Um encontro fora de série na Alemanha

Uma coleção de MP Lafer reunida diante do Castelo Wissem em Troisdorf, Alemanha. (foto: MP Lafer Germany)
Uma coleção de MP Lafer reunida diante do Castelo Wissem em Troisdorf, Alemanha.

Era uma vez um designer de móveis, sócio de uma fábrica de móveis. Um dia ele resolveu que iria fabricar um carro no Brasil. Pessoas de bom senso (ou seriam pessoas de senso comum?) tentaram demovê-lo da ideia.

- Você já é um empresário de sucesso. Para que se meter a fabricar um carro? Isso não vai dar certo.

Imagina se ele deu ouvidos para a torcida. O entusiasmo pelos carros já estava em seu íntimo antes mesmo de fazer o primeiro risco na faculdade de Arquitetura.

O carro, você já sabe o nome: é o MP Lafer, apresentado pela primeira vez no Salão do Automóvel de São Paulo em 1972. O arquiteto por trás da iniciativa é Percival Lafer.

Percival Lafer concede entrevista para o programa "PS - Das Automagazin"  do canal alemão N-TV. (foto: MP Lafer Germany)
Percival Lafer concede entrevista para o programa "PS - Das Automagazin"  do canal alemão N-TV.

A década de 1980 chegou trazendo uma grande recessão para o Brasil. Eram tempos difíceis, de muita inflação e poucas esperanças. As empresas tombavam no chão feito vítimas da Gripe Espanhola. A Lafer também sentiu as dores do país e contratou consultores para se reestruturar para uma nova realidade.

Os engravatados recomendaram interromper a produção do carro. A Lafer deveria se concentrar apenas no que era líder. No caso, a produção de móveis articulados com qualidade para exportação. Percival foi contra: ele insistiu na continuidade do projeto do veículo e estendeu sua fabricação até 1990. A Lafer está de pé até hoje.

O MP Lafer foi um carro fora de série por 18 anos. Mais de quatro mil exemplares foram fabricados. A maior parte deles está aí para contar a história.

O gramado do hotel nos arredores de Colônia nunca ficou tão colorido. (foto: MP Lafer Germany)
O gramado do hotel nos arredores de Colônia nunca ficou tão colorido.

Permitam-me a ousadia de entrar nesta história em 1997. Meu nome é Jean Tosetto. Naquela época era um estudante de Arquitetura. Foi o ano mais difícil da minha vida. Um acidente de trânsito havia levado parte da minha família, inclusive meu irmão.

Foram meses de muita tristeza. Quando apareceu um MP Lafer 1974 para vender em nossa cidade (Paulínia) minha mãe me levou para ver o carro. Ela sabia que eu adorava aquele modelo desde criança. Ela viu meus olhos brilharem pela primeira vez depois da tragédia. Ela convenceu meu pai a me dar o carro de presente.

Pessoas de senso comum disseram:

- Jean, esse carro é complicado para cuidar. Onde você vai encontrar peças para ele? E se você bater o carro? Não tem seguro. E se roubarem?

Nesta imagem, 13 MPs alinhados. Mais dois chegariam no dia seguinte. (foto: MP Lafer Germany)
Nesta imagem, 13 MPs alinhados. Mais dois chegariam no dia seguinte.

Farei um corte na linha do tempo. Vamos para 2012. Resolvi escrever um livro sobre a história do MP Lafer. Duvidaram de mim. E daí? Nunca dei bola para a torcida. E deste modo surgiu "MP Lafer: a recriação de um ícone".

Apresentei o livro para as editoras. Algumas sequer responderam. Outras pediram seis meses para retornar. Um editor recusou o projeto, pois eu havia escrito demais e aquele livro deveria ser mais visual do que textual. Me recomendaram pedir patrocínio para a própria Lafer. Falaram que eu podia fazer uma vaquinha na Internet, também.

Disse a mim mesmo que não pediria um centavo para ninguém. Fundei a própria editora para publicar o livro, que também seria fora de série. Contratei a gráfica pelo valor de um carro zero quilômetro que, aliás, nunca tive. Encomendei mil exemplares.

Logicamente foi um empreendimento muito pequeno em relação ao que foi aportado no projeto do MP Lafer. Mas algo me diz que o livro honrou o seu propósito.

Os participantes do encontro de MP Lafer na Alemanha com exemplares do livro que conta a história do carro, ofertados pelo criador do mesmo. Surreal. (foto: MP Lafer Germany)
Os participantes do encontro de MP Lafer na Alemanha com exemplares do livro que conta a história do carro, ofertados pelo criador do mesmo. Surreal.

Na virada de 2016 para 2017 recebi uma requisição de compra de mais um exemplar do livro. O alemão descendente de poloneses (assim como também sou, por parte de mãe) Miro Dudek estava passando férias no Brasil. O endereço para entrega era de uma pousada no litoral nordestino. Quase não deu certo. O livro chegou poucas horas antes do embarque do casal para a Alemanha.

