Jaguar XK 120 – versão Nicoletti

Réplica do Jaguar XK 120 concebida por Adilson Nicoletti.
Réplica do Jaguar XK 120 concebida por Adilson Nicoletti.

Uma réplica é, acima de tudo, uma homenagem. Os brasileiros órfãos dos clássicos esportivos ingleses se especializaram em reproduzi-los com talento e paixão genuína.

Por Jean Tosetto *

A juventude brasileira tem uma compreensível dificuldade para imaginar o que é um continente inteiro padecer por causa de uma Grande Guerra, como aconteceu com a Europa entre 1939 e 1945, quando o desenvolvimento de produtos com fins civis foi congelado em prol dos esforços militares contra o nazismo.

Isso afetou especialmente a indústria automobilística e, mesmo com a capitulação da Alemanha e sua consequente divisão em duas por causa do início da Guerra Fria, levou alguns anos para se reorganizar e lançar novos modelos.

Por aí é possível ter uma ideia do assombro que foi a apresentação do "roadster" Jaguar XK 120 na Inglaterra, em 1948. O nome do carro tinha explicação: Jaguar no lugar de SS para evitar qualquer referência à suástica de Hitler, X de motor experimental, K da versão adotada e 120 para indicar a velocidade final em milhas por hora.

Diante da incredulidade da imprensa especializada, o conversível foi testado publicamente, atingindo 126 milhas por hora, aproximadamente 193 km/h. Semanas depois o modelo foi à prova novamente, rompendo a barreira dos 200 km/h, graças ao motor de seis cilindros em linha empurrando menos de 1300 quilos. Nascia uma lenda, que faria do Jaguar uma marca idolatrada até hoje.

As linhas sinuosas e aerodinâmicas do Jaguar XK 120 seduziram os especialistas logo em sua apresentação.
As linhas sinuosas e aerodinâmicas do Jaguar XK 120 seduziram os especialistas logo em sua apresentação.

Poucas unidades do XK 120, fabricado até 1954, chegaram ao Brasil. Na década de 1970 o governo militar praticamente fechou o mercado de automóveis importados, favorecendo a origem de uma série de pequenas empresas construtoras de veículos especiais, entre eles o MP Lafer e o Avallone TF, inspirados em outra mítica marca inglesa, a MG.

Em 1977, motivado pelo sucesso destes carros, o jovem Henrique Erwenne, apaixonado pelo XK 120, decidiu gastar suas economias na construção de uma versão brasileira, construída sobre o chassi de um Chevrolet Opala com motor 250S, também de seis cilindros em linha.

Para tanto, desmontou uma unidade original do Jaguar para elaborar os moldes da carroceria, que seria de fibra de vidro reforçada. Em função de medidas distintas – de suspensão e diferencial – entre os conjuntos mecânicos do Jaguar e da GM, foi preciso alargar a grade frontal do motor e o para-brisa. O resultado, que poderia ser desastroso, revelou-se harmônico.

Finalmente em 1981, após vários aprimoramentos, Henrique Erwenne lançou sua réplica do Jaguar XK 120 com a denominação de Fera XK 4.1 HE – as iniciais de seu próprio nome. Doze exemplares foram produzidos pela Bola Artefatos Metálicos S.A. até 1983 – tempo suficiente para enlouquecer outros jovens desta geração.

É o caso de Adílson Nicoletti, de Itapetininga no interior de São Paulo. Naquela época ele era membro da seleção brasileira de ciclismo e confesso devorador de revistas sobre carros. Quando folheou uma edição da saudosa Motor 3, com uma reportagem sobre o Fera XK, Nicoletti se apaixonou triplamente: pelo Jaguar XK 120, pelo Fera XK e pela ideia de construir, ele mesmo, um automóvel como aquele.

Painel em madeira bem equipado. O cubo central do volante, por segurança, perdeu a ogiva do modelo original.
Painel em madeira bem equipado. O cubo central do volante, por segurança, perdeu a ogiva do modelo original.

A mala do XK 120 guarda o estepe e as janelas laterais abotoáveis de plástico.
A mala do XK 120 guarda o estepe e as janelas laterais abotoáveis de plástico.

