quase comprou também uma jaqueta de motociclista, mas desistiu, por não ter moto na garagem. Ao ver seu reflexo naquela vitrine, reparou em seu estômago ficando saliente, em suas olheiras irreversíveis e em sua barba rala, salpicada de pelos brancos que há pouco tempo eram ruivos. Aquela jaqueta apenas o deixaria com cara de tiozão, resignou-se.

Para não passar recibo de tiozão, evitou devolver o sorriso para as meninas que cruzaram seu caminho naquela calçada. As jovens não estavam ali só para fazer compras, mas para conhecer gente nova. É isso que leva as pessoas para as ruas, também. Então, ele colocou suas mãos nos bolsos ao se dar conta de que não estava usando aliança.

"Preciso levar a aliança para alargar. Até meus dedos engordaram um pouco." - E se conformou ao se iludir que, se aquelas garotas repararam nele, era sinal de que ainda tinha um pouco de charme diluído em seu metro e oitenta de altura e olhos cor de oliva. Ou quem sabe foi apenas uma coincidência e elas estavam rindo de outra coisa: da sua aparência de tiozão deslocado, por exemplo.

Voltou para seu carro. Decidiu ir para Monte Alegra do Sul pelo caminho da serrinha. Seis quilômetros de puro êxtase. Curva para a direita. Redução de quarta para terceira marcha. A mão direita fica sobre a alavanca de câmbio. A mão esquerda controla a direção. O pé esquerdo dosa o contato com o pedal da embreagem. O pé direito se alterna entre o freio e o acelerador. Retomada numa pequena reta. Quarta marcha. Já reduz antes de entrar na curva para a esquerda. Faz o punta-taco. Pé direito sobre o pedal do freio e o acelerador ao mesmo tempo. Alivia o pé esquerdo da embreagem. O carro dá uma estilingada para frente e ameaça escapar na saída da curva, pela tangente. É preciso corrigir a manobra no volante, com viradas intermitentes para o centro da curva. A traseira quase escapa. A luz do sol pisca entre as copas dos eucaliptos. A cabeça se inclina para fora da janela lateral. O pescoço fica enrijecido. A ventania enxagua as orelhas com aquele cheiro de pinho, anestesiando os urros do motor. Mais ninguém ali naquela estrada. Só um homem de meia idade e seu carro velho. A sensação de liberdade e de plenitude num momento fugaz.

Então, surge um sedan bem mais lento na frente. Nada de ultrapassagem. É preciso deixar a adrenalina baixar e agradecer por não estar fazendo compras de Natal num shopping-center lotado. Fila para entrar no estacionamento. Fila para validar o cartão. Fila para experimentar a roupa no provador. Fila no caixa da loja de departamentos. Fila para sentar na mesa do restaurante. Fora a fila do banheiro feminino, que maltrata a esposa e faz o marido esperar também. Como era bom fugir daquilo tudo e dar o suado dinheiro para pessoas diferentes, em lugares diferentes.

Ao passar por um oratório na beira do caminho, ele agradeceu por não ser mais um naquela multidão de outrora. Ao chegar numa encruzilhada, tentou se orientar para escolher a rota certa até aquela adega que visitou quando ainda era solteiro. Decidiu dar uma garrafa de vinho tinto seco para seu pai e vinho tinto suave para seu sogro, em consonância com suas respectivas personalidades. Tudo bem que não era um vinho chileno ou argentino, mas era um vinho bom, daqueles que você não encontra em supermercados.

Ainda na saída de Monte Alegre do Sul, percebeu que precisava abastecer o carro. Parou no posto que fica perto do portal principal da pequena cidade. Um garotinho no carro ao lado apontou o dedo e sorriu:

- Olha que carro legal, papai!

Pai e filho se aproximaram, enquanto o frentista procurava pelo bocal do tanque de gasolina. O dono do carro antigo e exótico desceu para abrir o capô, onde fica o tanque, e deixou a porta aberta, falando diretamente ao menino:

- Pode sentar.

- Você não tem ciúmes do carro? - O pai indagou.

- Só da minha patroa. - Respondeu. Notando que o pai sacara o celular do bolso, se ofereceu para tirar uma foto dele com seu filho a bordo de um carro tão diferente.

Aquelas interações com desconhecidos o faziam se sentir mais humano e menos egoísta. Na volta para casa fez uma parada em Pedreira, para tomar um cappuccino e saborear um porção de crostoli, no Circolo Italiano, onde fica o Café da Santa, nas margens do Rio Jaguari. Ficou observando o lento curso das águas, como se fosse a própria vida escorrendo por uma ampulheta. O dono do bar não estava lá e ficou sem o abraço do cliente fiel, quem sabe um amigo.

Pedreira já foi notória por suas porcelanas, mas tornou-se também um polo de artefatos de decoração. Faltava comprar o presente para a irmã. Ele escolheu um moedor manual de grãos de café torrado, com uma cuba de latão sobre uma caixeta de madeira e uma gavetinha para tirar o pó. Na mesma loja viu um quadro de MDF, com o desenho de um Alfa Romeo dos anos de 1930, recortado numa camada adicional para se destacar do cenário de largada de uma prova de regularidade. O bólido vermelho parecia com o próprio carro, de modo que aquela foi a última compra do dia. Para ele mesmo, afinal de contas, ele merecia.

Antes de voltar para a própria cidade, fez uma barriga para passear por Holambra, já ao anoitecer. A cidade turística estava enfeitada com luzes em seus prédios típicos e nas árvores de suas ruas largas, que margeiam lagoas. O trânsito estava lento, pois muitas pessoas caminhavam pelas atrações do lugar, em grandes grupos. Tios, primos, avós, amigos, casais de namorados. Todos atraídos pelas luzes de Natal, querendo extrair do ambiente aquele sentimento de esperança que faz cada um acreditar que o ano que vem será melhor, pois cada um precisa ser melhor também.

Naquele instante, sozinho a bordo de seu carro de Papai Noel, sentiu-se ele mesmo como um fantasma de Natal, não querendo chamar a atenção dos outros. Sentiu falta de sua esposa e de sua filha. Queria estar lá com elas e compreendeu o quanto as amava. Queria, novamente, ser mais um na multidão. Ele não nos deixou mais o acompanhar na sua jornada. Interrompeu a conexão que transmitia sons, imagens e pensamentos para o narrador deste conto e foi-se embora, não se sabe por onde.

Veja também:

Um Natal a bordo do MP Lafer

A escolha do Papai Noel

Carro na estrada para Monte Alegre do Sul

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2 comentários:

  1. Texto maravilhoso. Valorização das pequenas coisas da vida, que, na verdade, são as coisas essenciais, que nos fazem realnente felizes. Obrigado por partilhar!

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    1. Caro Aldo, que honra e que prazer ler seu comentário. Um dia espero poder apertar sua mão pessoalmente. Abraço!

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