O Dudek já trabalhou no Brasil, casou com uma brasileira e levou um MP Lafer para a Europa. Ele se comunica bem em português e deve ter gostado da leitura, ou não teria entrado em contato com Ludwig Stolz, responsável pelo site do MP Lafer na Alemanha. Quando o Stolz resolveu criar a página, certamente alguém disse:

- Para que fazer isso? Quase não existem carros da Lafer na Alemanha. Enfim, tem gosto para tudo...

Sinceramente, apenas imagino que disseram ou pensaram isso. O Stolz não me contou. Ele apenas levou seu sonho adiante, como levei os meus. Seguindo os moldes dos passeios anuais do Clube MP Lafer Brasil, ele teve a ousadia de organizar um encontro anual de MP Lafer na Alemanha. Cada edição numa cidade diferente.

Ludwig e Heike Stolz, Percival Lafer, Iracema Rocha, Miro Dudek e Branca Lafer: um almoço inusitado. (foto: MP Lafer Germany)
Ludwig e Heike Stolz, Percival Lafer, Iracema Rocha, Miro Dudek e Branca Lafer: um almoço inusitado.

Neste ano o evento seria realizado em Colônia. Como o Dudek interferiu na história? Ele entrou em contato com o Percival Lafer, que mantém uma página no Facebook. Convidar não custa nada e Dudek perguntou se Percival poderia participar do evento na Alemanha, neste ano.

A Lafer está fazendo 90 anos e creio que isso pesou para Percival aceitar o convite. A previsão era reunir 15 automóveis em Colônia. Um número baixo para os padrões brasileiros (nos eventos daqui reunimos 70 carros, em média), mas excepcional em qualquer país da Europa.

Um mês antes do encontro, realizado no terceiro fim de semana de agosto, recebi a visita da Doutora Maria Cristina Gervasi, uma italiana também em férias no Brasil. Ela passou parte da juventude por aqui e seu pai tinha um MP Lafer. Ela comprou outra unidade recentemente em Roma e estava ansiosa para participar do evento na Alemanha. Tive o prazer de autografar um livro para ela.

O menino Jacob abre a porta do MP de sua mãe, Cristina Gervasi, para Branca, ao lado do Percival ao volante do carro. (foto: MP Lafer Germany)
O menino Jacob abre a porta do MP de sua mãe, Cristina Gervasi, para Branca, ao lado do Percival ao volante do carro.

Na ocasião, não sabíamos que o Percival também iria participar do evento. Só soube poucos dias antes, quando o próprio Percival entrou em contato comigo, para encomendar um lote de exemplares do livro, que ele daria de presente para cada proprietário de MP Lafer que participasse do encontro em Colônia.

Nunca um nó na garganta me imobilizou por tanto tempo.

Branca e Percival Lafer, o MP com seu livro no para-brisa, Ludwig e Heike Stolz, além da Monika. (foto: MP Lafer Germany)
Branca e Percival Lafer, o MP com seu livro no para-brisa, Ludwig e Heike Stolz, além da Monika.

As fotos contam melhor do que as palavras o que aconteceu desde então. O encontro de MP Lafer em Colônia reuniu os 15 veículos esperados. As pessoas de fora deste ambiente mágico podem perguntar:

- Quem são esses malucos?

Respondo: somos malucos apaixonados por um carrinho especial de bom. Não sabemos explicar o que ele tem, que faz gente tão interessante se aglutinar em torno dele. O que sabemos é que temos que agradecer.

Obrigado Percival Lafer, Miro Dudek, Ludwig Stolz, Cristina Gervasi, e tantas pessoas iluminadas que vamos conhecendo nesta vida que, segundo o filósofo alemão Schopenhauer, é apenas um hiato entre duas eternidades.

Que seja um hiato fora de série.

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4 comentários:

  1. Tosetto, meu caro... que coisa linda.
    Isso é uma injeção de energia e disposição para enfrentar dragões por mais uns dez anos, né não?
    Até lá, certamente surgirão outros momentos como este e assim seguimos a vida, sempre recarregando as energias.
    Parabéns, meu amigo, por fazer parte de uma história tão bonita, cheia de empreendedores corajosos e determinados.

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    1. Caro Ênio, quero registrar um agradecimento especial para o jornalista Flavio Gomes. Ele, antes de todos os seus colegas da imprensa especializada em automobilismo, deu espaço para divulgação do livro do MP Lafer ainda em 2012, de forma completamente espontânea. Sem saber, ele me ajudou muito.
      E sim, vamos seguir em frente, juntos. Aprendi com os mestres do ofício e da vida que não podemos nos acomodar. O mundo gira, também, por causa dos inconformados, que não aceitam as cascas da rotina que tentam engessá-los.
      Obrigado, amigo!

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  2. Bonita história, vivemos para isto.

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    1. Obrigado, Mário. Um brinde à vida!

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