Este sonho teve que esperar por cerca de um quarto de século – tempo suficiente para se formar em três faculdades: Engenharia da Computação, Administração de Empresas e Direito. Uma profícua carreira como funcionário público se estendeu até a câmara de vereadores na sua cidade, paralelamente ao seu interesse por carros antigos, que comprou e vendeu várias vezes.

Por volta de 2005 chegou a hora de acertar as contas com o passado e levar adiante o projeto de construir a sua versão do Jaguar XK 120. Nicoletti começou sua longa trajetória procurando pelos moldes do Fera XK, mas o tempo, e o desgaste das peças, o obrigou a desenvolver novos moldes.

O chassi lhe consumiu incontáveis horas de empenho, até chegar numa solução tubular em aço, capaz de abrigar os modernos componentes mecânicos escolhidos para favorecer o desempenho, a segurança e a facilidade de manutenção do veículo.

Meia década depois parte do sonho se realizava: Nicoletti homologou o carro nos órgãos competentes e apresentou sua cria durante um evento festivo do Clube MP Lafer Brasil em São Roque, em dezembro de 2010. Foi nesta ocasião que tivemos a honra de guiar o carro pela primeira vez, sem negar que também nos apaixonamos pela áurea que cerca aquelas linhas sensuais e esportivas.

O Jaguar do Nicoletti conta com motor 4.1 MPFi do Chevrolet Ômega – sempre com seis cilindros em linha; tem direção hidráulica, câmbio de cinco marchas, freios servo-assistidos e pneus Hankook 215/70 R15. Tal qual o modelo inglês, ultrapassa os 200 km/h, embora não pudemos aferir isso enquanto estávamos ao volante do carro.

Aliás, dirigir o XK de Itapetininga é um êxtase, a começar pelo capô do motor, que parece interminável. O volante de madeira com quatro raios vai rente ao nosso tórax, pois o acento do motorista é praticamente colado no assoalho, com encosto nos obrigando a ficar numa posição ereta, com metade das costas expostas na traseira do veículo.

O motor do Chevrolet Ômega acomodado logo atrás da barra que ajuda no travamento da carroceria.
O motor do Chevrolet Ômega acomodado logo atrás da barra que ajuda no travamento da carroceria.

Os bancos do motorista e passageiro vão colados no assoalho do carro.
Os bancos do motorista e passageiro vão colados no assoalho do carro.

O passeio pelas sinuosas estradinhas vicinais de São Roque reverbera em nossa mente até hoje. O motor não tomava conhecimento das ladeiras íngremes, com o acelerador respondendo ao mais suave toque do pé direito.

Naqueles primeiros quilômetros rodados do veículo, com a carroceria ainda se acomodando ao chassi, pequenos ruídos típicos de modelos construídos em fibra se faziam presentes. Nada que incomodasse – o mesmo se aplica aos retrovisores postados sobre as caixas das rodas dianteiras, elegantes e inócuos.

Uma sensação ímpar de poder e invencibilidade toma conta de quem dirige este carro. Foi difícil entregar as chaves do mesmo e encerrar as impressões ao volante.

Para nosso espanto, o Nicoletti negociou o carro. Era a parte final de seu sonho: construir um carro tão bom que pudesse ser vendido. Além do mais ele deseja construir um segundo modelo, mais espartano, para “track days” em autódromos.

Pudemos matar as saudades deste Jaguar XK no Primeiro Encontro Brasileiro de Autos Antigos de Águas de Lindóia, em 2014. O carro foi exposto pelo Marcos Anazetti, diretor da Golden Park Services Ltda., de São Paulo. A fera continua linda.

Portas e capôs abertos: a carroceria em fibra deste XK é toda funcional.
Portas e capôs abertos: a carroceria em fibra desta réplica é toda funcional.

Leia mais artigos da coluna "Editor Volante".
* Jean Tosetto é arquiteto desde 1999 e editor do site mplafer.net desde 2001. É também autor do livro “MP Lafer: a recriação de um ícone” - lançado em 2012. 

RevistaMotorMachine.blogspot.com.br



 Este artigo foi publicado originalmente na Revista MotorMachine número 09, em agosto de 2014.

Um comentário:

  1. Procuro um para comprar de preferência com cor Branca e motor 2.0 4 cilindros. Quem souber de algo assim obséquio me informar que serei muito grato. (email: bobmorales2008@gmail.com )

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